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Cegueira sobre negrume

por Rosane Pavam publicado 27/10/2008 15h20, última modificação 16/09/2010 15h22
Minha cidade é como as outras. Maior ou menor do que tudo o que espero dela. Minha cidade é bonita, com uma estranheza. A mesquinhez atravessa muitas de suas intenções. Minha cidade, que é a mesma de Oswald e Mario de Andrade, de Sergio Buarque de Holanda e de Caio Prado Jr., anda por onde não espero.

Minha cidade é como as outras. Maior ou menor do que tudo o que espero dela. Minha cidade é bonita, com uma estranheza. A mesquinhez atravessa muitas de suas intenções. Minha cidade, que é a mesma de Oswald e Mario de Andrade, de Sergio Buarque de Holanda e de Caio Prado Jr., anda por onde não espero.

Não se trata de ser cega ou não. Na minha cidade os cegos podem ver, exatamente como todos os outros seres a seu redor. Nesta minha cidade que é como as outras, ver não é um privilégio. É uma escolha.

Ouço de uma estudante de Direito, ademais delicada, simpática para com os necessitados e os velhos de minha vizinhança, uma pergunta estarrecedora, nascida de seus grandes olhos confiantes. "Por que resolvem tudo desse jeito? Por que os pobres se matam?"

É como se de repente eu estancasse sobre a linha do trem. Sei que o comentário é lateral e aparentemente desimportante, ainda que gire em torno de um evento responsável por traumatizar o país. Mas creio vezes várias que a importância, ou o caminho para entender alguns dos grandes acontecimentos cotidianos, pode estar nos lados, como ensinou o fotógrafo Henri Cartier-Bresson.

De volta à moça que se avizinha a mim, ela não entende muitas coisas. Como ela, não alcanço os mistérios. E o que ela não entende me dói conhecer.

Ela não sabe por que um jovem sem posses seqüestra por alguns dias uma menina, ou por que a menina, de família igualmente modesta, deixa-se seqüestrar por ele, como se esta fosse uma hipótese a ser considerada, e por que tudo, entre eles, tem de acabar como num dramalhão do México. Por que os dois namoraram? E, mais estranho, por que terminaram o namoro? E por que um revólver sempre habita a tragédia suburbana que é deles?

Minha interlocutora simpática, que habita minha cidade bonita, mas um pouco estranha, vê tudo branco. Em seu mundo, argumenta, as pessoas conversam, amam-se ou abandonam-se, não sem dor, mas com cordialidade. Seu mundo não é o dos pobres seqüestradores e suas vítimas mortas. Seu mundo é, isto sim, como uma doce calda de marshmallow sobre o negrume, que insiste em ser mais vasto do que antes.

No mundo negro que é dos outros, esse mundo chocolate de leite das favelas e dos subúrbios do abc paulista, as emoções se jogam como em uma roleta, para ela, incompreensível. Um pobre mata, ela diz, porque não pensa. O chocolate do pobre não tem calda. Não ainda.

É neste momento que a jovem me faz ver por onde caminha minha cidade, que é bonita, mas um pouco estranha. O caminho da minha cidade é o da dissolução.

Uma dissolução da civilidade, a bem dizer. Quem vê no pobre esta bárbara diferença está pensando à moda de um eugenista do século 19. Um médico como Lombroso propunha uma brincadeira, ademais estúpida, não uma ciência, porque naquele século aventureiro era por meio de tal jogo ilusório que se explicavam a dominação e o butim das nações.

Eles, os dominadores do século XIX, raciocinavam mais ou menos assim: podemos saquear, matar, prender as figuras inferiores a nós, como fazemos com os macacos, sem que isto nos afete sobre o travesseiro, já que Lombroso determinou que alguns ossos maiores ou menores na cara podem explicar a alma degenerada de quem a possui.

Este raciocínio lombrosiano ajudou os eugenistas a se livrarem da má consciência e a prosseguirem tranquilamente fazendo seu trabalho de segregar, moral e socialmente, seus subjugados. Se a raça justifica a pobreza, eliminemos a raça, que a pobreza desaparecerá. Mas a farsa eugênica, que resultou no genocídio como estratégia de guerra durante os anos 40, não merece mais o crédito de nenhum cientista vivente. A eugenia acabou. Ou não?

Hoje, nesta minha cidade branca um pouco estranha, até o reino mineral, para usar a expressão inventiva, sabe que os pobres, direta ou indiretamente, não matam mais do que os ricos, não são mais bonitos ou feios do que os ricos, e que os pobres, como os ricos, apenas são.

E, se somos pobres ou ricos, somos os agentes de um mesmo pensamento, econômico ou filosófico, partícipes de uma mesma razão social. Os ricos também matam seus pais, suas namoradas, suas avós e consideradas. "Mas não desse jeito abrupto!", minha interlocutora insiste em responder. Não, claro.
Passo de minha interlocutora à realidade fatal. Não é em minha cidade que são eugenistas ou brancos ou estúpidos ou enganados ou pequenos. É em algum lugar maior brasileiro onde a humanidade estancou.

Anos atrás, esses mesmos habitantes de minha cidade um pouco estranha e branca reclamavam que um filme como o que fez José Padilha sobre o seqüestro do ônibus 174 vitimizava o pobre, ou explicava o erro do seqüestrador apenas por sua condição social. Um bom filme, pelo menos, fez esse Padilha. Ônibus 174, o documentário, promove o jornalismo difícil e básico de levantar os diversos lados de um fato. Neste filme, falam também os policiais. Sabemos, pelo menos, quem são as vítimas. Nós.

O Brasil fala eugenicamente, de um jeito que nem mesmo é velado, por todos os poros, e ainda a todo instante. E fala assim porque este é o país onde nada pode funcionar direito, onde nenhuma instituição parece pronta para ser julgada, já que vive de estar enfraquecida como um coração de pai ou coronel, e onde, todos os dias, os julgados de forma sumária são os pobres e seu negrume.