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Resposta

Carta resposta à Djamila Ribeiro e ao texto ‘Antes de boicotar Elza Soares, repense o seu racismo’

por Tay Nascimento — publicado 04/07/2016 17h17, última modificação 07/07/2016 18h18
Acusada de tentar boicote contra Elza Soares debate divisão de trabalho no mercado fonográfico, na cultura e na sociedade

Olá Djamila, tudo bem?

Estou tentando falar com a Carta Capital há uma semana para tentar um direito de resposta ao seu artigo (http://www.cartacapital.com.br/cultura/antes-de-boicotar-elza-soares-repense-o-seu-racismo) e saber o seu contato, 
mas não obtive resposta até agora.

Então pedi o seu contato à outra moça que havia 
repostado seu texto e que foi bem solicita em me ajudar, 
te mandei dois e-mails,
mas também não recebi um retorno seu.

Chamo-me Tayana Nascimento Rodrigues da Silva, 
chamam-me de Tay Nascimento na vida e no Facebook 
(que estava bloqueado até poucos dias devido ao meu post ter sido 
denunciado por racismo, nudez e o meu nome social ter sido questionado). (https://www.facebook.com/taynascimento/posts/10206320782210658
e utilizo o cognome Patricinha Mentiroza nas redes sociais.
Nasci no Rio de Janeiro e moro em São Paulo, 
sou câmera, diretora de fotografia, produtora cultural, 
musicista, artista, engajada, ativista e vadia.

Acredito que antes de qualquer coisa
devo minhas sinceras desculpas 
à Elza, a você e todas as mulheres,
 — principalmente as mulheres negras,
e mulheres mais oprimidas do que eu
que não merecem ser silenciadas por nenhuma luta — 

se pareceu que a idéia era boicotá-la, silenciá-la ou dizer que ela 
ou a potência de seu canto não são feministas. 
Fico feliz que apesar de todo entorno machista, Elza, 
outrxs artistas negrxs, indígenxs, mulheres e/ou trans, 
gays e homens, 
ao longo da história da música, 
da arte, do mundo, tenham sido tão fortes, 
conseguido sobreviver, fazer seu trabalho, 
passar suas mensagens 
e viver tentando não exercitar opressão machista.

Minha luta é um constante exercício de sofrer menos, 
questionar-me, ajudar, informar, juntar pessoas, 
outras idéias, agregar lutas, não apartar e tentar,
de maneira conjunta,
debater, refletir, nos indagar, mudar as coisas
coletivamente e com quem se importa com x outrx.
Exercitar e estimular a não competição 
entre pessoas
mais ainda entre mulheres,
entre nós.

Em nenhum momento tive a intenção de propor
uma vala de “subalternalização à Elza”
ou disse que ela foi 
“usada e não possuía consciência da potência do álbum”
muito menos “boicote” ao disco ou aos shows. 
Interessaria-me muito, mas muito mesmo, 
conversar com Elza pessoalmente e saber sua opinião 
acerca dos abusos silenciados 
e posturas machistas por parte de algumas pessoas 
envolvidas em seu disco. 
Mas já fui criticada antes por indagar mulheres de maneira pública 
acerca de suas opiniões sobre abusos
(https://www.facebook.com/taynascimento/posts/10204984461723481
e não cometeria esse erro de novo questionando isso à ela no Facebook.
Peço desculpas se outrxs pessoas sentiram 
respingar opressão em si pela minha fala.
Estou completamente aberta ao diálogo.
Minha crítica não foi direcionada às mulheres negras,
nem às mulheres, nem a ninguém que é oprimidx.

Ouvi muita gente relatar a grande força que Elza passa nos shows, 
gritando a plenos pulmões que as mulheres não devem se calar, 
dizendo o número do 180, 
reexistindo diversas letras escritas por homens machistas. 
Seria inclusive completamente incoerente da minha parte não reconhecer, 
- já que eu mesma ouço seus outros discos 
e de diversas mulheres, negrxs e de outrxs etnias, gays, trans
brasileirxs e de muitos lugares do mundo
(dxs quais muitos outros homens machistas certamente participaram
e ainda são grande maioria no mercado musical) -
e me influencio muito pela potência de Elza como intérprete,
sua história de luta vital por sobrevivência, 
resistência feminista negra e engajamento.

Não fiz e não vi sequer um comentário responsabilizando Elza,
a ofendendo ou gritando “boicote”
Acredito muito que como feminista, negra reconhecida,
que fez questão de abordar as temáticas feminista, 
negra, gay, trans no disco, 
Elza teria prazer em ter mulheres, negraxs, trans 
empregadas em sua banda, na direção, em diversas frentes do projeto. 
É sintomática a afirmação do produtor e diretor do disco Guilherme Kastrup
em sua última resposta pra Dora e a mim quando o indagamos sobre a falta de mulheres no disco: 
“existem sim na composição, na direção de arte, na iluminação e no quarteto de cordas (quando há orçamento)”. (https://www.facebook.com/taynascimento/posts/10206320782210658?comment_id=10206329843957196&comment_tracking=%7B%22tn%22%3A%22R9%22%7D)
Não há como ignorar que Elza foi convidada 
a participar de um disco por homens, 
com letras escritas em grande maioria por homens, 
protagonismo masculino em peso. 
(http://www.discosdobrasil.com.br/discosdobrasil/consulta/detalhe.php?Id_Disco=DI06781)
 
Considero-me mestiça, brasileira, filha de pai negro e mãe branca, 
com diversas outras descendências negras, brancas, indígenas, brasileiras.
Reconheço meus privilégios de ter nascido com a pele clara e cabelo ondulado e como sou encarada como branca por boa parte da sociedade brasileira (ainda que carregue diversos traços, heranças no meu corpo
e em minha história), 
por ter sido criada em ambiente de classe média no Brasil,
adotada por um pai branco, vivido com uma família de pele clara
e por ter tido a oportunidade de estudar. 
Também sei dos meus sofrimentos femininos
e o não-lugar que me encontro como 
mulher brasileira latina objetificada
aqui e ao redor do mundo
e/ou como artista feminista mestiça 
no mercado de trabalho e na sociedade brasileira.

Não me considero branca, tampouco minha luta.
Mas se você, mulher negra,
sentiu e identificou racismo em meu texto,
não me cabe, nem me interessa
invalidar o seu sentimento.

Também não desrespeito o sofrimento e não acho que mulheres brancas 
não são oprimidas socialmente ou que não possam discutir feminismo, 
racismo, debater feminismo negro, se sensibilizar, consumir, 
usufruir de produtos da indústria cultural negros, arte negra, 
frequentar e participar de ambientes de protagonismo negro,
com os devidos cuidado, respeitando lugares de fala e especificidades.
Só acredito em mudança coletiva,
se todxs podem falar sobre todas as coisas,
estar juntxs e se envolver entre si
com muitas causas
em muitos meios.

De minha parte, assumir-me apenas como mulher branca seria 
tentar apagar minha ancestralidade negra e indígena 
que foram tiradas pela mesma sociedade racista 
que me dá privilégios de tom de cor e classe.
Anular da memória a vivência de todos os dias
e todos os processos históricos e de identidade racial que 
eu e muitas mulheres e mestiçxs vivenciamos no Brasil.
Mesmo que nos salvemos muitas vezes da repressão
e do Estado que dizima e oprime negrxs e pobres todos os dias.

“Minha pele é o passaporte incontestável para ascender um pouco, 
mas nem tanto quanto uma pessoa branca. (sic)
Os anos se passaram mas a política embranquecedora permanece, 
tomou proporções imensuráveis e formas muito peculiares de se desenvolver, 
de apagar a negritude a todo custo. 
Pessoas negras de peles mais claras vão receber a ilusão de uma pseudo aceitação que nunca acontecerá de verdade, 
mas vão até conseguir acessar lugares bem privilegiados. 
Uma pessoa negra da pele escura não. 
Porque a escala de cores age violentamente conforme o tom da pele, 
sem chance de aceitar uma negritude que é latente como marcador positivo. 
E o racismo predomina, seja a pele escura ou clara. 
Assume diferentes nuances 
e o reconhecimento de uma identidade negra se torna mais difícil, 
porque a todo momento vão querer te puxar pro lado branco da coisa.”

(Jész Ipólito em Escurecendo Memórias — http://gordaesapatao.com.br/escurecendo-memorias)

Entretanto, 
a maneira que me identificou como uma “mulher branca” 
e como outras pessoas me identificaram como “sinhazinha”, “feminista de intenções duvidosas”, “branca fazendo branquice” (de forma pejorativa) 
boicotando a Elza, uma mulher negra, 
foram atitudes que fizeram-me voltar sim atrás na forma 
que fiz o meu escracho descuidado,
mas que também podem servir para 
dicotomizar entre brancxs e negrxs e silenciar as denúncias 
a realidade de muitxs brasileirxs mulheres 
e mestiçxs que são filhxs da miscigenação,
estupro, do abuso, do racismo e das relações de poder.
 
Além de proteger e mascarar esse pano de fundo 
dominado por homens 

e promover a velha estratégia machista 
que ainda vejo ser muito propagada em diversos debates:
colocar mulher pra brigar com mulher 
e/ou na disputa por um lugar de destaque. 
O que tinha como intenção juntar forças libertas
de diversas lutas distintas para um debate, 
virou uma luta livre de mulheres.

Admito que fui irresponsável com preservar 
e reforçar que o meu post era focado exposição de prints, (https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10206320428201808&set=pcb.10206320782210658&type=3&theater
singularmente no escracho da postura de 
alguns (não todos, naturalmente) 
músicos homens que nos silenciaram 
e compuseram, tocaram, produziram, dirigiram e trabalharam
no disco “A Mulher do Fim do Mundo” 
São eles Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Rômulo Fróes e Thiago França.
Em nenhuma circunstânca quis atacar Elza,
nem à outra única compositora que participa do disco, Alice Coutinho,
mulheres que assinam direção de arte e iluminação,
nem mulheres que somam o quarteto de cordas,
nem tenho dúvida acerca de suas potências 
como mulheres sobreviventes e talentosas
e de Elza como feminista e intérprete negra.

Fiquei bem abalada de ter sido chamada de racista 
por você e por outras mulheres negras.
E continuarei refletindo e debatendo isso,
sobretudo com quem se ofendeu,
ouvindo amigxs negrxs
e me indagando muito sobre suas falas,
sobre como, através de falas descuidadas minhas,
o debate se desvirtuou tanto de minhas principais intenções:

Expor o modo como mulheres e/ou trans, negrxs, gays,
ainda são minoria na indústria fonográfica e na arte,
mesmo em obras e em ambientes supostamente independentes
que debatem e se dizem feministas, de esquerda e/ou engajadxs.

Como, em minha opinião, 
 faria muito mais sentido se o projeto “A Mulher do Fim do Mundo”, 
uma obra considerada forte para muitxs mulheres e/ou trans
e obras e projetos que se propõe debater esses temas 
empregassem e tivessem maior parte das verbas direcionadas 
para essxs pessoas que se propõe representar.

Relembrar o nosso silenciamento feminino 
por parte de músicos, produtores, público e 
envolvidos com o evento QUINTAVANT
e da casa de shows Audio Rebel e que 
ainda emitem diversas posições machistas publicamente
(como expus nos prints https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10206320428201808&set=pcb.10206320782210658&type=3&theater)
e se negam a assumir seus privilégios.

Concordo que Elza conseguiu e continuará a ressignificar discursos machistas (pra além da maioria de músicos homens em sua banda
e o esqueleto machista da produção)
em seus discos, shows e dará potência e força às mulheres negras, 
e/ou trans, gays e todos que ouvirem sua obra, 
com sua interpretação nesse disco e/ou nos shows,
 — porque como vivenciamos — 
a arte e a industria cultural ainda são muito 
machistas, misóginas, preconceituosas, racistas,
mas sobrevivemos se desenvolvemos nossa 
liberdade e independência crítica, botamos em prática nossas idéias, 
exercitamos a escuta, nos colocamos politicamente,
nos informamos sobre nossas lutas e lutamos juntxs.

Requer-se muita ousadia 
para expor posts, conversas, e-mails pessoais, 
mas essas são algumas das muitas formas de luta que me engajo e
considero eficazes na contemporaneidade em situações de silenciamento,
devido ao grande alcance que nossa fala pode atingir pela internet,
sobretudo para chacoalhar, alertar, informar, 
comunicar, expressar, colocar algo que parece blindado 
em debate nas redes.
Hoje, após alguns anos de trabalho com comunicação,
debate público e engajamento pela internet,
ainda erro e aprendo sobre seus potenciais e eficácia. 
Aliás, só nós mulheres sabemos 
como foram importantes as denúncias de abuso por hashtag 
como #meuprimeiroassédio e #meuamigosecreto 
e como são importantes muitas outras denúncias públicas
para que muitas mulheres tenham coragem de falar sobre abusos, 
exercitar sororidade e empatia.
Vejo mulheres e/ou trans, gays, negrxs ao meu redor muito mais fortes,
menos amedrontadxs em debater e expor abusos, 
experiências, opiniões e preconceitos sofridos.
Por esses motivos tenho hábito de fazer provocações sobre temas, 
discussões que postam em minha timeline 
e que acredito precisarem de outras perspectivas, 
de mais debate, de outros pontos de vista.

O post também foi uma tentativa de esbravejar mais um grito de dor, 
após diversas tentativas de diálogo
e silenciamento dos nossos abusos;
e um desdobramento do fato de que muitxs amigxs vinham 
postando as músicas da Elza, 
reforçando a potência feminista do disco. 
E outrxs amigxs comentando que, 
como eu já imaginava e de praxe, 
nos shows só haviam visto homens no palco. 
Isso talvez não tivesse me impressionado tanto, 
não fossem justamente alguns dos homens que nos silenciaram nos abusos,
dos quais presenciei diversas posturas machistas, 
de acobertamento masculino e desrespeito às mulheres.
Então permita-me tentar não ser silenciada mais uma vez:

Fui proibida de trabalhar no evento QUINTAVANT(https://www.facebook.com/taynascimento/posts/10204979772206246)(evento independente de música experimental) 
e trabalhar na Audio Rebel (casa de shows no RJ)
no final de 2015, sem nenhuma conversa e reunião presencial, 
após denunciar abusos de poder, 
morais, sexuais por parte dos músicos e organizadores desse evento
(Bernardo Oliveira, Pedro Azevedo, Renato Godoy, entre outros) 
no Facebook, quando escrevi um manifesto feminista de cinco páginas, que incluía algumas denúncias sobre o evento na sua quarta parte.
(https://www.facebook.com/notes/tay-nascimento/meu-manifesto-feminista-pt-iv/969860829738478)

Trabalhei com e para eles durante quatro anos produzindo, filmando, 
fotografando, escrevendo, editando e fazendo curadoria
sem ser paga e por puro engajamento com música e 
apostando na potência da música independente
como dispositivo de transformação cultural.
Por esses artistas que acreditei inclusive serem meus amigos,
nesse local que acreditava ser um local aberto a experimentações,
frequentado por pessoas críticas, supostamente desconstruídxs 
ou com anseio de desconstrução 
fui desrespeitada, abusada, subestimada, 
plot de fofocas, intrigas, recalque masculino e desrespeito.
 
Por anos fui a única mulher a trabalhar no projeto
e das poucas pessoas a se importar em agregar mulheres dentro dele.

E mesmo que eu e outras mulheres tenhamos denunciado esses abusos
de poder, morais, sexuais, machistas,
fomos e ainda somos silenciadas 
por quase todos os músicos que participaram/participam,
foram beneficiados, usufruíram 
e diversas vezes não reconheceram 
e ainda não reconhecem
nosso trabalho e não respeitam mulheres. (https://www.facebook.com/taynascimento/posts/10204984398521901)
O que mais me doeu 
e me deixou perdida
foi quando me toquei que fui silenciada
também por muitas mulheres que começaram
a trabalhar posteriormente no projeto,
por amigas que sabiam do ocorrido,
por artistas mulheres,
pelas mulheres de músicos e produtores, 
brancas, negras, mestiças, brasileiras
todas nós oprimidas e separadas pelo machismo.

E percebi que se não berrasse 
mesmo que sozinha para ser ouvida, 
(já que conclui que faz parte do processo de cada um
a forma e que cabe a cada pessoa decidir 
se deve ou não se colocar sobre questões que acha pertinente,
mas também cabe a mim expor quando achar que estamos sendo silenciadas) (https://www.facebook.com/taynascimento/posts/10204983864788558)
ninguém saberia dos absurdos que tinham acontecido naqueles 4 anos,
nem do que ainda acontece por trás dos panos.
Resolvi então fazer diversos posts de escracho na página do evento
e nos eventos que rolariam naquela semana
e expus diversas conversas com os abusadores
e silenciadores dos abusos.
Foi então que conheci Dora e 
descobri que ela estava trabalhando 
para o QUINTAVANT e a Audio Rebel,
que havia sofrido abusos parecidos com os meus 
e feito um post no Facebook. (https://www.facebook.com/dora.moreira.129/posts/992370254160223)
Resolvemos juntar nossas forças e ficamos amigas.
E nos demos a chance de nos ouvir,
em vez de acreditar nas pessoas que tentavam nos deslegitimar
e nos colocar uma contra a outra.
Nossa experiência de abuso nos uniu e
após tanta insistência nossa e para minha surpresa, 
o público dos eventos,
muitas mulherxs, gays e alguns homens,
pessoas que nem nos conheciam 
se sensibilizaram com os nossos textos
e começaram a exigir alguma postura do evento; (https://www.facebook.com/taynascimento/posts/10204983400256945)
que depois de nos silenciar por dias,
fez o seguinte texto nos silenciando mais uma vez
e não respondendo nossas denúncias.
(https://www.facebook.com/quintavant/posts/1009644332452696)

Depois de tanto desgaste tentando algum diálogo com os produtores, 
(ver https://www.facebook.com/taynascimento/posts/10204987251153215 ehttps://www.facebook.com/taynascimento/posts/10204988405262067)
alguns artistas marcaram uma conversa pública que nunca aconteceu,
pois um dos produtores, 
o que foi mais seriamente
denunciado por mim e por Dora por abuso,
Bernardo Oliveira, (https://www.facebook.com/taynascimento/posts/10204752892454394)
marcou antes uma conversa comigo no telefone,
tentou me convencer (mesmo tendo sido diversas vezes abusada por ele)
que o abuso de Dora era mentira e 
também tentou culpar outros artistas por abusos.
No final da conversa ele ainda esboçou me pedir desculpas 
e marcar uma conversa pública.
Mas logo no dia seguinte me bloqueou,
disse para xs artistas e produtores que ele não ia mais na conversa
pois havia se exposto muito para mim ao telefone
e se afastaria do evento.
Assim, xs produtores e artistas fingiram que tudo se resolveu.
Dora está terminando o seu último projeto 
com o QUINTAVANT
e na Audio Rebel.
E eu, após ter sido incontáveis vezes 
abusada e silenciada nesses 4 anos,
acabei criando o hábito de boicotar 
e estimular o boicote ao evento e a casa de shows.
Mesmo com posturas e estratégias de atuação diferentes,
nós continuamos juntas nessa luta contra o silenciamento.
(https://www.facebook.com/dora.moreira.129/posts/1116441078419806?pnref=story
Inclusive Dora também escreveu uma carta de pedido de desculpas às mulheres negras após ler seu texto:
https://www.facebook.com/dora.moreira.129/posts/1118999301497317?pnref=story

Há pouco tempo demos uma nova entrevista a um jornalista (homem)
que pareceu se interessar pela causa, 
mas novamente fomos as únicas mulheres a ser entrevistadas 
e tivemos nossas falas deslegitimadas e silenciadas
pela negação de todos os nossos pontos,
embaixo de cada denúncia nossa.
(http://noisey.vice.com/pt_br/blog/audio-rebel-casa-de-show-rio-de-janeiro)

Muitas pessoas nos perguntam por que nós não judicializamos o caso.
E você, mulher negra engajada com cultura e feminismo,
deve saber bem como funciona a judicialização nesses casos,
como é difícil pras mulheres 
assumir os abusos pra si, em público 
e mais ainda pensar em entrar na justiça quando se é abusada. 
Eu, por exemplo, não tenho grana pra contratar umx advogadx, 
mas farei e me defenderei disso com umx advogadx públicx
ativista se for necessário.
E ainda não creio que o desgaste judicial valha na maioria dos casos,
pois ainda somos muito vulneráveis 
estigmatizadas pela justica — também machista.

Fomos silenciadas e a história nunca se resolveu. 
Pior, aparentemente, Bernardo Oliveira está voltando para o projeto.
Até hoje muitas mulheres que se engajaram
e acompanharam o caso me cobram a resposta dos silenciamentos.
Então decidi que iria tocar no assunto dos abusos sempre que fosse possível, 
que algo me tocasse profundo e eu achasse devido, 
pra que eu e ninguém esqueça que nós fomos silenciadas,
pra que nenhuma outra pessoa seja silenciada por eles
e pra enconrajar outras mulheres que nos apoiaram em nossa luta
a não silenciar seus abusos.

Talvez para muitxs (principalmente os não oprimidos), 
muitxs posturas 
não pareçam posturas feministas a priori, 
ou ao menos reconhecidas pelo feminismo acadêmico ou branco 
(o feminismo educado, com linguagem rebuscada e polida,
que tem mais voz, mas muitas vezes não me contempla)
ou pareçam muito diferentes das atitudes
que estamos acostumadxs a aceitar desde sempre das mulheres:
polidez, discurso rebuscado e educado, fragilidade, 
medo de falar sobre as coisas, 
duvidar da fala feminina, sempre ser colocada à prova ou nos culpabilizar, 
ter medo de se expor e expor xs outrxs, pavor de ser ridicularizada 
ou desligitimar mulheres e agradecer e endereçar sempre aos homens 
todas as oportunidades que são dadas a nós ou à outras mulheres 

- como se eles fossem sempre os merecedores dos agradecimentos 
por todo espaço que nos deveria ser de direito e igualitário,
como se fosse sempre uma questão meritocrática 
(temos sempre que nos provar impecáveis em tudo 
e reforçar nossas participações para que sejamos reconhecidas minimamente),
como se dependêssemos sempre da aprovação,
do apoio deles para ter novas oportunidades

e como se só a reputação deles estivesse em jogo 
quando expomos nosso abusos.

Só uma pessoa abusada sabe o sofrimento que é expor seu abuso.

Se ainda temos medo de perder algo quando falamos de machismo, 
quando nos negamos a compactuar com ele
se ainda nos culpamos entre mulheres por falar das coisas,
se ainda acobertamos amigos abusadores
silenciando mulheres,
é que ainda precisaremos falar muito sobre isso,
problematizar e reconhecer todos os privilégios,
os nossos e dxs outrxs, com respeito.

Não sou ingênua de acreditar que
“na indústria cultural nada deveria ser produzido 
porque machismo é um elemento estruturante da sociedade, 
e como tal, não há espaço que esteja isento — 
 o mesmo acontece com o racismo.” 

Mas acredito que devemos colocar sim em debate projetos, obras, 
produtorxs culturais, artistas, pessoas que não se importam 
em empregar mulheres e/ou trans, gays, pessoas não binárias,
negrxs, indígenas, musicistxs, compositorxs em pleno 2016, 
em trabalhos que propõe debater essas questões.

E quando eu digo que Elza é uma senhora que tem 
uma trajetória dentro desse universo machista da música 
e apenas aceitou com naturalidade ser convidada por um produtor homem 
- num disco quase só de homens e composições masculinas -
é porque creio que faltou engajamento 
e cuidado por parte dos produtores e propositores do disco.

De uma vez por todas, não da parte de Elza.

“Na verdade, a ideia inicial era fazermos um disco de sambas clássicos interpretados por ela e rearranjados pelo grupo, mas por influência de um grande amigo, acadêmico, estudioso da musica brasileira, Renato Gonçalves, resolvi propor a Elza um disco de inéditas, compostas pelo grupo especialmente pra ela. Elza topou na hora. O que eu esperava era fazer uma fogueira, então juntei os gravetos e aticei as brasas. O que aconteceu depois foi decorrência natural desse encontro entre uma das maiores artistas brasileiras de todos os tempos e desse grupo de artistas que considero um dos mais importantes do nosso tempo”
(Guilherme Kastrup, em entrevista ao Vírgula — http://virgula.uol.com.br/musica/entrevista-exclusiva-o-negro-o-gay-e-a-mulher-sao-minhas-bandeiras-diz-elza-soares/#img=1&galleryId=1106985)

Sendo o projeto desenvolvido em maioria homens 
que convidaram Elza 
e não tiveram esse cuidado, 
afirmar que o disco não era feminista foi uma provocação 
(descuidada, mas não ilegítima)
 sobre esse dualismo:
como um disco serve tanto à causa feminista pela força de Elza,
pelo empoderamento das mulheres

e por outro lado 
também omite e massacra outras em seu processo de produção?

Finalmente, afirmo que minha luta se encaixa na intersecção 
dxs que estão juntx e não separadxs 

 — mulheres e/ou homens e/ou trans, feministas, 
gays, cis, pessoas não binárias, jovens, velhos, de todas etnias e classes — 
que acreditam que tudo importa e tudo deve ser debatido sim
respeitando as especificidades de cada umx
história dxs mais oprimidxsseus afetoslutas sociais,
sem atropelar as dores dxs outrxs.

Lutamos por mulheres e/ou
trans, gays, pessoas não binárias, negrxs, brancxs, indígenxs,
miscigenadxs, de todas etnias e classes como parte inexorável do orçamento,
na linha de frente, no fundo e no protagonismo de suas lutas.
Mas não podemos mais ignorar 
machismo arraigado,
nepotismo cultural
protecionismo de cânone
prerrogativas de classe
competição de egos
luta de clãs contra clãs
atitudes racistas, machistas e misóginas apaziguadas por privilégios,
falso capitalismo plural nos meios de produção de cultura, 
nos discursos artísticos e produtos culturais que consumimos.

O feminismo que eu acredito é agregador das diversas lutas,
e pode ser discutido por todxs ou escrito em letras por homens, 
com o devido respeitocoerêncialugar de fala
e atenção à experiência estética, sensível, social e vital 
dxs pessoas abordadxs e de todxs.

Acreditamos na potência das obras, 
mas também na importância da postura política 
de autorxsprodutorxsartistasgovernantes,
pessoas em suas vidas públicas e em suas vidas privadas.
Não aceitaremos essa liberdade romântica, 
não engoliremos caladxs preconceito, 
racismo, sexismo, pedofilia, abuso, 

ou ignoraremos analisar o discurso político por trás das obras.

Queremos outra divisão do trabalho
não só no mercado fonográfico,
na cultura e na sociedade
:
Mulheres na voz, na maquiagem, no figurino, 
na direção de arte, na produção, na limpeza, na prostituição 
(não aceitaremos ser diminuídxs em quaisquer dessas profissões 
por serem tidas como “profissões de mulher” ou menores na sociedade)
.
e não apenas 
“na composição, na direção de arte, na iluminação e no quarteto de cordas (quando há orçamento)” 
Mas em peso e de forma igualitária e justa
na composição nos instrumentos, nos meios de comunicação,
na direção, no conhecimento científico e técnico, na educação,
na política, no governo, nas principais bibliografias.
Para que consigamos acreditar na cultura e na arte
como agentes efetivos de mudança da sociedade.

Debateremos trabalhos intocáveis, indústrias intocáveis, 
conhecimento científico intocável, filosofias intocáveis, 
instituições intocáveis, governos intocáveis, direitas intocáveis, 
esquerdas intocáveis, escolas intocáveis, 
arte intocável, artistas intocáveis, personalidades intocáveis, 
meios de comunicação intocáveis, mídias intocáveis,
gêneros intocáveis, opressão intocável, 
estupros intocáveis, mortes intocáveis, silenciamento intocável.

nossa luta não é por mais amor
nem por favor
não é por lacração, por arraso,
nem apenas por empatia e empoderamento, 
por likes e compartilhamentos.

A nossa luta é por igualdade de direitos
salário justorespeito no ambiente de trabalho 
na vida para todxs
Queremos que todxs sejam pagxs 
respeitadxs por seus trabalhos
visibilidade a quem tem menos oportunidades
multiplicar as vozes de quem não tem voz,
independência nos discursos
representatividade em todos os âmbitos.

Já basta de sermos fetichizadas, 
objetificadas, musificadas, mumificadas, 
que achem que devemos favor a quem nos emprega.
Não acreditamos 
em meritocracia 
em meio a tanta desigualdade de direitos.

Não aceitaremos mais a naturalização 
dos mesmos moldes preconceituosos,
racistas, machistas, misóginos 
e patriarcais da indústria cultural, 
do capitalismo e da sociedade.

Não nos calaremos diante de nenhuma opressão, 
não seremos silenciadas jamais.

Juntxs, engajadxs, informadxs e barrakeyrxs somos fortes.

O meu debate não é sobre a relevância da trajetória de Elza,
nem sobre sua potência como feminista negra, nem de sua obra,
o meu debate é sobre isso aqui: http://www.universofnac.com.br/wp-content/uploads/2016/03/21500_ext_arquivo1.jpg

Gostaria muito de tornar essa resposta 

e meu processo de aprendizado público 
e um espaço para responder às pessoas 
que estão me mandando diversas mensagens me acusando de racista 
e de ter tentado boicotar o disco da Elza.

Ficaria muito grata se pudesse me ajudar.

Aguardo seu contato o mais breve possível,

Um beijo,

Tay