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Carta ao embaixador dos EUA

por Gianni Carta publicado 14/11/2011 12h41, última modificação 14/11/2011 12h41
No aeroporto de Cumbica, Guarulhos, o funcionário da Delta me informou: 'Melhor o senhor não viajar para Houston pois será deportado'

Excelentíssimo Senhor Embaixador Thomas A. Shannon, Jr.,

Na segunda-feira 13, no aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, o funcionário da companhia aérea Delta me informou: “Melhor o senhor não viajar para Houston pois será deportado”.

O motivo: do formulário Esta, Electronic System for Travel Authorization, que eu havia preenchido na Lan house do aeroporto, constava o seguinte: “O número do passaporte não é válido”. Sou ítalo-brasileiro, e, portanto, usei meu passaporte italiano. Italianos, como o senhor sabe, não precisam de visto para entrar nos EUA.

Tirei esse passaporte no consulado italiano em Paris em 8 de abril de 2010. O documento tem, inclusive, o chip novo. Ou seja, é moderníssimo. Com ele já entrei em Israel, Gaza, Líbano, Marrocos, etc. É meu documento na França, onde tenho residência.

Mas na terra do Tio Sam o número do passaporte não é válido.

Nunca fui fã da política exterior de Washington. Muito pelo contrário. E agora, até Barack Obama, que parecia ser um líder capaz, revelou-se uma enorme decepção. Mas sempre adorei Los Angeles, onde fiz o colegial, ciências políticas na UCLA, e fui professor de tênis em vários clubes, parques públicos e na própria faculdade. Depois fui para Nova York. Lá comecei minha vida de correspondente internacional e fiz mestrado na Universidade de Boston.

Da Europa fui fazer várias coberturas nos EUA, inclusive reportagens sobre os ataques de 11 de setembro. E sempre entrei em Nova York e Los Angeles com meu passaporte italiano.

Em suma, nunca tive problemas nos EUA, e, como disse acima, gosto do país, tirando alguns estados como a Flórida, terra prometida para numerosos brasileiros. Lá investem fortunas e aprendem a falar o espanhol. Consta que as autoridades daquele estado querem facilitar a obtenção de vistos para brasileiros.

Desta feita, eu rumava para Houston, Texas, onde faria uma reportagem especial para esta CartaCapital sobre dois médicos brasileiros, Renata Pasqualini e Wadih Arap. O casal descobriu uma nova fórmula para combater a obesidade usando macacos obesos. São geniais esses pesquisadores. Estão sendo elogiados por colegas mundo afora, sua pesquisa foi publicada em prestigiados jornais acadêmicos. A mídia fez intensa cobertura sobre o estudo.

Mas não poderei falar pessoalmente com eles: o número do meu passaporte está incorreto, segundo o formulário ESTA. Eis outra invenção norte-americana para infernizar a vida de quem nunca precisou de visto para ir aos EUA.

A vontade é não colocar mais os pés na terra do Tio Sam.

Ah, e perdi o dinheiro do hotel e a Delta ainda não avisou se vai me reembolsar.

Atenciosamente,

Gianni Carta

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