Sociedade

Crônica

Carnaval de trazer por casa

por Eduarda Freitas — publicado 09/03/2011 16h07, última modificação 09/03/2011 16h07
Sem calor, sem samba, os dias de Carnaval numa aldeia portuguesa. Por Eduarda Freitas

Quinze dias antes já os olhos se colavam aos pés, com medo de uma queda que acabasse com o Carnaval. Subíamos e descíamos as escadas, como quem pisa algodão. As nossas mães, que eram tias de outros, inventavam vestidos. Compravam tecidos coloridos e punham a imaginação a dar ao pedal da máquina de costura. Nós éramos todas meninas. Tínhamos a idade que julgávamos ser eterna. Sonhávamos com os cinco dias mais prometidos do ano. A folia começava sexta-feira e só terminava terça quando as estrelas iam muito altas. Havia o cheiro das bombinhas que tinham um odor aproximado ao dos ovos podres e que se misturava com o pó do baile que se colava aos lábios. Que se ressentiam vermelhos de dor. Havia o cantor esganiçado em palco a tentar a afinação, que quase nunca conseguia: “Dizem que cachaça é água, cachaça não é água não…mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar… você abusou, tirou partido de mim, abusou…” As letras estavam todas na ponta dos nossos pés que guardavam os ritmos certos de ano para ano e nas mãos que dávamos a outros em rodas gigantes que enchiam toda a eira. Havia a barraca das bebidas onde os homens ficavam bêbados - com permissão da época - e onde os rapazes entornavam pela garganta garrafas de cerveja numa demostração de virilidade. Era o cantinho onde as nossas mães não gostavam que dançássemos, porque podia haver confusão, alguém puxar pelos colarinhos a outro alguém. Lembro-me das minhas tias que se mascaravam de panos na cara e que eram sérias no resto dos dias e das velhinhas aos pulos com vassoura na mão para ajudar ao balanço. E eu que nem sabia que conseguiam andar! E dos tios - meus e dos outros -  e dos senhores que pulavam para além do trabalho. Lembro-me de saltar acima do imaginado, cansada mas de sorriso rasgado. E de dois quilos que iam quase sempre ao ar. Lembro-me da espera constante para que chegasse a música mais calma, o famoso slow, para dançar com o rapaz em quem os olhos pousavam. E Lembro-me também do sabor das lágrimas com sabor a pó que desciam pela cara para darem de beber aos lábios, quando o rapaz – o tal, o único – não perguntava: queres dançar? E era praticamente uma questão de vida ou quase morte para o coração, dançar com o tal. Que no ano seguinte já era outro. E depois outro. E nunca chegava a ser. O baile para nós, terminava perto da uma da manhã porque o pai assim dizia mas depois o Carnaval continuava no quarto em conversas até às seis da manhã com as amigas. Que eram muitas e que a minha avó gostava sempre, porque eram “animadas e faladoras”. E eram. Comíamos tripas aos molhos e feijoada. De sobremesa pudim caseiro feito pela minha mãe. Lanchávamos bola de carne acabada de sair do forno, em minha casa, em casa da prima, em casa da tia, em casa da avó, em casa da vizinha. E bebíamos chá para acalmar. Fazíamos dos carros de bois, carros alegóricos. Tapávamos a cara com máscaras compradas em França. Eram muito feias. E nós ficávamos muito bonitas. Depois os bombos saiam à rua, noite fora, dia adentro. Cantavam os homens bêbedos de vinho tinto com os bombos de pele bem esticada pelo sol a arrufar nas ruas estreitas. E na noite que transformava o frio do inverno no calor do Carnaval, eu tinha a certeza que aquele som dos bombos fazia parte do meu código genético. E que o Carnaval ia estar sempre presente nas ruas estreitas da minha aldeia, assim, igual a si próprio, com os carros de bois a chiar pelas ruas, homens vestidos de mulheres com pernas cheias de pelos, mulheres vestidas de bebes, o meu pai vestido de Francois Mitterrand e eu com a certeza que o mundo estava todo certo naqueles cinco dias, na minha aldeia.

O outro, o que via nas televisões, não era meu.

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