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Sociedade

A inimiga americana

Calçada da Memória

por José Geraldo Couto — publicado 28/08/2011 17h40, última modificação 30/08/2011 09h57
Intratável, Patricia Highsmith viveu longe dos sets de filmagem, mas seus personagens perturbados assombram as telas do mundo. Por José Geraldo Couto

Arredia, dura, intratável, a norte-americana Patricia Highsmith (1921-1995) viveu longe dos sets de filmagem. Mas suas tramas amorais e seus personagens mentalmente perturbados assombram as telas do mundo.

Filha de artistas que se separaram pouco antes de seu nascimento, ela descobriu anos depois que tinha sobrevivido a um aborto frustrado. Durante toda a vida manteve com a mãe – e com todo o gênero humano – uma relação difícil.

Formada em língua inglesa, começou escrevendo roteiros e diálogos para histórias em quadrinhos. Seu primeiro romance, Strangers on a Train (1950), que Hitchcock transformou no clássico Pacto Sinistro, chamou a atenção para sua escrita rigorosa e sua fina percepção da psicologia humana. Não por acaso, seus autores de cabeceira eram Dostoievski, Kafka e Camus.

O segundo romance, The Price of Salt (1952), saiu sob o pseudônimo Claire Morgan. Era uma história de lesbianismo, de inspiração ligeiramente autobiográfica, e Patricia não queria ser rotulada de “autora lésbica”. Ao longo da vida teve relações breves e tempestuosas com homens e mulheres.

Em 1955 surgiu seu personagem mais famoso, no romance O Talentoso Mr. Ripley. O vigarista frio e sexualmente ambíguo Tom Ripley reapareceria em quatro outros livros e em um punhado de filmes, na pele de Alain Delon, Dennis Hopper, Matt Damon e John Malkovich.

Acusada de não gostar de negros e de ser antissemita, Patricia era tida também como antiamericana. Morou na Europa desde 1963, convivendo mais com animais que com humanos. “Minha imaginação funciona muito melhor quando não tenho de falar com gente.”

Pacto Sinistro (1955)

Um rico desocupado (Robert Walker) conhece por acaso em um trem um tenista profissional (Farley Granger) e propõe a ele um estranho pacto: ele mata a mulher do outro, e em troca este mata seu pai. Um dos filmes mais perfeitos de Hitchcock, que contou com a participação de Raymond Chandler e Ben Hecht na escrita do roteiro.

O Sol por Testemunha (1960)

Milionário americano contrata Tom Ripley (Alain Delon) para buscar na Europa seu filho playboy Philippe (Maurice Ronet). Forma-se entre Ripley, Philippe e a namorada deste um intrincado jogo de parceria, traição e sedução. Noir colorido e solar de René Clement. Delon foi considerado “o Ripley ideal” por Highsmith.

O Amigo Americano (1977)

Ripley (Dennis Hopper), que vende quadros falsos na Europa, tenta convencer um moldureiro alemão (Bruno Ganz), diagnosticado com câncer, a matar um homem de quem ele precisa se livrar. Filme crucial na carreira de Wim Wenders, que utiliza no elenco dois de seus mestres americanos, Nicholas Ray e Samuel Fuller.

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