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Café com Carrie, Simone e Sartre

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 18/09/2009 15h26, última modificação 21/09/2010 15h29
Quando a colunista Carrie Bradshaw (Sara Jessica Parker), de Sex and the City, conheceu seu grande amor, Mr. Big (Chris North), na série da TV, disse-lhe, piscando os zoinhos, que seu escritório ficava num café de Manhattan

Quando a colunista Carrie Bradshaw (Sara Jessica Parker), de Sex and the City, conheceu seu grande amor, Mr. Big (Chris North), na série da TV, disse-lhe, piscando os zoinhos, que seu escritório ficava num café de Manhattan. O bonitão, que por ser big não poderia ser bonitinho, e cujo nome nunca citado nos episódios da HBO é John James Preston, apareceu no “home office” da jornalista, claro, para continuar a paquera. E achou Carrie diante de seu laptop, filosofando a vida entre saltos altos e príncipes encantados, para sua coluna dos sábados.

Carrie e uma pequena multidão consumiam mais que um simples café. Ali era um lugar para se estar ou ficar. Os cafés, principalmente nas culturas européias, sempre foram um lugar de referência. Intelectuais como Sartre e Simone de Beauvoir ficavam horas e o dia inteiro a matutar diante de uma mesa, um cafezinho, um copo d’água e cinzeiros transbordantes de Gauloises.

Os centenários cigarros de tabaco escuro sem filtro e de maço azul- céu, embora hoje existam até em versão light, são um sofisticado mata-rato. Os Gauloises eram os mais consumidos entre os soldados da Primeira e Segunda Guerras e os pensadores do século passado, quando fumar incitava ao existencialismo e era politicamente permitido.

No Rio de hábitos praieiros, os cafés e cafeterias estão se tornando alternativas a botecos e barezinhos. Há quem vá para um café, seja lá qual for o motivo, para trabalhar, ler jornais e livros, fazer hora e até mesmo tomar um cafezinho, com ou sem laptop. Está havendo na cidade uma feliz absorção da cultura dos cafés que, historicamente, também reina em países bem perto daqui, como a Argentina.

Sem chope bem tirado e linguicinha frita, as cafeterias cariocas estão aos poucos ganhando o mesmo status da instituição barzinho, onde os durangos e descolados da Zona Sul costumavam jogar conversa fora. Isso quando ainda não tinham inventado as franquias, que estão deixando todos os botecos iguais, do cardápio à arquitetura. É botequim aos borbotões, em escala industrial.

Nas cafeterias, a ditadura do consumo obrigatório está desaparecendo e os donos dessas casas já perceberam que deixar o freguês à vontade é incentivá-lo a voltar e criar raízes. Os versos de Noel Rosa em “Conversa de Botequim”, falando a um garçom nervoso, ficaram para a história: “Se você ficar limpando a mesa, não me levanto nem pago a despesa”. Frequentar as cafeterias cariocas, principalmente em dias de semana, é esbarrar em um novo jeito de viver e ver a cidade. Sem falar que o faturamento diário e mensal dos cafés do Rio faz dos donos um marajá e não um pobre dalit.

Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir foram, entre muitas outras coisas, os reis dos cafés parisienses. Por serem, com outros intelectuais, seus habituées, algumas dessas casas viraram atração turística, como o Café de Flore, no Boulevard St Germain, e o Les Deus Magots, na Place St Germain des Prés, e o café La Dôme, em Montparnasse. Neste, o casal de amigos e amantes se conheceu e costumava passar o dia trabalhando, fugindo assim da falta de aquecimentos dos quartos em que viviam - separados.

Simone morreu num dia 14 de abril, coincidentemente Dia Mundial do Café, em frente ao La Coupole, em Montparnasse e, protegida pela atmosfera dos cafés de Paris, escreveu coisas como “Não é covardia viver como se sente”. Não é preciso lembrar, que isso é café pequeno na obra dela.