Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Caça ao Dia das Bruxas

Sociedade

Sociedade

Caça ao Dia das Bruxas

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 06/11/2009 14h44, última modificação 21/09/2010 15h08
De uns tempos para cá, todo dia 31 de outubro é a mesma coisa. Comemora-se também aqui o Dia das Bruxas, o Halloween, mas com um certo pudor ou uma certa patrulha.

De uns tempos para cá, todo dia 31 de outubro é a mesma coisa. Comemora-se também aqui o Dia das Bruxas, o Halloween, mas com um certo pudor ou uma certa patrulha. Há uma paranoia tola em banir a entrada e o estabelecimento da ideia do Dia das Bruxas no Brasil. Como se diz, quanto mais se despreza uma coisa, ou se proíbe, mais se deseja essa coisa.

O Dia das Bruxas é um produto popularizado pela sociedade americana, sim. Será esse o problema? De que terra veio o Papai Noel? Não foi da Lapônia, também longe paca? E de onde vem o costume de se armar árvore de Natal, com ou sem neve? Há mil exemplos a dar. E os chapéus de caubói, cintos largos e rodeios do interior de São Paulo? E as tatuagens? E as raves? E os Big Brothers da vida?

Não é porque meia dúzia de crianças e marmanjos pinta a cara, se veste de bruxa e que tais, acende velas dentro de abóboras vazadas (isso exige know-how que ainda não dominamos) e pendura uns morcegos de cartolina preta no teto que nossa cultura e nossos valores estarão ameaçados.

Nem por isso as consciências nacionais serão deformadas. Saci-Pererê é Saci-Pererê. Cuca é Cuca. Mula sem Cabeça é Mula sem Cabeça. Curupira é Curupira. E Bruxa é Bruxa. Se aprofundarmos um pouquinho, veremos que a raiz desses adoráveis, e tão nossos, mitos é estrangeira e que eles se concretizaram aqui, oralmente, por associação e adaptação às nossas verdes matas. Como é o caso, principalmente, do Lobisomem.

O apelo místico da figura das bruxas com suas gargalhadas esganiçadas em kikikikis é irresistível às crianças e a muito marmanjo que teve infância. Além de carregada de mágicas alegorias, a feiticeira é o místico e o mistério. Não sabemos se ela existe ou não, embora na realidade encontremos muitas e muitos vestidos à paisana. Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay.

Que linda a verruga no queixo pontudo da Alceia, que divertida a rabugice de Memeia, a sobrinha e aprendiz da feiticeira, ambas personagens da Luluzinha. Nos quadrinhos de Marge, as bruxas perseguem o alter ego de Luluzinha. Alceia e Memeia são bruxas caricaturais que alçam as histórias a requintes maniqueístas, sempre derrotados pela sensibilidade da garotinha ingênua. Assim, a dupla sinistra cumpre o seu papel de mostrar que o mal não compensa.

A ideia que anda circulando por aí de substituir no Halloween a figura da bruxa pela do nosso amado e brasileiríssimo Saci-Pererê parece fazer pouco do moleque do gorro vermelho e do pito que é uma brasa, mora?

Mesmo sem ter um dia para consagrá-lo, o Saci tem um lugar reservado no imaginário dos brasileiros e deve ser apresentado às crianças, especialmente pelos clássicos de Monteiro Lobato e Ziraldo. Nada a ver substituir um pelo outro.

Aliás, está lá na Wikipédia: “A origem do Halloween remonta às tradições dos povos que habitaram a Gália e as ilhas da Grã-Bretanha, entre os anos 600 a.C. e 800 d.C., embora com marcadas diferenças em relação às atuais abóboras ou da famosa frase ‘Gostosuras ou Travessuras?’, exportada pelos Estados Unidos, que popularizaram a comemoração. Era um festival do calendário celta da Irlanda, o festival de Samhain, que marcava o fim do verão. A celebração do Halloween tem duas origens, a pagã e a católica, que no transcurso da História foram se misturando”.

A imagem de crianças fantasiadas de bruxas, passeando pelos shoppings das grandes cidades ou batendo às portas dos adultos pedindo doces e guloseimas – o que ainda não se faz por aqui a não ser em Dia de Cosme e Damião –, é mais divertida do que preocupante. Kikikikikikiki.