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Crônica / Matheus Pichonelli

Brasil x Alemanha: cinco razões para acreditar

por Matheus Pichonelli publicado 07/07/2014 12h18, última modificação 08/07/2014 05h58
Encontrar no elenco atual um substituto para Neymar vai ser ficha para quem já dependeu de Betinho, Zé Afonso, Jairo Lenzi e Zé Alcino
Criciúma
Criciúma

Jogadores do Criciúma campeões da Copa do Brasil de 1991 sob o comando de Felipão

Se você já colocou sobre a mesa da sala o conhaque e o disco de Maysa Matarazzo para encarar a fossa antes mesmo da parada dura, duríssima, contra a Alemanha, na terça-feira 8, no Mineirão, um alento. Na verdade, cinco. Entre todos os semifinalistas da Copa de 2014, ninguém já superou tanta morte anunciada como o técnico da seleção brasileira Luiz Felipe Scolari.

Desde que venceu a Copa do Brasil de 1991 com o modesto Criciúma, o destino do treinador, de seus comandados e torcedores, é sofrer. Gremistas e palmeirenses que o digam: não houve título em que o treinador gaúcho não teve de buscar forças na bacia das almas para descascar todo tipo de abacaxi, de expulsões desesperantes a apendicites de última hora.

Acredite: encontrar no elenco atual um substituto para Neymar, craque do time e destaque do Mundial, vai ser ficha para quem já dependeu de Betinho, Zé Afonso, Jairo Lenzi e Zé Alcino.

Abaixo, uma lista de cinco milagres operados por São Felipão, em uma disputa que deixou de fora competidores de respeito (como duas das maiores vitórias da história do Palmeiras: os 4 a 2 sobre o Flamengo, na Copa do Brasil de 1999, e os 3 a 2 e a disputa de pênaltis sobre o Corinthians, na Libertadores de 2000). Relembre. Reze. E confie.

 

Motivo 1. Alexandre, Sarandi, Vilmar, Altair e Ita; Roberto Cavalo, Gélson, Grizzo, depois Vanderlei; Zé Roberto, Soares e Jairo Lenzi. Era o que tinha para colocar em campo contra o Grêmio de Dino Sani na final da Copa do Brasil de 1991. Deu certo: com dois empates nas decisões, o Criciúma do técnico Luiz Felipe Scolari se consagrou campeão com uma campanha invicta após superar equipes como Atlético Mineiro, Goiás e Remo. Foi o primeiro título nacional da história do futebol catarinense, o primeiro de muitos que colocariam o treinador gaúcho no centro da história do futebol mundial. Era motivo suficiente para a torcida engrossar o coro do "imagina na Copa".

Motivo 2. Se você acha dureza escalar Fred, Hulk e Oscar é porque nunca teve Zé Alcino e Zé Afonso dentro da área. Pois foi a dupla que Felipão levou a campo para enfrentar, nas quartas-de-final do Campeonato Brasileiro de 1996, o milionário Palmeiras da Parmalat – e também de Luizão, Rincón e Djalminha, simplesmente o melhor jogador daquela temporada. O Grêmio teve de se virar sem seu principal atacante, Paulo Nunes, expulso no jogo de ida, em Porto Alegre. Resultado: 3 a 1 em casa e 1 a 0 para os paulistas em São Paulo. O time abriu assim a porteira rumo ao título daquele ano, e provou ser capaz de sobreviver sem a dupla Jardel e Paulo Nunes, que fizera história (e picara o mesmo e não menos milionário Palmeiras no ano anterior) ao conquistar a Libertadores da América com uma base formada por Darlei, Dinho, Luiz Carlos Goiano, Rivarola e outros bichos de casca-grossa.

Motivo 3. O Brasil ainda não havia conquistado os torcedores quando encontrou a favorita Inglaterra, de Beckham e Owen, nas quartas-de-final da Copa de 2002. Os ingleses saíram na frente, com Owen, após uma bobeada inacreditável do zagueiro Lúcio, mas tomaram a virada com um gol cirúrgico de Rivaldo e uma falta espírita de Ronaldinho, que logo seria expulso e obrigaria a equipe a se segurar como dava. A eminência do desastre anunciado uniu o time como nunca até então. Com um a menos, a equipe de Ronaldo e Rivaldo - e também de Kleberson, Edmílson e Roque Jr. - colocou os rivais na roda e assegurou o resultado com autoridade, decolando naquele dia rumo ao pentacampeonato.

Motivo 4. De novo, a Inglaterra. De novo nas quartas-de-final. De novo como favorita, de novo com Beckham e Owen, e também com Lampard, Ferdinand e Rooney. Desta vez como comandante da seleção de Portugal, Felipão viu a equipe empatar por 1 a 1 no tempo normal e levar a partida para a prorrogação. No tempo extra, um gol para cada lado, e nova decisão nos pênaltis no currículo de Felipão. Dessa vez o anjo salvador foi um goleiro sem luvas, Ricardo, que defendeu o chute de Darius Vassel e colocou Portugal a uma cobrança das semifinais. A cobrança foi dele mesmo, Ricardo, que bateu forte, no canto, e colocou a equipe nas seminfinais e na história do futebol europeu. Placar final: Portugal 2 (6) x 2 (5) Inglaterra.

Motivo 5. Você já viu essa história antes (ou melhor: já viu essa historia depois). O zagueiro e líder da equipe, suspenso, fica de fora da partida decisiva e o melhor jogador é cortado das duas partidas finais por lesão. O Palmeiras foi a campo para enfrentar o Coritiba, na final da Copa do Brasil de 2012, com um catado de última hora. Henrique, expulso injustamente na semi, contra o Grêmio, não jogaria. Como se não bastasse, na manhã do duelo chegou a notícia de que o atacante Barcos, destaque do time na temporada, estava fora das finais devido a uma crise de apendicite. Eles engrossavam uma lista de desfalques que já contava com Wesley, que passou por uma cirurgia no joelho após ser contratado a peso de ouro semanas antes, Luan, Román e Vinícius. Do outro lado estava o favorito Coritiba, vice-campeão do mesmo torneio no ano anterior, quando despachou os paulistas com um doloroso 6 a 0 no Couto Pereira, e que estava mais “arrumadinho” do que nunca (daquela equipe sairiam o craque, Everton Ribeiro, e o treinador, Marcelo Oliveira, do campeão brasileiro do ano seguinte, o Cruzeiro). O Palmeiras jogou boa parte do primeiro jogo sem Valdívia, expulso após um lance bobo no meio-de-campo. Ainda assim deu Palmeiras: 2 a 0 em casa e 1 a 1 em Curitiba, com gol de um iluminado Betinho, substituto do ídolo Barcos que errou tudo nos jogos, menos o lance salvador. Foi uma jarra de leite tirada por Felipão em meio a uma pedreira chamada Palmeiras.