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Brasiliana

Borebi, a cidade do incidente pós-eleitoral

por Henrique Perazzi de Aquino — publicado 08/11/2010 10h33, última modificação 08/11/2010 10h33
Dominada por um casal que se reveza no poder, pequena cidade no interior paulista é palco de acontecimento de repercussão nacional

Borebi é uma pequena cidade do interior paulista, exatos 2.295 habitantes pelo último censo, 330 km de distância da capital paulista, entre Bauru e Lençóis Paulista e palco de algo muito comentado nos últimos tempos envolvendo a questão da reforma agrária. Ali, numa fazenda distante 30 km de sua área urbana, assentados do MST derrubaram com trator pés de laranja da Cutrale, numa ação a dividir opiniões. Agora, o único caso de violência no pós-eleitoral de domingo passado, duas pessoas agrediram o prefeito com um soco, levando-o para uma UTI hospitalar. E a pacata cidade volta aos noticiários nacionais.

Na entrada da cidade dá para sentir a influência do atual prefeito, pois a vicinal de 10 km que dá acesso à cidade leva seu nome, Antonio Carlos Vaca. Esse seu segundo mandato no executivo, 64 anos e alguém que soube ir firmando seu nome no imaginário das pessoas do lugar ao longo do tempo. O antigo distrito, entre canaviais e pinheirais, terras devolutas e os assentados recém-chegados, vivia meio que esquecida. Num passado não tão distante falava-se dali somente porque um famoso massagista escolheu o lugar para morar e para lá afluíam legiões de gente necessitando de seus serviços. Com sua morte, novo período de calmaria.

O retorno ao noticiário, dessa vez em caráter nacional é algo que a cidade não faz questão nenhuma de incentivar e propagar. No centro da cidade, tento dialogar com populares. Pergunto por nomes de pessoas e sinto logo de cara uma desconfiança generalizada. Informações saem a fórceps, depois de muita conversa. Diante de tanta negativa, dirijo-me até a casa do prefeito, ainda hospitalizado e quem me recebe é Magal, com camiseta da Prefeitura Municipal.

Leila Ayub Vaca, 61 anos, esposa do prefeito, ainda consternada com o ocorrido, não autoriza fotos, mas dá sua versão sobre o ocorrido. Uma festa dilmista quarteirões abaixo, um prefeito saindo de pijama na rua e encontrando casualmente com duas pessoas, uma troca de insultos mútuos e uma agressão brutal. A justiça está encarregada de desvendar tudo e esclarecer os detalhes, onde ambos os lados alegam terem lá suas razões.

“O fato já é do conhecimento de todos e novamente a cidade vira assunto nacional por motivo parecido ao anterior”, começa contando Leyla, professora da rede estadual, duas vezes prefeita do município e em vias de conseguir sua aposentadoria, sempre  acompanhada por uma funcionária da Prefeitura. Prefiro falar da cidade e ela me consegue pelo telefone a quantidade de habitantes do último censo, 2.295 habitantes. Obras estão espalhadas pela cidade toda, logo na entrada uma para atender a Terceira Idade, um ambulatório médico, as piscinas municipais e outra, a maior delas, a do novo Paço Municipal, tomando quase um quarteirão todo. “Tudo verba estadual, não vai colocar aí que fazemos algo com verba federal, que é mentira”, me diz.

Digo a ela de na ausência forçada do prefeito, gostaria de um contato com o vice- prefeito. Faz-me desistir da idéia, reforçando que tudo poderia me ser fornecido por ela mesma. Nas ruas, diante de muita insistência uma única pessoa, o sitiante Arnaldo Abreu concorda em falar algo: “Você já falou com dona Leila? Já. Então não temos mais nada para falar. O que ela falar tá falado. Não precisa perguntar mais nada para ninguém. Ninguém tem nada a comentar. O que ocorreu aqui foi um fato isolado, não existiu premeditação. Ela e o prefeito são a favor dos sem-terra. Borebi é de paz e a cidade tem de tudo”. E mais não falou.

Tento abordar as pessoas e nem fotos me são permitidas. “Posso te falar algumas coisas, mas aqui ninguém gosta de fazer prejulgamento de ninguém. Não é Borebi que está atravessando isso e sim o país inteiro. Aqui vivemos bem, que outra cidade você pode medir pressão às duas da manhã e ser atendido na hora? Fila não existe aqui. Aqui tem tudo”, me diz um morador, após pedir insistentemente para não ser identificado. Ouvindo parte da conversa, outro me puxa pelo braço para um canto da praça e diz: “Se aqui tem mesmo tudo, muda para cá para você ver se é bom. Muito dinheiro para pouca estrutura. Emprego tem para quem queira sofrer. Tô empregado e não tenho nada. Gera-se 600 empregos com salários muito ruins, enquanto que o certo era gerar 300, mas que conseguissem manter no mínimo outras 600 pessoas. Isso não acontece”.

Digo ter percorrido a cidade e visto um complexo esportivo e um recinto de rodeios bonitos, prédios novos e o paço municipal em obras. “As piscinas não funcionam, só existe outra na cidade, na casa do prefeito”, conclui. Dos assentados nem sinal pela cidade, pois depois do último incidente, segundo fico sabendo, somente as mulheres destes aparecerem para buscar leite no Posto de Saúde ou comprar o necessário. Rodo quilômetros na zona rural e nenhum progresso. Não acho nenhum deles com disposição para falar nada, nem sobre a cidade, muito menos sobre o soco no prefeito.

Seu Nê, como todos o chamam o prefeito é unanimidade na cidade. Histórias de décadas atrás, muito antes da política ter impulsionado a vida do casal, ele sempre prestou serviços de atendimento à necessidades emergenciais da população.  Do casal, outra constatação, a de que desde que a cidade foi emancipada para município (era distrito da vizinha Lençóis Paulista), em 1992, o casal reveza-se no cargo máximo na cidade. Certa feita, ela precisou alegar não estar casada com ele para legalizar a candidatura. E mais, são poucos os que colocam a cara para bater ou expõe algo sobre a cidade. Não se deixam fotografar e nem aceitam uma simples menção do nome, mostrando como se processam esse tipo de relações nas pequenas cidades brasileiras.
Tudo por lá é muito limpo, ruas todas asfaltadas e uma convivência aparentemente pacífica. “Damos tudo para eles, desde saúde, água e alimentos, tanto para a população, como para os assentados”, me disse Leila. E somente quando seu Nê sair do hospital é que as definitivas respostas serão dadas de como continuará a relação entre a cidade e as quase cinquenta famílias assentadas em sua zona rural. O assunto gera discussão acalorada, sempre bem distante da presença de forasteiros, pois nisso são mais do que reservados e polidos (“more aqui e saberá os motivos”, me diz um), já para outro assunto, esse ocorrido um dia após o do soco, todos falam abertamente. Chipanzés de grande envergadura foram vistos e correram atrás de pessoas nas imediações do Posto de Saúde. Até a polícia foi chamada e um Boletim de Ocorrência instaurado. Os animais voltaram para a mata, causando preocupação numa população quase sem assunto novo para as rodas de conversa. Num dos movimentados bares centrais o assunto é a reunião marcada para assistir o jogo da noite diante de uma TV.  Depois disso a cidade fecha.

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