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Bola de pelo gigante

por Fábio Fujita — publicado 02/09/2010 10h12, última modificação 02/09/2010 12h22
O maine coon, gato que pode atingir mais de um metro de comprimento, entra na moda no Brasil
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Glória Linares exibe seu gato da raça maine coon. Foto: Fábio Fujita

O maine coon, gato que pode atingir mais de um metro de comprimento, entra na moda no Brasil

Durante boa parte da vida, Hugo Cavalheiro contou em casa com a companhia de Teddy, um gato meio vira-lata, meio siamês. Era um bichano incrivelmente pacato. Tanto que deixava o dono segurar suas patas dianteiras e traseiras, de modo que sua barriga peluda “lustrasse” a superfície lisa de uma mesa. Em 2004, quando casou, Cavalheiro não teve permissão da mãe para levar Teddy com ele. Quis, então, achar um substituto. Mas não aceitaria um gato qualquer. “Queria um que tivesse o mesmo temperamento daquele que eu tinha.” Foi então que, após pesquisar sobre raças, descobriu os maine coons, gatos conhecidos por serem dóceis e sociáveis. Mas essas nem são as características mais marcantes desses felinos. Enquanto um gato comum costuma pesar entre 4 e 5 quilos, um maine coon pode chegar a 10 quilos ou mais. E atingir, do focinho à ponta da cauda, um metro de comprimento. Assim que comprou o primeiro filhote, Cavalheiro tornou-se um aficionado pela raça. Ninguém resiste ao gentil gigante.

Historicamente, os maine coons se desenvolveram a partir do fim do século XIX, no estado americano do Maine. Como viviam em ambientes abertos e enfrentavam os rigorosos invernos locais, esses gatos forjaram ao longo das décadas um padrão físico mais avantajado. A segunda parte do nome, coon, refere-se à racoon, que significa guaxinim. Por conta disso, houve quem alimentasse a saborosa lenda de que o maine coon seria resultado de cruzamentos entre gatos selvagens e guaxinins, embora já se tenha comprovado que, biologicamente, isso não seja possível. No Brasil, a chegada desses “Garfields” é atribuída a um casal gaúcho, que, em meados da década de 90, importou os primeiros filhotes. Nos anos subsequentes, poucos criadores se interessaram em investir nos maine coons.
A grande virada na visibilidade dos gatos gigantes no mercado de pets se deu em meados dos anos 2000, quando alguns criadores se juntaram e formaram uma entidade específica para cuidar da divulgação e dos interesses da raça: a Associação da Raça Maine Coon no Brasil (Amacoon). Eleito presidente da entidade, Cavalheiro lembra que, logo no primeiro evento que organizou, uma amostragem com não mais do que três ou quatro desses animais num pet shop de São Paulo, pôde-se notar a demanda potencial para eles. “Teve filas dobrando o quarteirão. Gente emocionada, chorando. Quando a pessoa gosta de gato, fica feliz de ver um tão bonito”, diz Cavalheiro, também proprietário do gatil Triunfo, em Santos. Hoje, ele calcula existirem entre 50 e 60 criadores no País.

Um maine coon dentro do padrão tem a pelagem semilonga, bem sedosa, e com feições mais selvagens na comparação com gatos vira-latas. Pode apresentar bichanos em várias tonalidades de cor, menos aquela do siamês (os do tipo brown tabby chegam a ser confundidos com filhotes de tigre ou jaguatirica). Por ser um gato musculoso, naturalmente pode atingir certos feitos impossíveis aos colegas standard. Cavalheiro cita um hipotético passarinho que entre pela janela de casa. “O maine coon vai pular do chão até 2 metros de altura facilmente, sem precisar correr. Já o gato comum talvez não chegue lá.” As fêmeas são cerca de 30% menores que os machos, pesando, em média, 7 quilos. Um macho adulto, gordo e castrado – portanto, fora do padrão – pode ultrapassar 10 quilos. Tanto que o maior bichano do mundo, atestado pelo Guiness Book, é um maine coon de 14,8 quilos e 1,2 metro de comprimento.

Uma peculiaridade comportamental dos maine coons é a obsessão por água corrente. Chegam a bater no pote para ver a água mexendo antes de bebê-la. A explicação talvez esteja no fato de que, na origem, os primeiros gatos bebiam água nos rios ou cavando lagos congelados. Mas a criadora do gatil LB Master, Glória Linares, considera que é melhor não deixar os gatos beberem água da torneira, porque, uma vez acostumados, deixarão de beber no pote – o que é um problema para quando os donos se ausentarem de casa por um longo período. “Mas eles te convencem, te manipulam, dão beijinho. São irresistíveis, fazem gracinhas, como que dizendo ‘ah, me dá, vai? Só um pouquinho’”, admite a criadora, vice-presidente da Amacoon, sobre a dificuldade de ser linha-dura com um bichano tão sedutor. “É um gato que tem a alma tipicamente brasileira.”

Criadores que trabalham especificamente com a raça, como Cavalheiro e Glória, têm a preocupação de fazer com que o maine coon seja um animal 100% doméstico. “Metade (dos potenciais clientes) desiste de comprar um gato meu na hora que lê o contrato”, ela revela, mencionando entre os termos exigidos que o comprador tenha apartamento telado ou, caso more em casa, muro alto, cerca elétrica ou outros impeditivos de acesso do gato à rua. Evitar que um maine coon cruze com um gato comum não é tanto para manter inquebrantável a pureza ariana da raça. O problema é que um filhote de maine coon nasce pesando entre 110 e 130 gramas. “Para parir um filhote desses, uma fêmea de qualquer outra raça pode morrer no parto”, explica Glória.

Os próprios supergatos parecem não se dar conta de seu aspecto máxi. Ou ao menos não se aproveitam para se impor nos ambientes onde precisam conviver com outros animais. Proprietária de Happy,- um gatão cinzento de dimensões típicas, Kátia Navarro conta que mantém em casa outros dois bichanos. E é justamente a menor dos três, a enfezada vira-lata Gucci, o animal dominante. Antes, quando ocorria de se engalfinharem, Gucci descia a pata em Happy, e este, rabo entre as pernas, acabava se afastando. “Agora, quando a gatinha está impedindo alguma passagem, o Happy não se aproxima mais. Ele só passa depois que a pequena sai”, conta Kátia. Também entre os gatos, tamanho não é documento.

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