Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Boa sorte, Maradona

Sociedade

Futebol

Boa sorte, Maradona

por Celso Marcondes — publicado 31/10/2008 18h09, última modificação 24/08/2010 18h11
“Só a Argentina poderia ter como técnico de sua seleção alguém como Diego Maradona”.

“Só a Argentina poderia ter como técnico de sua seleção alguém como Diego Maradona”. Quem disse isso foi o Tostão e eu concordo plenamente com ele. Emoção, paixão, tragédia, drama, tem tudo a ver com o país vizinho. Eles são muito dramáticos. O tango só poderia ter nascido lá. Movimentos bruscos, mas sincronizados. Os rostos permanentemente fechados dos dançarinos. Os corpos colados, que num momento são separados abruptamente para logo em seguida se grudarem ainda mais.

O Maradona fazendo o gol mais bonito de uma Copa do Mundo, depois de driblar quase todo o time adversário. Adversário, não, inimigo, eram os ingleses invasores das Malvinas. O Maradona fazendo outro gol, dando uma cortada digna de Giba, o tento mais escandalosamente irregular de uma Copa do Mundo. O futebolista que vira o maior ídolo mundial da era pós Pelé e que mergulha no submundo das drogas para delírio da mídia sensacionalista. Que encanta os napolitanos e bebe com a Camorra. O cara que quando internado para recuperação ocasiona até congestionamento de fãs em vigília na porta do hospital. O homem que vai e volta, sobe e desce, reaparece noutra Copa e é flagrado de novo no antidoping. Que vira pop star na televisão, que engorda que nem um porco e depois emagrece. Que desdenha a FIFA e o Rei Pelé. Que reverencia El Che, Fidel e Chavez. Que, de repente, apresenta ao mundo o noivo da filha, um certo Aguero, fazendo gols pela própria seleção argentina, e que, mais que de repente, passa a ser comandado pelo sogro. Novo técnico, contestado por cerca de 70% da população do País, segundo pesquisas apresentadas pelos dois principais jornais nativos. Porém, saudado entusiasticamente pelos esportistas brasileiros, que imaginam que agora, sim, a seleção argentina vai pra zona.

“É a nossa vingança – disse um paulista na Avenida Paulista à televisão –, se nós temos que agüentar o Dunga, o drama dos hermanos será muito maior”. “Vão entrar bêbados em campo”, disse outro. “Os jogadores baladeros agora vão ter a companhia do chefe”, comemorou outro. Todos os preconceitos vêm à tona, antes de brasileiros, somos uma nação de antiargentinos.

Felizmente, nem todos nós. Tostão encerrou seu comentário na Folha dizendo que acha que não vai dar certo, mas que torce pelo sucesso de Maradona. De novo, tenho que concordar com ele. Tostão, sempre uma luz no fundo do túnel - daquele que teve os fios roubados - da crônica esportiva brasileira. Porque, nadando na maior contracorrente, adoro o país ao lado, me encanto com Buenos Aires, fico irritado com que os desdenham os vizinhos sem jamais tê-los visitado e acho que o futebol deles é um dos poucos no mundo que ainda podem satisfazer os que gostam de espetáculo nos gramados verdes.

Que Maradona solte Messi, Tevez e o genro, ponha o time no ataque, recupere as posições perdidas nas eliminatórias da Copa. Que eles façam muitos gols, que eu sinta prazer de assistir seus próximos jogos na tevê.

Que nossos craques que também amam a noite, como Robinho, Ronaldinho e Adriano, ou a Renascer, como Kaká, tenham que, para vencer os arqui-rivais, se livrarem das amarras do nosso técnico zangado, arrogante, embora não argentino, grosso e retranqueiro.

Boa sorte, Don Diego, que Piazzolla o embale.