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Blatter renuncia e futuro da Fifa é incerto

por Redação — publicado 02/06/2015 16h11, última modificação 02/06/2015 16h12
Em meio a escândalo de corrupção, uma disputa dura e sem qualquer transparência deve decidir o controle do futebol. Risco é esquema se perpetuar com novas faces
Reprodução
Joseph Blatter

Blatter durante seu pronunciamento: após 17 anos, ele promete reformas antes de deixar a Fifa

De um pronunciamento de seis minutos, feito em um auditório quase vazio em Zurique, surgiu a notícia capaz de espalhar alegria para o mundo do futebol, unindo torcedores rivais em um êxtase de otimismo: Joseph Blatter deixará a presidência da Fifa. O anúncio feito nesta terça-feira 2 culmina seis dias de pressão contra a cúpula da entidade iniciados após a revelação, por parte do governo dos Estados Unidos, de que está investigando um imenso esquema de corrupção na Fifa existente há pelo menos 24 anos. O regozijo, entretanto, deve ser comedido. Começa agora uma disputa pelo controle do futebol, aberta, é verdade, mas na qual não há a menor garantia de que a transparência e a honestidade serão as regras. 

Ao anunciar sua renúncia, Blatter procurou se afastar do escândalo de corrupção, que chegou às portas de seu gabinete com a citação ao secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke. Para isso, disse ter tentado realizar diversas reformas na entidade, mas lamentou que os "esforços foram bloqueados". Agora, afirma, é hora de uma "reestruturação profunda" na Fifa.

Essa reforma, disse Blatter, incluirá a limitação do tempo de mandato do presidente da entidade, bem como dos integrantes Comitê Executivo. O poderoso órgão, que toma as principais decisões, deve ter membros eleitos pelo Congresso da entidade (e não mais indicados), cujas credenciais de integridade devem ser checadas pela Fifa e não mais pelas confederações regionais. "O Comitê Executivo inclui representantes das confederações sobre os quais não temos qualquer controle, mas por cujas ações a Fifa é responsabilizada", disse Blatter, numa tentativa de individualizar a conduta corrupta de forma a inocentar a estrutura da entidade.

Não é à toa que o Comitê Executivo da Fifa está no centro das mudanças prometidas. Muitos dos dirigentes presos e citados na investigação das autoridades norte-americanas pertencem ou pertenceram ao poderoso colegiado e usaram sua influência para desviar dinheiro do futebol.

Presidente "pato-manco" a partir do fim de seu pronunciamento, Blatter diz apostar em outro suíço para colocar as reformas em prática – o economista Domenico Scala, que desde 2012 preside o Comitê de Auditoria e Compliance da Fifa. Não se sabe que força Scala tem para gerir essas mudanças, mas é possível apostar que ela deriva do fato de ele presidir também o comitê responsável pela eleição do sucessor de Blatter. Como coordenador das eleições, Scala terá a prerrogativa de ditar o ritmo e a data da sucessão de Blatter. O novo pleito não está marcado, mas deve ocorrer entre dezembro deste ano e março de 2016.

A nova eleição será um momento decisivo. Ela é aguardada como o avanço capaz de trazer transparência para o futebol mundial, mas há poucas indicações de que isso vá ocorrer, pois o sistema da Fifa é fechado nele mesmo. Pelas regras atuais, uma pessoa só pode pleitear uma candidatura à presidência da Fifa com a anuência de ao menos cinco das 209 federações nacionais que compõem o Congresso da Fifa. Para ser eleito, precisará amealhar os votos de dezenas dessas entidades, em uma disputa que certamente envolverá cartolas íntimos dos meandros pouco probos do futebol.

O primeiro dos candidatos é o príncipe Ali bin Hussein, meio-irmão de Abdullah II, o rei da Jordânia e comandante de uma família real conhecida há décadas por violações de direitos humanos, autoritarismo e perseguição política. Vice-presidente da Fifa para Ásia, Ali bin Hussein disputou a última eleição com Blatter e conseguiu 73 votos, a maioria de federações europeias, que ao longo dos últimos anos passaram a divergir frontalmente da Fifa. 

É da Uefa, a União das Associações de Futebol Europeias, que deve sair um dos principais pretendentes para a presidência da Fifa, o ex-jogador da seleção francesa Michel Platini. Presidente da Uefa desde 2007, Platini se firmou como oposição a Blatter, mas muitas denúncias apontam contra ele. Platini teria recebido um quadro de Pablo Picasso para votar a favor da Rússia como sede da Copa de 2018 e foi um ardoroso defensor do Catar como sede do mundial de 2022. As duas escolhas, contra as quais pesam inúmeras denúncias de compras de votos, são atualmente investigadas pelo Ministério Público da Suíça.

Ainda que consiga aglutinar os europeus em torno de si, Platini terá de se engajar em negociações com os integrantes da Concacaf e das confederações da Ásia e da África, que detêm muitos votos e sobre as quais também pesam diversas denúncias. Entre os dirigentes que seriam alvo das negociações estão figuras polêmicas e conhecidas como Issa Hayatou, chefe da confederação africana desde 1998 e Salman Bin Ibrahim Al-Khalifa, o integrante da família real do Bahrein que assumiu a federação asiática em 2013.

Não há dúvidas de que a investigação norte-americana é uma notícia auspiciosa para o futebol. O que a Fifa precisa, no entanto, assim como as confederações e federações, é de uma completa mudança em seu sistema de governança, que permita à entidade, e ao esporte, recuperar sua credibilidade. Dois dias após ser reeleito, Blatter acusou Platini de oferecer a ele uma "aposentadoria cômoda" em troca da renúncia imediata. Não é possível descartar, portanto, que esteja em curso na Fifa apenas uma mudança no comando do esquema vigente há décadas. Para o torcedor, assim, cabe cobrar alterações estruturais e verificáveis na Fifa. Uma mera mudança de nomes pode ser ainda mais perigosa que a manutenção dos cartolas atuais, por dar aos novos dirigentes a licença de agir de forma espúria em nome da moralidade.