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Sociedade

Bento XVI tenta "arrumar a casa" para a eleição do novo papa

por Redação Carta Capital — publicado 25/02/2013 12h38, última modificação 25/02/2013 12h38
Papa abre a possibilidade de antecipação do conclave e aceita aposentadoria de cardeal britânico envolvido em escândalo

O papa Bento XVI, cuja renúncia, a primeira de um líder do Vaticano em 600 anos, se confirmará na próxima quinta-feira 28, está usando seus últimos dias no cargo para aparar arestas antes do conclave que escolherá seu substituto. Nesta segunda-feira 25, Bento XVI anunciou mudanças nas regras da eleição interna do Vaticano, de modo a facilitar o processo, e ficou confirmada a renúncia de um cardeal escocês acusado de "atos inapropriados" por integrantes da Igreja.

As mudanças estão em um Motu Proprio (de iniciativa própria), documento pelo qual o papa, usando sua condição de "infalibilidade" em termos de fé e moral pode alterar as regras em vigor no Vaticano. O Motu Proprio desta segunda-feira altera a Constituição Apostólica, abrindo a possibilidade de que o período de Sede Vacante (o período em que não há um papa) seja inferior a 15 dias. No documento, Bento XVI determina que o tamanho da Sede Vacante seja o mesmo, mas afirma que, se todos os cardeais com direito a voto estiverem em Roma antes disso, o início do conclave pode ser antecipado.

Com a mudança de regras, deve haver mais tempo para que os cardeais escolham o novo papa antes de 24 março, data em que terá início a Semana Santa, período litúrgico mais importante para a Igreja Católica.

Em meio a investigação sobre "lobby gay", cardeal renuncia

O Reino Unido ficou sem representantes no conclave depois que a Igreja Católica confirmou a aposentadoria do cardeal escocês Keith O'Brien, arcebispo de St. Andrews e Edinburgh. De acordo com um comunicado oficial, Bento XVI aceitou a renúncia de O'Brien em 18 de fevereiro e determinou que ela deve ocorrer de forma imediata, e não como programado, em 2013, quando o cardeal completa 75 anos. O'Brien confirmou sua ausência do conclave pois deseja que as atenções da mídia estejam focadas em Bento XVI e em seu substituto e não no próprio O'Brien.

O cardeal escocês é o pivô de um novo escândalo que abala a Igreja Católica. Neste sábado, o jornal The Observer revelou que três padres e um ex-padre britânicos reivindicaram ao núncio Antonio Mennini, embaixador do Vaticano do Reino Unido, a exclusão de O'Brien do conclave. Os quatro revelaram terem tido, ou receberem a oferta de ter, "contatos inapropriados" com O'Brien, um aparente eufemismo para relações homossexuais.

A confirmação da renúncia de O'Brien se dá apenas dias depois da revelação, feita pelo jornal italiano La Repubblica, de que uma investigação interna do Vaticano teria revelado casos de corrupção e homossexualidade na cúpula do Vaticano. A investigação, batizada informalmente de Vatileaks, foi liderada pelos cardeais octogenários Julián Herranz (Espanha), Salvatore De Giorgi (Itália) e Jozef Tomko (Eslováquia). Os três foram recebidos por Bento XVI nesta segunda-feira 25 e, de acordo com o Vaticano, receberam a missão de entregar o relatório da investigação diretamente ao novo papa. Até aqui, apenas Bento XVI teve acesso ao documento que, segundo o La Repubblica, teria contribuído para sua renúncia.

De acordo com o jornal, a investigação, baseada em entrevistas com dezenas de bispos, cardeais e laicos, descobriu que uma série de sacerdotes da Santa Sé teriam cometido "pecados" que podem se transformar em delitos. O quadro piora quando o La Repubblica revela o seguinte que oficiais do Vaticano teriam, por conta de suas atividades mundanas, sofrido “influências externas” de laicos. Eles estariam, assim, sendo chantageados.

Igreja dividida

Com o passar dos dias, parece cada vez mais claro que uma disputa de poder dentro do Vaticano também é parte da explicação para a renúncia de Bento XVI. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, Raymundo Damasceno Assis, arcebispo de Aparecida e presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), afirmou que algumas pessoas dentro do Vaticano estariam usando o cargo "não para servir", mas "muitas vezes, quem sabe, em busca de benesses, até para se promover mais ainda".

Segundo dom Damasceno, esse "carreirismo" afetou a Igreja e a renúncia de Bento XVI seria uma tentativa de responder a ele. "É um sinal profético. Se nós estamos preocupados com poder, com carreirismo na igreja, como ele fez aceno em algumas homilias, que é um dos pecados da igreja, essa busca do poder que cria divisão na igreja, então ele diz: 'Eu renuncio, o cargo não é fundamental pra mim, eu cumpri a minha missão até quando eu podia cumprir. O apego ao poder, as honras, a glória do cargo, entrego a quem conduzir melhor a igreja no momento de hoje'", disse.

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