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Banda larga contra a desigualdade

por André Siqueira — publicado 05/08/2010 10h51, última modificação 12/08/2010 16h02
A ampliação da oferta de acessos à internet impulsiona a economia, diz Raul Katz, da Columbia Business School
Banda larga para todos

Em entrevista à CartaCapital, Raul Katz, da Columbia Business School, defende a política de estímulos à oferta desse serviço nos países latino-americanos como forma de redução da desigualdade. Foto: Olga Vlahou

A ampliação da oferta de acessos à internet impulsiona a economia, diz Raul Katz, da Columbia Business School

No jogo global das telecomunicações, a bola está com os fornecedores de conteúdo e serviços – responsáveis por atrair o consumidor e fazê-lo gastar com a ampla gama de produtos à disposição na era da convergência digital. Mas o equilíbrio pode mudar num futuro não muito distante, com uma transferência de poder para as empresas de infraestrutura, de acordo com o diretor de pesquisa de estratégia de negócios do Instituto de Teleinformação da Columbia Business School, Raul Katz. Em entrevista a CartaCapital, o especialista prevê que em algum momento grupos como Google e Apple vão ter de se render à necessidade de maiores e melhores redes de tráfego de informação, e terão de pagar por isso.

Autor de livros e pesquisas que associam diretamente o desenvolvimento econômico e a expansão do acesso à internet em banda larga, Katz defende a adoção de políticas de estímulo à oferta desse serviço nos países latino-americanos como forma de reduzir as desigualdades sociais. Da última vez em que esteve no Brasil, em junho, o professor evitou a polêmica sobre o plano de reativação da Telebrás para ampliação da cobertura da malha de conexão à internet, frisando apenas a necessidade de aproveitar os recursos disponíveis no setor privado. Nesta conversa, acrescentou que para levar os pontos de acesso às áreas mais remotas do território nacional será necessário incluir no plano a montagem de redes sem fio.

CartaCapital: Que tipo de empresa tem condições de se sair melhor na era da convergência dos serviços de telecomunicações, as provedoras de conteúdo ou de infraestrutura?
Raul Katz
: Não podemos ter conteúdo sem infraestrutura, são duas atividades complementares. A questão relevante é quem tem mais poder hoje, provedores de aplicativos e conteúdo ou de infraestrutura. Eu diria, dado o modo como a indústria tem evoluído, que as primeiras têm demonstrado deter mais poder. Em parte porque elas oferecem o que os consumidores querem, ou seja, participam diretamente do processo de escolha do consumidor. Por outro lado, o conteúdo precisa de boa infraestrutura, seja a banda larga, sejam os links sem fio de alta velocidade, e isso requer capital a ser investido. Se os produtores de conteúdo e aplicativos não quiserem pagar por esse acesso, como tem sido até agora, os fornecedores de infraestrutura não terão como obter o retorno dos investimentos em redes. Grupos como Apple e Google conseguem ter mais força hoje, mas essa não é uma situação que vai se perpetuar indefinidamente. Em algum momento, se os fornecedores de infraestrutura não conseguirem bons retornos, terão de reduzir a velocidade dos investimentos, forçando um reequilíbrio de forças.

CC: No futuro, todas as grandes operadoras serão obrigadas a ter pacotes quadruple play (telefonia fixa, móvel, tevê por assinatura e banda larga) para se manter competitivas? Isso não tornará toda a oferta de serviços muito parecida?
RK
: Todo mundo pode se movimentar para o quadruple play, mas vão ter de oferecer isso em diferentes plataformas de multicomunicação. Vamos ter alguém como a TIM Brasil, que é essencialmente uma empresa sem fio oferecendo serviços de banda larga, além da telefonia móvel e potencialmente outras aplicações sem fio. Ela terá de conviver com um concorrente como a Oi, que é capaz de ofertar pacotes de serviços diferentes, em plataformas diferentes. Mas ainda vejo algumas oportunidades para quem ficar com um só serviço, porque nem todos os consumidores desejam comprar todos os serviços de uma mesma companhia. Há uma parcela muito grande dos clientes que vai comprar banda larga de um provedor de serviços, como uma companhia de TV a cabo, usar o celular de outra companhia e, talvez, comprar uma linha fixa de outra companhia. São usuários que, depois de avaliar todos esses serviços em conjunto vão descobrir que colocar tudo em um só pacote não traz vantagens suficientes para justificar a compra de um mesmo fornecedor.

CC: Ao mesmo tempo que se movimentam para oferecer mais serviços, as companhias brasileiras mostram grande preocupação em proteger seus próprios mercados. Isso mostra que elas não estão prontas para a nova forma de competição?
RK
: É normal que as concessionárias queiram proteger seus mercados, é de lá que vêm os retornos ao investimento. Eu não concordo que as empresas brasileiras não estejam preparadas para competir. Algumas são bastante agressivas na disputa. A briga entre a Net e a Telesp (Telefônica) pelo mercado paulista é pesada. A GVT tem sido muito agressiva, assim como a Oi. Há uma competição forte em várias áreas e é possível dizer que o preço da linha móvel no Brasil é baixo graças à rivalidade entre os fornecedores. Quando me perguntam quem vai sobreviver nesse mercado, eu respondo apenas que ainda haverá alguma consolidação. Não será nada dramático, mas alguns players vão desaparecer com o tempo. Acho que vamos para uma estrutura de não mais do que três grupos de larga escala.

CC: O senhor se refere à Telefônica, Oi e Embratel?
RK
: Para chegarmos a esse cenário, a aquisição da Vivo pela Telefônica é o que falta ocorrer, e acho que vai acontecer. Sei que não será fácil, mas é preciso considerar o capital envolvido. A Telefônica está oferecendo pela Vivo o equivalente a toda a capitalização de mercado da Portugal Telecom. Em segundo lugar, a Comissão Europeia já falou que o governo português não deveria ter usado a golden share (ação que dá direito a veto em transações societárias) para impedir uma venda aprovada pelos acionistas da PT.

CC: Os três maiores grupos brasileiros ainda têm boa parte das receitas provenientes da telefonia fixa, que é um negócio em fase declinante. Ainda será sustentável, no futuro, vender linhas fixas?
RK
: Há mais e mais pessoas desconectando suas linhas fixas, e o que ocorre nos Estados Unidos é um exemplo disso. Hoje, 22% das residências não têm mais linhas fixas porque as desligaram. Esse contingente está crescendo ano a ano. A expectativa é que, em 2012, serão 40% das casas que não terão telefone fixo, só celular e serviços de banda larga. Não há dúvida de que o movimento é nessa direção. Ao olhar para o futuro, teremos um ambiente em que os telefones móveis e a internet rápida serão as modalidades dominantes de comunicação. Mesmo assim, não acho que as linhas fixas vão desaparecer por enquanto, ainda haverá uma parcela da população que manterá a linha, como um dispositivo de segurança. Mas será um mercado pequeno, porque a população jovem, que estará adulta daqui a dez anos, será uma geração sem fio, que não fará questão de ter telefone fixo.

CC: O governo brasileiro anunciou um plano ambicioso para ampliar o acesso da população à internet em banda larga. Conectar mais gente à rede pode contribuir para reduzir a desigualdade no País?
RK
: Acredito que contribui porque o acesso à banda larga tem um impacto direto sobre o desenvolvimento econômico. Segundo meus cálculos, para cada 10% de aumento na entrada da banda larga, há uma contribuição de 0,18 pontos porcentuais ao PIB. Em segundo lugar, porque esse processo cria empregos. Entre o desenvolvimento econômico e a criação de empregos, consegue-se diminuir a desigualdade de renda e isso contribui para a redução da pobreza. Assim, a universalização teria, definitivamente, um impacto positivo para o País. Todos os meus estudos apontam nessa direção.

CC: Há bons exemplos a serem seguidos pelo Brasil na área de expansão da oferta de banda larga?
RK
: Fiz estudos no Chile, que é o país mais avançado em banda larga na América Latina, com 10% de cobertura. Minha estimativa é que, por lá, aproximadamente 100 mil empregos foram criados sob o impacto da internet. O Brasil, como é maior e mais populoso, precisará investir em uma combinação de acessos fixos e móveis. Para atingir as áreas rurais, o uso de tecnologia sem fio será muito importante.

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