Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Bancos: lojas de dinheiro ou concentração de renda?

Sociedade

Dal Marcondes

Bancos: lojas de dinheiro ou concentração de renda?

por Dal Marcondes publicado 14/12/2011 12h41, última modificação 14/12/2011 12h41
É preciso repensar como a estrutura bancária pode ser mais eficiente e menos pesada para a sociedade onde ela está inserida

Desde cedo aprendi que bancos são como lojas de dinheiro. Um lugar onde “vendemos” o dinheiro que não vamos usar, através das aplicações, ou onde “compramos” o dinheiro que precisamos para alguma coisa, através dos empréstimos. É um processo relativamente simples, que se sofistica com a criação de inúmeras modalidades de aplicações ou de crédito, até chegar a coisas como os “derivativos”, onde os bancos buscam inovadoras fórmulas de engenharia financeira supostamente para maximizar seus ganhos e minimizar seus riscos. Mas não precisamos ir tão fundo para mostrar como funcionam os bancos.

No entanto, e as taxas de juros? Por que o Brasil ainda mantém a maior taxa de juros primários do mundo, pouco mais de 12% ao ano, enquanto a maior parte dos mercados mundiais opera com juros básicos muito próximos de zero? Mais, por que o brasileiro que recorre aos bancos para se financiar, seja através de cartões de crédito ou de cheque especial, chega a pagar mais de 150% ao ano, enquanto suas aplicações nos bancos sempre rendem menos de 1% ao mês, aliás, muito menos?

É neste cenário extremamente simplificado que evolui a discussão sobre “finanças sustentáveis”, em um processo onde as instituições financeiras em geral apontam o debate para o nível da responsabilidade socioambiental sobre os projetos que financiam, mas não fazem uma discussão séria sobre o spread (a diferença entre o que pagam para as aplicações das pessoas e o custo sobre o dinheiro que emprestam). Existem muitos motivos técnicos para que o spread seja tão alto no Brasil.

Um deles é que o governo é o maior tomador de empréstimos do país, criando a chamada dívida pública, que em fevereiro passado chegou a 1,67 trilhão de reais. Todo esse dinheiro saiu do “sistema financeiro” e é utilizado para financiar as despesas do setor público, incluindo juros para os próprios bancos. O pior é que o governo paga caro, o que empurra o “preço” do dinheiro para cima para toda a sociedade, incluindo ai as pessoas e as empresas. Afinal, por que emprestar a juros baixo se tem um cliente do tamanho do governo disposto a pagar muito mais pelo mesmo dinheiro? O mínimo que o governo paga são os 12% ao ano, que é a taxa de juro básica da economia.

Então, quando se discute finanças sustentáveis, fala-se em uso responsável do crédito, estimula-se o debate sobre impactos de grandes obras financiadas com recursos bancários, protocolos internacionais para estabelecer “responsabilidade compartilhada” entre tomadores de crédito para grandes investimentos que os bancos que financiam etc.

Mas não há uma discussão realmente aprofundada sobre o papel que as instituições financeiras devem ter para uma sociedade em desenvolvimento como a brasileira. Muito menos sobre os impactos que a transferência de renda, através dos juros, tem sobre essa sociedade.

Os programas de “uso consciente do crédito” têm dois lados: alertar as pessoas sobre o risco de se endividar demais e, por outro lado, reduzir o risco de inadimplência que pode ocorrer com esse excesso de endividamento. Os dois lados têm relevância justamente porque o dinheiro é caro.

Apenas no primeiro trimestre de 2011 os cinco maiores bancos de varejo que atuam no Brasil contabilizaram em seus balanços lucro de 12 bilhões de reais. É uma rentabilidade quase duas vezes maior do que a dos bancos que operam nos Estados Unidos.

Se por um lado isso pode ter ajudado na blindagem do sistema financeiro brasileiro em relação à crise financeira internacional de 2008/2009, também representa uma concentração desigual de recursos em relação a outros setores da economia.

Os debates sobre finanças sustentáveis deveriam ser mais abrangentes, entrando no mérito do custo do dinheiro para a sociedade, da capacidade das instituições financeiras em financiar processos, produtos, serviços ou modelos de gestão inovadores, que não são capazes de oferecer as tradicionais garantias de “histórico de desempenho” e de participar das discussões sobre o modelo de sociedade que tem real possibilidade de distribuir renda e incluir quase 4 bilhões de pessoas em direitos considerados universais, mas ainda muito longe de estarem universalizados.

Não se trata de demonizar os bancos, principalmente porque o mercado financeiro tem um papel estruturante na economia e para as pessoas. Os processos de inclusão bancária estão elevando o padrão de consumo de milhões de pessoas em todo o Brasil. No entanto, é preciso repensar como essa estrutura pode ser mais eficiente e menos pesada para a sociedade onde ela está inserida.

Assim como muitos outros setores da economia, da indústria ou dos serviços, o sistema financeiro também terá de se olhar a fundo e mudar, se adaptar a um planeta com limites claros e oferecer sua contribuição na transformação do modelo de desenvolvimento. E para isso não basta esverdear as bordas. Será preciso transformar o espírito do negócio.

 

*Dal Marcondes é diretor da agência de notícias Envolverde

registrado em: