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Cariocas (quase sempre)

Aventuras em domicílio

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 05/08/2010 16h29, última modificação 05/08/2010 17h23
Técnicos também se arriscam entrando na casa de desconhecidos
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Parte de um quadro do pintor baiano "Pirulito" (famoso por misturar texturas) da cidade histórica de Cachoeira (pólo cultural da Bahia). Foto: Ana Maria Badaró

Técnicos também se arriscam entrando na casa de desconhecidos

Na sociedade de serviços em que vivemos, e dependentes deles como somos, é  comum receber a visita técnicos, entregadores, montadores de móveis e de outras necessidades do mundo moderno. Na estranha sociedade em vivemos, em que uns desconfiam dos outros, nem sempre um crachá ou um uniforme é certeza de que aquela pessoa que adentrar na intimidade de seu lar é confiável.

Tomada as devidas precauções e cruzandos os dedos, abrimos a porta. Felizmente, não se tem notícia – há exceções, poucas – de eventos desagradáveis. As empresa tomam cuidado com quem empregam e os empregados sabem respeitar as empresas que representam, quando não, especialmente, a sua própria autonomia.

Um técnico de uma operadora à cabo visitou dia desses a casa de uma senhorinha e mostrou que era o tipo que rapidamente fica à vontade em qualquer lugar. Imediatamente, começou a tratar a senhora do jeito mais natural possível  de ‘vó’. A filha da senhorinha foi para a casa da mãe, pensando em protegê-la de algum eventual lobo-mau. Consciente estava, contudo, que se o improvável vilão aparecesse mesmo, ela poderia ser jantada antes,  seguindo a lógica da história do Chapeuzinho Vermelho.

Enquanto esperava uma resposta de sua “central” para ver se a instalação estava ok, transmitindo e recebendo códigos que nós, consumidores, não compreendemos e não nos deixam compreender, o rapaz falava enlouquecidamente ao telefone. Ora com seu supervisor, balbuciando alfanuméricos indecifráveis, ora com a mulher dele. Sentado na cadeira do escritório da casa da cliente, ele foi escorregando e, quase deitado, digitava números intermináveis em seu celular-rádio, esperando a chegada do sinal à cabo, atendendo os dois  aparelhos ao mesmo tempo.

Até que explodiu, dizendo que não aguentava mais a mulher ligando-lhe  de cinco em cinco minutos. “É ciúme, ‘tia’, disse à filha da senhora. “É o dia inteiro assim. E olha que estamos casados há sete anos e temos dois filhos. Mas eu apronto mesmo” – confessou. “ Só não deixo ela saber. Mas ela, que não é boba, sabe o marido que tem. Só não descobre as minhas ‘armações’ porque eu sou esperto. Se descobrir, eu tô frito” – disse, marotíssimo.

O sinal digital, enfim, chegou inaugurando uma nove era na casa da senhorinha com sua espetacular Led de 45 polegadas. O rapaz, levantando as calças folgadas em direção à cintura, deu boa-tarde à “vozinha” e à “tia”, enquanto ia atendendo mais uma ligação da esposa ciumenta.

O perigo ao avesso Um outro técnico, que foi ajustar a TV da senhorinha antenada com os avanços tecnológicos, começou a falar de sua vida profissional e do que pretendia fazer no futuro. Isso porque, na opinião dele, não era fácil passar o dia entrando (e saindo) em casas de desconhecidos. - “O quê?” – exclamou ele para começar sua pior história. “Fiquei em cárcere privado há uns dois anos, porque eu disse para uma dona que a TV dela não tinha conserto e que deveria ser trocada. Ela ordenou que eu desse um jeito, e disse que eu só iria embora se o aparelho voltasse a funcionar. Aí, ela me trancou no quarto daquele apartamento imenso. Comecei a gritar, a socar a porta – eu tenho claustrofobia – e ela nada. Fiquei lá pedindo, suplicando.

Enquanto aparafusava os auto falantes, prosseguiu com sua história: - “Liguei para o meu supervisor e, quase sem conseguir falar, expliquei a situação. Ele chamou a polícia, que demorou a chegar e obrigou a mulher a abrir a porta. Os guardas levaram a senhora ‘maluca’ para a delegacia, apesar dos apelos da filha dela, que foi chamada pelos porteiros, alegando ser a mãe um pouco “desequilibrada”.

Torcendo pelo técnico a senhorinha quis saber do desfecho: - “E ela foi presa? Ela merecia ser presa...” Ele respondeu, religando a TV : - “Foi, ela foi presa, e depois solta;  pegou um processo aí. E eu fiquei uma semana de licença. Tive um estresse muito grande. Ainda bem que o meu patrão é legal.”

É, ainda bem. A senhorinha insistiu em dar uma gorjeta ao rapaz para um lanchinho, mas ele recusou categoricamente.

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