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Aulas de fantasia

por Rosane Pavam publicado 03/07/2008 15h56, última modificação 16/09/2010 15h57
Alguma onda conservadora, sempre tão pronta na imprensa e nas academias de ginástica, move-se contra a obrigatoriedade dos cursos de filosofia e sociologia no ensino médio do Brasil.

Alguma onda conservadora, sempre tão pronta na imprensa e nas academias de ginástica, move-se contra a obrigatoriedade dos cursos de filosofia e sociologia no ensino médio do Brasil. Digo que são conservadores os responsáveis por essa onda porque aquilo que externam tais pessoas de formação culta vai embasado, admitamos, numa razão antiga, embora compreensível.

No Brasil, não se ensinam direito matemática, geografia, lógica ou português, então por que deveríamos nos preocupar com a transmissão dos modos de exercitar o pensamento no decorrer do tempo? Quem vai transmitir coisas tão complicadas em torno da história das interpretações de mundo se não há no mercado do ensino pré-universitário aqueles mestres capazes de ensinar as coisas simples já pensadas?

Da forma como vejo, matemática não é coisa simples. Nem português. Matemática é Pitágoras, Antônio Vieira, português. E Filosofia, Platão; Sociologia, Émile Durkheim. Na minha vida de leitora, talvez tenha percorrido mais vezes Platão e Durkheim do que aquele Pitágoras que, quando bem explicado por alguém, pareceu-me cristalino. Então, matemática não pode ser mais simples que filosofia (isto se não considerarmos a matemática uma pura implicação filosófica).

Matemática tem apenas mais professores especializados a ensiná-la. É preciso que se formem professores novos, não daqui a cem anos, quando parecermos prontos, mas já, estimulados por uma lei à primeira vista arrogante e inadequada. Ou isto acontece agora ou jamais começaremos a preparar quem estuda para a verdadeira vida acadêmica que, esperemos, terá depois.

Seria perda de tempo estender-me aqui sobre as razões pelas quais áreas como filosofia, condenada como grande abstração, e sociologia, por sua concretude, tornaram-se vitais ao conhecimento de qualquer habitante de um mundo civilizado. O Brasil está atrasado em relação ao Primeiro Mundo sonhado, a escola vai mal? A filosofia deve entrar na cabeça dos alunos e a sociologia precisa explicar aspectos importantes do país, tão logo isto seja possível. Aos 15 anos de idade, um mortal, mesmo que um brasileirinho, pode começar a aprendê-las...

Sou adepta do ensino laico, mas uma amiga que tem seus filhos em escola católica se sente feliz por ver que, embora a história pareça tão mal explicada nos livros adotados e mesmo por alguns mestres da instituição, a religião acabe por ganhar uma dimensão existencial nesses locais. Os estudantes, submetidos a aulas que se anunciam religiosas, sentem que elas lhes trarão uma nova maneira de interpretar a própria vida. E esta amiga diz que não se ensina religião propriamente mais a ninguém naquela escola, porque não haveria ali quem suportasse ser doutrinado por dogmas, ou porque todos os alunos e suas famílias, no fundo, tornaram-se ateus cristãos...

Nessas escolas católicas, o estudo das religiões não se faz propriamente, antes se pesquisa uma genealogia de imagens lendárias, como as do cálice sagrado, ou interpretam-se as narrativas aventurosas de um Indiana Jones, em torno dos símbolos supostamente fidedignos de rituais. Enfim, as aulas de religião, pelo menos em alguns estabelecimentos de ensino particular de São Paulo, teriam se tornado aulas de fantasia, e este elemento de imaginação, desligado da decoreba de todos os dias, daria aos alunos uma perspectiva menos limitada de seu tempo gasto diante da carteira escolar.

Advogo filosofia e sociologia como advogaria música ou ioga no ensino médio, pelo simples prazer de imaginar que um adolescente se sentiria apto a aguçar o próprio espírito quando se metesse a entendê-las. Professores bons e ruins haverá eternamente (e me criticaram muito quando disse certa vez, aqui, que os ruins andavam se sobressaindo, não por um dado estatístico, mas pela sensibilidade de quem os observa de forma genérica nas escolas particulares brasileiras). Professores bons e ruins ensinarão Newton tanto quanto detalharão os textos de Jean-Paul Sartre. E também haverá aqueles que não saberão ensinar a respirar ou a tocar flauta doce! Mas que não nos impeçam de ter contato desde pequenos com todas as áreas do conhecimento humano, meu bom deus, mesmo que no meio do caminho surja a pedra do mau sacerdote.