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Crônica

As vaias na nossa história

por Alberto Villas publicado 18/08/2016 17h28
Nos Jogos Olímpicos, o mundo conheceu nosso ímpeto por vaiar. Quem sabe Freud explica
Martin Bernetti / AFP
Torcida

Torcedores brasileiros no futebol: a vaia é nossa companheira

Não se tem notícia se naquele abril de 1500, alguns índios vaiaram o português Pedro Álvares Cabral, assim que ele desembarcou com sua turma em terras brasileiras pela primeira vez. Pero Vaz de Caminha, em sua carta ao Rei, não menciona vaias mas, com certeza, um ou outro silvícola deve ter vaiado sim os ocupantes daquelas caravelas. 

Vaiar não é de hoje. Diz a lenda que a vaia surgiu na Grécia Antiga, durante as execuções, que eram recepcionadas às vezes com aplausos, às vezes com vaias, dependendo do gosto do espectador.

O Dicionário Houaiss, em seu verbete Vaia, diz que é uma demonstração de desagrado, uma desaprovação, um desprezo geralmente expresso coletivamente por meio de ruídos como gritos e assovios.

A enciclopédia livre Wikipédia é mais engraçada: “A vaia ou apupo é um ato público para demonstrar desaprovação ou defeito por alguém ou alguma coisa, geralmente um artista, em geral com a interjeição Buu! pronunciada de maneira prolongada, ou fazendo outros ruídos como vozes de animais. Em casos de extremo defeito, a vaia pode ser acompanhada de objetos arremessados no palco, como ovos e tomates”.

Mas nós não estamos aqui para falar das vaias que tomaram conta dos Jogos Olímpicos do Rio?

Sim, mas antes vamos lembrar o período áureo das vaias no Brasil, anos 60, durante a era dos festivais de música popular da TV Record, que chegaram a ser chamados de festivaias.

Em 1967, num desses festivais, o cantor e compositor Sergio Ricardo foi solenemente vaiado enquanto cantava sua canção Beto Bom de Bola. Interrompeu a música, gritou vocês venceram, espatifou o violão e o jogou na plateia, resultando, no dia seguinte, numa das melhores manchetes do jornal Noticias Populares: Moça violada no palco!

Num outro festival, o de 1968, Caetano Veloso recebeu a maior e a mais contundente de todas as vaias de sua carreia, que já passa de 50 anos. No auge da ditadura militar, o compositor baiano, vestido com uma roupa de plástico transparente, transformou em música uma pichação feita num muro da Sorbonne, em Paris. Quando começou a cantar É Proibido Proibir, foram tantas as vaias que ele foi obrigado a parar e fazer um discurso que entrou para a história e que começava assim: Mas é essa a juventude que quer tomar o poder?

E as vaias continuaram.

Em 1970, ela ganhou status de faixa de disco. Lá estava a vaia gravada no segundo disco dos Mutantes chamado A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado. Ao cantar o clássico Chão de Estrelas, de Silvio Caldas e Orestes Barbosa, Rita, Arnaldo e Sergio Dias Baptista inseriram vaias no trecho em que dizia: Nossas roupas comuns dependuradas/Na corda qual bandeiras agitadas/Parecia um estranho festival. Ai ouve-se um Buu bem ao estilo Wikipédia.

No início dos anos 70, Carlos Imperial, uma mistura de artista, compositor, animador, diretor, produtor cultural e mentor da Turma da Pilantragem, soltou uma frase que entrou para o folclore brasileiro: Prefiro ser vaiado no meu Mercury Cougar do que aplaudido num ônibus.

Na mesma época, a vaia inspirou o poeta Augusto de Campos que fez o poema gráfico VIVA VAIA, hoje tão celebrado mas que, na época, ao ser lançado, também recebeu alguns buus da critica.

Em 2014, na abertura da Copa do Mundo de Futebol, a presidenta eleita, Dilma Rousseff, recebeu muitas vaias, misturadas com xingamentos que não vamos repetir aqui.  

Finalmente chegamos às Olimpíadas do Rio 2016. 

Assim que o presidente interino Michel Temer, com uma cara de medo e espanto, acuado na tribuna de honra, deu por aberto os Jogos, veio a primeira vaia, uma vaia olímpica. Para a TV Globo foram “vaias acompanhadas de aplausos”. Mas o que a televisão italiana mostrou, minutos depois nas redes sociais, foram apenas vaias e nada mais.

Assim que começou o desfile das delegações, por ordem alfabética, ainda estávamos na letra A, quando vieram as vaias pra os argentinos, gratuitamente. No quesito argentino, brasileiro costuma vaiar até Borges, Gardel, Evita e Che Guevara.

E no dia seguinte, no momento em que a bola rolou em campo, que o cavalos começaram a saltar, que os dardos e martelos começaram a ser lançados, assim que as braçadas começaram a ser dadas nas piscinas olímpicas, as vaias tomaram conta do ambiente.

Os brasileiros decidiram vaiar tudo que não era verde e amarelo, com algumas exceções, claro. O fenômeno Usain Bolt, o jamaicano mais veloz do mundo, por exemplo, foi aplaudido de pé. Se bem que na bandeira do seu país, predominam o verde e o amarelo.

Mas a polêmica maior dos Jogos Olímpicos foi na competição de vara. O francês Renaud Lavillenie, que perdeu para o brasileiro Thiago Braz, que ficou com a medalha de ouro, foi vaiado por uma arena inteira. Não somente quando caiu derrotado mas também no pódio, quando recebeu sua medalha de prata. 

Lavillenie caiu na bobagem de reclamar das vaias, dizendo que elas tiraram sua concentração, que aquilo era atitude de imbecis, foi crucificado vivo de uma só vez no Facebook, no Twitter e no WhastApp.   

Na televisão, assim como os protestos contra o presidente interino – o famoso Fora Temer –, as vaias grosseiras também estão sendo colocadas pra escanteio. A maior emissora do país leva a sério aquela história de que hoje a festa é sua/Hoje a festa é nossa/É de quem quiser/Quem vier e não pode ser atrapalhada. Os locutores apenas dão um gás e elogiam a força, a beleza e o charme da torcida incentivando os atletas made in brasil.

Mas nem só de vaias vivem os torcedores brasileiros. Elas são apenas para os adversários. Eles andam aplaudindo até mesmo juiz, aqueles cujas mães são as mais vaiadas durante o ano inteiro.

Na luta entre Kamran Shakkhsuvarly, do Azerbaijão, e Zhanibek Alimkhanuly, do Cazaquistão, o único brasileiro no ringue era o juiz brasileiro Jones Kennedy. Não deu outra, os aplausos eram apenas para ele, enquanto a galera gritava Juiz! Juiz! Juiz!

Na quinta-feira passada, o jornal francês Le Parisien estampou na capa a fotografia de um torcedor brasileiro na arquibancada mostrando os dedos num gesto de fúria e questionou o comportamento dessa gente raivosa com a manchete: O espirito olímpico esta aí? 

Resumo da ópera. As vaias nos Jogos Olímpicos correram o mundo e lá na longínqua Morávia, os poucos torcedores ficaram sem entender direito porque vaiam tanto numa competição que é apenas esportiva. Talvez o mais ilustre filho da terra, Sigmund Freud, explique.   

Mas faltando poucos dias para o encerramento dos Jogos, o presidente interino pensou bem – se é que ele pensa bem – e decidiu não comparecer à tão falada cerimônia de encerramento O motivo é um só: Medo de vaias. Se bem que essas são merecidas.

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