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As UPPs chegam à cabeça do tráfico

por Marcelo Auler — publicado 29/11/2011 09h14, última modificação 29/11/2011 13h23
E, com elas, o risco de corrupção das novas forças policiais de ocupação

Mais do que a retomada de uma extensa área onde residem cerca de 80 mil pessoas, a ocupação, pelas Forças de Segurança, das favelas da Rocinha (69 mil habitantes), Vidigal (13 mil moradores) e Chácara do Céu (mais de mil residentes), no domingo 13, traz em seu bojo outro sucesso nem sempre visto nas instalações das 18 Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) ocorridas no Rio de Janeiro há três anos – a primeira delas, na Comunidade Dona Marta, em Botafogo, foi em novembro de 2008.

Em contraposição à famosa imagem transmitida ao vivo pelas televisões de um bando fugindo do Complexo do Alemão, que completou um ano nesta segunda 28, desta feita as autoridades apresentaram a prisão do traficante Antônio Bonfim Lopes, o Nem, espremido no porta-malas de um carro, ao tentar deixar para trás o território que dominou com mão de ferro por seis anos. Horas antes, naquela mesma quarta-feira (9 de novembro), outros líderes da facção criminosa Amigos dos Amigos (ADA) também foram pegos na mesma rota de fuga. À ocupação territorial, portanto, soma-se nessa operação bem-sucedida a desarticulação dos chamados cabeças de uma facção. Homens que conhecem os caminhos que levavam aos fornecedores de países vizinhos capazes de abastecer o Rio de Janeiro com drogas e armas, os dois principais combustíveis da violência que assola por décadas a população carioca.

Hoje já são cerca de 30 as comunidades carentes “retomadas” pelo Poder Público, por meio de uma política desenhada pelo delegado federal José Mariano Beltrame, à frente da Secretaria de Segurança, e que tem dado incontáveis dividendos políticos ao governo de Sérgio Cabral. Mas, apesar de o caminho da retomada já ter sido aprendido,comomostrou a operação na Rocinha, ainda é árduo o que vem pela frente: a manutenção desses espaços, da formacomose vê hoje.

No Complexo do Alemão, formado por 12 comunidades que se espalham ao redor e na Serra da Misericórdia, na zona norte da cidade, a ocupação dura um ano e é mantida por nada menos que 1,8 mil homens do Exército. O acordo de cooperação entre o Comando do Exército e o governo do Rio foi esticado até o ano que vem, porque o estado do Rio não tinha como fornecer pessoal suficiente para substituir os militares. É justamente o enorme contingente que ajuda a manter afastado o risco de uma tentativa de reocupação por parte dos traficantes expulsos há um ano. “É o princípio da massa. Quanto mais gente tivermos em um território, menos oportunidades teremos de o crime organizado tentar retornar”, explica o general de brigada Otávio Santana Rêgo Barros, comandante da 4ª Brigada de Infantaria Motorizada, localizada em Minas Gerais, que no início de novembro foi deslocada para dar suporte à segurança naquela região.

Ali, para manter a ordem e evitar que os militares sejam contaminados pelo dinheiro ou outras vantagens que o tráfico oferece, o Exército faz um rodízio trimestral das tropas. O que é fácil, diante do enorme contingente da Força, que, ao contrário das polícias militares, não tem a responsabilidade de vigilância em outras áreas da cidade. Ainda assim, sem revelar números e detalhes, o general Rêgo Barros admite que ocorreram desvios de conduta entre alguns membros do Exército. “Foram muitos poucos casos.”

O risco também está demonstrado nas apreensões feitas pelo Exército, desde janeiro, quando a Força assumiu de fato a vigilância do complexo. Ou seja, mesmo com a ocupação pelo enorme contingente, o tráfico ainda usava a área como, no mínimo, entreposto. De lá para cá, já foram encontrados 12 fuzis, 10 pistolas, 74 carregadores, 4 revólveres, 9 granadas, 54 quilos de cocaína, 33 de maconha, 16 de haxixe e 7 de crack, cerca de 2,5 mil munições de diversos calibres, além de 75 mil reais em espécie e 30 mil dólares.

Já nas ocupações tradicionais, isto é, comunidades onde estão as tropas recém-formadas da Polícia Militar, o contingente é bem menor e o risco de contaminação, apesar de toda a preocupação, maior. O caso mais conhecido ocorreu em setembro, quando a PM substituiu todo o comando da UPP dos morros do Falet, Fogueteiro e Coroa, no bairro de Santa Teresa, depois de encontrar policiais com uma enorme quantia de dinheiro. Era fruto de propina paga para fazerem vista grossa ao comércio de drogas, mantido apesar da ocupação. Caíram todos, a começar pelo capitão Elton Costa, comandante da Unidade Pacificadora local.

Foi um caso emblemático, que talvez não se repita na mesma proporção. Mas há outras histórias a demonstrar que os cuidados terão de ser permanentes. Ao serem presos, na noite da mesma quarta-feira em que Nem caiu, os traficantes Anderson Rosa Mendonça, o Coelho, e Sandro Luiz de Paula Amorim, o Peixe, também fugiam da Rocinha. Coelho era líder do tráfico no Complexo de São Carlos, no Rio Comprido, centro da cidade. Peixe, embora seja traficante de Macaé, cidade no norte do estado, também se escondia noSão Carlos. Ambos rumaram para a favela na zona sul, dominada pela mesma facção à qual pertencem, em maio, quando a UPP chegou ao complexo em que estavam.

 

Naquela noite, segundo declararam aos policiais federais, eles corriam do cerco à Rocinha, anunciado para o fim de semana seguinte, em direção justamente ao São Carlos, onde se esconderiam. Não viam maiores riscos nesse retorno. Isso coincide com informações que chegaram a alguns setores da polícia, de que naquele complexo ainda há áreas com traficantes em atuação. Se há a benevolência das forças policiais ou é um mero descuido, ainda não há provas. Coincidência ou não, na sexta-feira 18, cinco pessoas acabaram presas no alto daquele morro com drogas, pistolas e carregadores de munição.

O mérito das UPPs, mais do que evidente, está na retomada dos territórios, não permitindo mais o desfile de criminosos com armas a impor a ordem. Não há, porém,comode resto nos bairros mais nobres, como impedir o tráfico e a delinquência. Mas,como lembrou um delegado da Polícia Federal, “nossa população é corrupta” e é na corrupção das novas forças policiais que existe o risco.

O próprio traficante Nem, ao ser preso, na conversa informal que teve com policiais federais, deixou escapar duas inconfidências. Primeiro, garantiu que metade do seu “faturamento”, que alguns alardearam como de 2 milhões de reais semanais, e outros, mais céticos e realistas, falam em, no máximo, 1 milhão mensal, destinava-se à corrupção de policiais. Ninguém duvida. A segunda inconfidência era de que o policiamento da UPP pode acabar sendo bom, pois afastaria os adversários e, com alguma propina, poderia permitir a continuidade do comércio de drogas, mesmo que em menor escala. •

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