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Sociedade

Crônica do Villas

Aperta o play!

por Alberto Villas publicado 08/08/2013 11h30, última modificação 08/08/2013 18h31
Não é brincadeira a vida de quem nasceu num mundo e hoje vive em outro. Por Alberto Villas
Emmanuel Dunand / AFP
smartphone

'Não foi nada fácil deixar o telefone fixo e passar pro celular'

Não foi nada fácil pra minha geração passar do escovão pra enceradeira. Sair do ferro à brasa para o elétrico. Não foi nada fácil pra minha geração ver o vinil virar CD, deixar o telefone fixo e passar pro celular, abandonar a máquina de escrever e usar o computador. Abandonamos a goma arábica e adotamos a cola Pritt, a Parker 51 trocamos por uma Bic e a laranja espremida uma a uma trocamos por um suco de caixinha.

Sofri muito com isso. Eu que ouvia diariamente meu pai rezar aquela ladainha “no meu tempo não tinha televisão”, com que cara vou dizer aos meus filhos que no meu tempo de calças curtas não tinha celular, não tinha microondas, não tinha TV Led, TV a cabo, DVD, CD, foto digital, controle remoto, voicemail, iPod, iPad, iPhone, site, blog, e-mail, WhatsApp, Instagram, Twitter, Facebook, essas coisas todas?

Não foi fácil entender como se mandava uma mensagem pelo celular, como se copiava ou apagava a mensagem, como se passava um fax, como escaneava um documento, como passava as fotos da máquina pro computador, como se fazia pra abrir um PDF. Hoje todo mundo já nasce sabendo mas a minha geração não sabia e teve que aprender na marra, da noite pro dia.

Minha neta Flora tinha dois anos quando me viu todo atrapalhado com o controle remoto na mão tentando ligar o aparelho de DVD pra ela assistir O Rei Leão. Ela olhou pra mim e candidamente disse:

- Aperta o play, vovô!

Não é que eu apertei e como num passe de mágica o Simba, filho de Mufasa, estava lá na tela? Pensei com os meus botões: Essa meninada de hoje já nasce sabendo todos os segredos da tecnologia e ainda por cima falando inglês.

Lá nos anos sessenta, eu me lembro bem quando chegou na minha casa em Belo Horizonte Antônia, uma mocinha lá do interior de Minas Gerais que veio pra ajudar nos serviços domésticos. Antônia quase morreu do coração quando minha mãe foi ensinar a ela como funcionava o aspirador de pó, um monstrengo que pesava uns bons vinte quilos. Quando ela apertou o botão e veio aquele barulho tipo de avião, Antônia caiu pra trás. Foi preciso abano e muita água com açúcar pra que ela pudesse voltar ao nosso mundo, um mundo que começava a mudar.

Sofri muito com esse mundo que mudou. Até hoje não é fácil perguntar pras minhas três filhas e pro meu filho como enviar aquela carinha amarela sorrindo via WhatsApp ou como dar aquele efeito na foto do iPhone. Ele e elas me olham com um olhar blasé como se eu estivesse perguntando como se descasca uma banana, como se acende uma luz, como se coloca água num copo ou como se atende um telefone. Tento explicar que tenho 63 anos mas acho eu que os quatro se cansaram dessa ladainha.

Mas eu vou levando. Estou no Facebook, no Twitter, no Instagram, mando recados pelo WhatsApp, aprendi a escanear, a passar as fotos da máquina pro computador, do computador pro pendrive e vivo fazendo compras pela Internet. Mas confesso que quando vou fazer uma pesquisa dou um Google e assim que acho o que quero, imprimo. Vou imprimindo, imprimindo até fazer uma pilha de papel.

Mas hoje estou me sentindo o rei da modernidade. Essa semana lancei um e-book reunindo 45 crônicas publicadas aqui no site de Carta Capital. O The Book is on the Tablet está aqui bonito no meu iPad em cima da minha escrivaninha mas confesso que estou com uma vontade danada de imprimi-lo, de pegar nele, cheirar, folhear página por página passando de vez em quando o dedo na língua.

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