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Sociedade

2014

Ao público o que é público

por Socrates — publicado 27/02/2008 16h48, última modificação 20/09/2010 16h56
Problemas nos Jogos Pan- Americanos deverão se repetir na Copa do Mundo de 2014

Problemas nos Jogos Pan- Americanos deverão se repetir na Copa do Mundo de 2014

(Coluna publicada originalmente em CartaCapital 474, de 12 de dezembro de 2007)Dado o histórico de nossa classe dirigente, vide os Jogos Pan-Americanos, imaginamos que, na organização da Copa do Mundo de 2014, devamos encontrar os mesmos problemas da competição carioca. Com uma estratégia para lá de conhecida, e que não conseguimos entender como ainda pode enganar a classe política, os cartolas trazem para nossas fronteiras eventos de grande porte com a promessa de utilizar somente recursos da iniciativa privada e, no final, quem paga a conta somos nós. Pagamos através da mobilização de grandes volumes de recursos públicos para viabilizar a sua realização, já que, ao ser indicados para tal, nos comprometemos irreversivelmente com a comunidade internacional. E tudo isso muitas vezes sem licitação por culpa de “urgências” que deveriam ter sido evitadas, o que possibilita favorecimentos, desvios, sociedades informais e tudo mais.

Com o grau de envolvimento de nossos políticos expresso no trem da alegria que foi a viagem de vários governadores e ministros acompanhando o presidente da República até a sede da Fifa apenas para ouvir o que todo mundo já sabia, pois não houve disputa pela sede da Copa de 2014, é possível antever o tamanho do rombo que teremos pela frente. Se nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, realizados apenas em uma cidade e sem o porte do que se avizinha, o estrago foi substancial, nem imagino o quanto deverá ser gasto no Mundial de Futebol que acontecerá, no mínimo, em uma dezena de cidades. Todas com sérios problemas de infra-estrutura, com estádios ultrapassados, sem o mínimo de condições para abrigar algo da magnitude de uma Copa do Mundo.

Todo investimento público deveria ter como prioridade o bem-estar da população em geral e, para que isso ocorra, é necessário que se faça um planejamento adequado para cada localidade, buscando detectar e atingir as suas maiores necessidades, com o maior controle possível, para que tenham resultados palpáveis e perenes. O objetivo maior, ao contrário do que muitos têm pregado, não deve ser relativo exclusivamente ao conforto dos que visitarem o Brasil no mês da Copa. Deve ser o legado que permanecerá para usufruto dos brasileiros, que, no final, são os que pagarão essa imensa conta. Mas, por favor, sem o engodo que foi o leque de promessas feito aos cariocas quando do Pan-Americano, e que em nada se converteu.

Quanto aos estádios, lembremos novamente do que aconteceu recentemente do Rio de Janeiro. O Estádio Olímpico, construído para os últimos Jogos e que consumiu quase meio bilhão de reais, conhecido popularmente por Engenhão, após a competição foi cedido a outrem, tendo como contrapartida um aluguel absolutamente irrisório. Isso é brincar com o nosso bom senso. Um caminhão de dinheiro enterrado em uma obra gigantesca para depois ser utilizado por poucos e que não têm nenhuma relação com a vizinhança, tão carente de bens públicos para o próprio uso. E o Engenhão, que nem sequer foi citado como um dos palcos do Mundial. Nosso estádio mais novo, segundo dizem, não está apto a receber um jogo de Copa do Mundo. Deve ser culpa dos arquitetos que o conceberam.

O que os espertos querem mesmo é fazer mais uma grande reforma no Maracanã ou implodi-lo, como sonha o presidente da CBF, para construir outro no lugar. Tudo para manipular somas estratosféricas de recursos, que, certamente, em boa parte, servirão para outros objetivos. Na verdade, não precisamos, não devemos e não podemos gastar mais do que temos. Se os cartolas que vão participar da elaboração dos procedimentos quiserem construir arenas suntuosas, que o façam com o dinheiro de investidores privados. Não com o nosso. Este deveria ser utilizado apenas em estádios públicos para modernizá-los (criteriosamente), com a perspectiva de uso também público após o Mundial.

Em vez de investir no Morumbi, por exemplo, por que não no Pacaembu, que é um bem público, apesar de muitas vezes ser tratado como particular pelos moradores da redondeza? Estaríamos, neste caso, compensando um pouco a enormidade de recursos que serão gastos para a confecção desta Copa do Mundo. Se esta filosofia for implantada, teremos como conseqüência um bom número de estádios em excelentes condições de uso para qualquer tipo de iniciativa – não apenas espetáculos de futebol –, sem corrermos o risco de tragédias como a ocorrida em Salvador há pouco.

Basta ao governo central decidir quando, como, onde e com quanto participará. E exigir que a sua responsabilidade seja exclusivamente aquela que lhe cabe. Nem mais nem menos.

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