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M'Boi Mirim

Antes do sol nascer, periferia luta por transporte público

por Piero Locatelli — publicado 21/10/2013 11h34, última modificação 21/10/2013 17h24
Pedindo a volta de linhas de ônibus extintas, manifestação na zona sul de São Paulo dá início à semana de atos pelo transporte. Por Piero Locatelli
Piero Locatelli/CartaCapital
Manifestação

Morador observa pneus em chamas pouco antes do sol nascer

Amanda Lima, de 37 anos, demora mais de duas horas para chegar à faculdade onde estuda História na Barra Funda, zona oeste de São Paulo. Amanda mora no Jardim Ângela, na zona sul, distante cerca de quarenta quilômetros do local das aulas. Até o ano passado, a estudante tomava um ônibus e três trens para chegar ao seu destino. Agora, ela pega dois ônibus e quatro trens para poder estudar.

Amanda perde quase uma hora a mais por dia desde que a prefeitura de São Paulo cortou ao menos seis linhas de ônibus entre 2010 e 2012 na região. As linhas faziam a ligação entre bairros do Jardim Ângela, como Fundão e Vila Gilda, diretamente com a região central da cidade, como as estações de metrô Santa Cruz e Ana Rosa. Agora, os moradores destes bairros devem ir até um terminal antes de chegar ao centro da cidade.

“As pessoas da região passam mais tempo no ônibus do que em suas casas,” diz Amanda, que milita no SOS Transportes M'Boi Mirim, organização que pede melhoria do transporte da região. Ela diz que seu caso não é isolado. “A população tem de esperar quarenta, cinquenta minutos no ponto para conseguir pegar um ônibus até o terminal Jardim Ângela. Chegando lá, há um gargalo que não comporta essa quantidade de pessoas. Então na maioria das vezes tem de esperar mais meia hora no terminal para ir até o seu destino.”

Este foi um dos motivos que levou Amanda e outros moradores da região a trancarem a estrada do M`Boi Mirim, principal via de acesso à região, nesta segunda-feira 21. Cerca de cinquenta manifestantes tomaram a rua e queimaram pneus e pedaços de madeira ainda antes do sol nascer, às quatro e meia da manhã desta segunda-feira 21. Ao longo da caminhada de cinco quilômetros até à ponte do Socorro, feita em três horas, algumas centenas de moradores da região se juntaram a eles.

Os manifestantes gritavam coisas como: “terminal é uma bosta, tá cheio e demora”. Além da volta de linhas de ônibus, eles também pediam o fim da duplicação da estrada e um encontro com o secretário de transportes da cidade, Jilmar Tatto.

Semana terá mais atos por transporte

O protesto foi articulado pelo Movimento Passe Livre junto com movimentos sociais e organizações da região e faz parte da semana nacional de luta pelo transporte público. Na quarta-feira 23, está marcado um novo protesto no Grajaú, extremo sul da cidade. Na quinta-feira 24, será a vez do Campo Limpo, também na zona sul. Em ambos os casos, os moradores protestam contra o corte de linhas que dificultaram a sua locomoção.

Na sexta-feira 25, o MPL deve fazer um ato pela tarifa zero no centro da cidade. Segundo Monique Felix, militante do MPL, o corte de linhas ocorre devido à mesma lógica que levou a tentativa de aumentar a tarifa em junho deste ano. “A prefeitura está com uma política de cortar linhas para a “racionalização” do sistema, e é isso que tem aumentado o tempo de viagem de vários moradores,” diz Monique. “O corte de linhas não é pensado para a necessidade do usuário e da cidade, mas na necessidade do lucro. Por isso a gente acredita que todas as pautas locais se encontram na pauta geral: a tarifa zero, que nada mais é que a luta pelo transporte deixar de ser mercadoria.”