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Animus comprandi X animus vivendi

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 19/09/2010 11h11, última modificação 19/09/2010 11h11
Mortais e consumidores com dificuldade em entender como pedras preciosas são tratadas como modismo

Mortais e consumidores com dificuldade em entender como pedras preciosas são tratadas como modismo

 Tem louco para tudo, do lado de cá e do lado de lá do balcão. Numa joalheria tradicional em Ipanema, o vendedor, com cara de sócio ou dono, foi ao encontro de uma cliente que olhava, distraidamente, as peças fulgurantes na vitrine imaginando quanto valia esta ou aquela.

O vendedor simpático, de meia idade, abordou a cliente (que se estivesse numa quitanda poderia também ser chamada de freguesa) dizendo que acabava de receber uma nova coleção “espetacular”.

Para mortais e consumidores de animus comprandi (leia-se vontade de gastar) controlado é difícil entender como ouro, brilhante e outras preciosidades são tratadas como camisetas, entrando e saindo de moda.

Esse tipo de consideração deve ser coisa de pobre ou de “freguesa”. Se não, não haveria os tais lançamentos. E é mesmo coisa de pobre. Explica-se: depois de ter conseguido atrair a cliente para dentro da loja, mais por excesso de gentileza dele do que por vontade dela, e mostrar-lhe apenas “a ponta do iceberg” da nova coleção, o excitado sócio ou dono percebeu que o animus comprandi da cliente não era dos bons.

 Assim que a não compradora lhe devolveu uma pulseira de ouro italiano que ele insistira em ver pousada no pulso dela, com aquele sorriso de quem não ia levar nada, apesar das parcelas infinitas que lhe foram oferecidas, o homem capitulou:

- "A senhora  não é da turma do Prozac, não, né?”

 Fingindo-se de ingênua ela atiçou:

 - “Como assim?”.

Ele explicou que tinha uma turma de clientes que andam com “prozac na bolsa” e que sempre aparecem para umas comprinhas que lhes agasalhe a depressão. Ela teve a impressão, ou foi preconceito, ou foi por sugestão, de que a senhora fofinha que se esbaldava diante de várias peças espalhadas numa bandeja de veludo azul marinho tinha tomado unzinho para alegria da vendedora que a atendia que era só sorrisos.

Diante da negativa bem humorada da freguesa, que embora contida no consumo não lhe revelou que também tomava lá seu antideprês de vez em quando (e quem resiste a um?)  e que reconhecia  às vezes travar batalhas com seu animus comprandi quando o animus vivendi não estava lá estas coisas, o vendedor desistiu de faturar algum daquela vez.

Antes que ela partisse, ele a companhou até a porta da movimentada Visconde de Pirajá e pôs-se a aconselhá-la.

- “O segredo da vida é esquecer o passado, não pensar no futuro e só prestar atenção no que está acontecendo no presente.”

 Ante filosofia tão abissal, a cliente se despediu aceitando, por gentileza, o convite feito pelo sócio-vendedor de que voltasse outra hora para conhecer o resto da  espetacular coleção.

 - “Isso aí – disse ele, referindo-se com boca de desprezo às jóias que ainda estavam na vitrine -, não está com nada diante das coisas lindas que estão chegando.”

Impossível não lembrar de um  velho quadro humorístico semanal da TV em que havia um bando de loucos e que cada um contava sua historinha. No que os outros respondiam em conjunto e ritmadamente:  “só tem tan-tan, só tem tan-tan...”  (AMB)

Ai, meu Deus do Céu !!! Por que o povo de call center e afins agora tem a mania de responder: - “Imagina, obrigado eu”, quand0 a gente agradece?

A indagaão é da repórter Sandra Moreyra, que escreveu no Facebook: - Que "obrigada eu" é esse? Isso não é Inglês traduzido, que nem os gerundios "vou estar te mandando", mas não é e jamais será Português, né?

A trepidante Sandra, diria Jota Silvestre, está absolutamente certa.

Onde as gentes?  – De uma senhora desesperada com os sistemas self service cada vez mais frequentes nas lojas de varejo, em busca de um esmalte chamado “crochê”.

 - “Não tem mais ser humano trabalhando, não tem um ser humano que possa responder a uma pergunta? Cadê o “crochê?”

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