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Amigo-oculto faz carreira

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 18/12/2009 18h31, última modificação 20/09/2010 18h32
O reaquecimento da economia esquentou também a tradição familiar de presentear parentes e amigos no Natal, embora muitos, com crise e tudo, nunca tenham abdicado desse costume.

O reaquecimento da economia esquentou também a tradição familiar de presentear parentes e amigos no Natal, embora muitos, com crise e tudo, nunca tenham abdicado desse costume. Da mãe ao porteiro, não importam os laços sanguíneos, mas o espírito é de confraternização nem que o precioso décimo terceiro, que pode salvar tantos apertos, vá pelo ralo. E como vai.

Mas em tempos de vacas magras, a brincadeira de “amigo-oculto”, também conhecida como “amigo-secreto”, faz carreira entre as famílias. Como no local de trabalho, sorteia-se uma pessoa do clã para ser a presenteada da Noite Feliz.
Dessa forma, o mimo pode ser algo mais útil, de maior valor, em vez daquelas lembrancinhas semidescartáveis, que vem acompanhada de sorrisos amarelos e de um “não repara, hein?!”, para aquele catatau de tios, primos, sobrinhos, sogras, genros e agregados, porque parente não se escolhe para o bem nem para o mal. E os sumidos gente boa que só aparecem no Natal, como ex-cunhados?

Pelo movimento do comércio nas últimas semanas, a brincadeira de amigo-oculto neste Natal deverá ficar mais restrita aos locais de trabalho, onde nasceram. Por invenção de quem? Até agora, não deu para eleger qual presente é a febre do ano.

Com a globalização e os gases de efeito estufa bafejando o planeta, podemos dizer, pois esses fenômenos são os causadores de muitas mudanças, os objetos de desejo se diversificaram. Nem tão antigamente assim era batata pedir e ganhar CD.

Por exemplo, o É o Tchan, que, aliás, não faz a menor falta, já foi um dos campeões de Natal. O Rei, Roberto Carlos, nunca perdeu a majestade nas repartições, entrou ano e saiu ano, e os grunhidos afinados de Mariah Carrey também receberam carradas de pedidos em dezembros mais recentes.

Mas com os downloads e com a pirataria desvairada (viram onde entra a globalização?) os CDs perderam o páreo. Na mesma curva descendente escorregaram os DVDs, também assíduos na lista dos presentes que ficava afixada nos quadros de aviso.

Mais antigamente ainda, houve Natais em que as cadeiras de praia, aquelas grandes e pesadas de ferro (as menores de alumínio eram bem mais caras) foram o must. Nove entre dez amigos- ocultos, principalmente mulheres, pediam a tal espreguiçadeira de presente. Hoje se aluga cadeira e barraca na praia, o que é um grande adianto no ato de se ir ao mar sem carregar as traquitanas que, entre outros dissabores, quando não estamos aboletados nelas, trazem areia para dentro de casa, por mais limpa que estejam, e ocupam espaço.

Era um mico comprar e levar o trambolho praiano para o trabalho até poder se livrar do fardo, embrulhado para presente apenas com uma simbólica faixa de papel com motivos natalinos. Vencida a prova, era depositar com alívio a cadeira ao lado de suas semelhantes, e esperar a embaraçosa hora da festa quando se tem de revelar as características do “seu” amigo-oculto.

Há, no entanto, toda uma logística por trás disso tudo. Para dar certo, a brincadeira tem de ter uma espécie de gerente cuidando para que ninguém fique de fora, o que não raro acontece gerando problemas de autoestima. O coordenador deve estabelecer um teto e um piso para o presente não ser uma merreca nem um despautério, além de ter uma boa “interface” com a turma para fazer mudanças oficiosas, caso o amigo-oculto pince o nome de um inimigo declarado.
São sutilezas de bastidores que requerem alguma habilidade. Só quem já se meteu a organizar um jogo de relacionamento desse tipo sabe a faina de fazer os colegas de trabalho um pouco ou muito mais felizes, e ainda tendo de ignorar os olhares debochados dos que acham isso tudo uma breguice, mas que não arredam pé de apor o seu pedido no quadro de avisos.

No mais, ninguém ainda noticiou entre nós: Ridley Scott está terminando a montagem de uma nova versão cinematográfica de Robin Hood (Russell Crowe), na qual o mítico herói da floresta de Sherwood vai aparecer como uma espécie de vilão e o antes famigerado Xerife de Nothingham como um sujeito simpaticíssimo, com um caráter em conflito. Maid Mariam será Cate Blanchett. O filme chegará em maio, por aqui.