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A América Latina festeja seus mártires

por Deutsche Welle publicado 24/05/2015 08h45
Beatificação do bispo salvadorenho Óscar Romero marca reconciliação do Vaticano com movimentos de esquerda do continente
Marvin Recinos/AFP
Mural-Óscar-Romero

Um mural de Óscar Romero (1917-1980) em Panchimalco, a 20 km de San Salvador

Por Astrid Prange 

Em sua terra natal, El Salvador, o arcebispo Óscar Romero é reverenciado como um herói nacional e defensor da paz e da justiça. O presidente do país, Salvador Sánchez Cerén, vê a beatificação como o início de uma nova era. "A América Latina tem agora, finalmente, um santo. Que seu exemplo sirva para para mudar o país", disse ele à imprensa local.

Para Sánchez Cerén, um ex-comandante guerrilheiro da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN), assim termina a Guerra Fria também na América Latina, pois a suposta ameaça do comunismo – que levou a que, nos anos 1970 e 80, os EUA apoiassem juntas militares na região –, finalmente passou a ser parte da história.

"Óscar Romero é um gigante da história da América Latina", concorda o presidente equatoriano, Rafael Correa, que participa da cerimônia de beatificação, neste sábado (23/05). Ele acredita que, com ela, os mártires da América Latina finalmente recebem o justo reconhecimento.

A beatificação do arcebispo de San Salvador vem tarde. E, ainda assim, agrada em cheio à esquerda política e aos seguidores da Teologia da Libertação na América Latina. Pois sacerdotes e bispos com ideias revolucionárias, que não aceitam a pobreza dos fiéis como uma dádiva de Deus, mas como algo que deve ser combatido com a ajuda divina, tinham até agora poucos defensores no Vaticano.

A eleição do papa Francisco, em 2013, marcou o início de uma mudança política na Igreja. Após a reaproximação entre Cuba e os Estados Unidos, o primeiro latino-americano a comandar o Vaticano enviou mais um sinal da reconciliação política: o arcebispo Óscar Romero, assassinado a tiros em 24 de março de 1980 durante uma missa, não é mais considerado um revolucionário ou um comunista, mas um santo defensor dos direitos humanos.

Segundo o teólogo e escritor brasileiro Leonardo Boff, a beatificação de Óscar Romero traz uma nova interpretação do martírio. "Alguém que defende os pobres com a própria vida também é santo", afirma.

Para o ex-padre franciscano brasileiro, que já foi punido pelo Vaticano por pregar a Teologia da Libertação, este é um triunfo tardio. "Finalmente temos um santo da Teologia da Libertação para os pobres", diz Boff, acrescentando que isso também explica por que tantos chefes de Estado confirmaram participação na cerimônia religiosa, pois Romero seria um "santo político".

Fora do Vaticano, Romero tem sido reverenciado como um ícone da paz e da justiça. Em 2011, o presidente dos EUA, Barack Obama, se ajoelhou no túmulo do "bispo dos pobres". As Nações Unidas dedicaram um dia em sua homenagem, parlamentares britânicos o indicaram para o Prêmio Nobel da Paz.

O papa Francisco não só suspendeu o bloqueio contra a beatificação de Óscar Romero. Ele também anunciou que irá examinar a beatificação de outro crítico do sistema: Dom Hélder Câmara. O "arcebispo vermelho de Recife" já levantava sua voz na década de 1950 contra a injustiça social e foi um defensor dos direitos humanos durante a ditadura militar brasileira.

Em seus sermões, Hélder Câmara expôs a hipocrisia social: "Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista", é uma de suas frases mais conhecidas.

Óscar Romero, Dom Hélder Câmara, Gustavo Gutierrez, Jon Sobrino e Leonardo Boff: os fundadores da Teologia da Libertação na América Latina não só atuaram na resistência às ditaduras militares e pela justiça social, como também levantaram uma questão que até hoje ainda instiga discussões: pode a fé cristã ser revolucionária?

O arcebispo de Maringá, Anuar Battisti, responde a esta questão com um sonoro "sim". "Claro que ainda existem padres e bispos comprometidos com os pobres, eles só não se expressam de forma tão radical como antes", afirma, em entrevista à DW. O arcebispo observa que os tempos em que a luta social era proclamada nas paróquias ficaram "definitivamente para trás".

Para Battisti, a beatificação de Romero enfatiza a visão do papa Francisco, que inclui a noção de uma Igreja humilde, que dispensa a pompa. "O engajamento em favor de grupos sociais desfavorecidos acontece hoje em silêncio", ressalta o religioso. "Não há mais confrontação aberta com governos ou com o sistema político".

Mas a luta de décadas contra teólogos da libertação, católicos de esquerda e reformadores deixou feridas profundas. Por isso, as planejadas beatificações são, para muitos na esquerda, como um bálsamo, mesmo ocorrendo tardiamente.

A esquerda da América Latina espera que futuramente a aura santa de Romero também brilhe sobre ela. Em Salvador, Nicarágua e Honduras, camisetas com retratos de Salvador Allende e Che Guevara são vendidas ao lado de roupas com o rosto de Óscar Romero.

Deutsche Welle