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Crônica / Matheus Pichonelli

Almeidinha sai de cena

por Matheus Pichonelli publicado 27/03/2015 16h08, última modificação 11/06/2015 17h04
A saga do "tiozão conservador" pregava a convertidos. Quem já não tolerava o intolerante seguia não o tolerando, e quem desfilava intolerância apenas se irritava
Almeidinha

O Almeidinha era uma espécie de Peter Griffin, da série Uma Família da Pesada, tupiniquim

Muitos dos meus poucos leitores vira e mexe me perguntam por onde anda o Almeidinha, aquele personagem conservador e boquirroto que de vez em quando aparecia neste espaço. Para quem não conhece, era um sujeito inventado pelos amigos da faculdade usado como caricatura para representar uma categoria decadente do macho adulto branco com inclinações homofóbicas e simpatias autoritárias. Era, enfim, o tiozão comum e amedrontado que caminhava para morrer abraçado a uma visão, digamos, pouco sofisticada do mundo.

Quando perguntado, digo sempre que dispensei a brincadeira porque ela havia se tornado uma muleta. Bastava alguém falar um absurdo para repreendê-lo com uma caricatura. Ríamos dos discursos descalibrados como quem tem certeza não apenas de uma superioridade moral, mas também uma superioridade numérica. Ridicularizávamos o sujeito convictos de que ele não precisava ser levado a sério. Não deixa de ser uma arrogância de quem ri.

A crítica era fácil porque era indireta. Eu, pelo menos, me sentia vingado com ela, pois tirava da vida real todos os sofismas berrados pelo sujeito. Surgia, dessa maneira, um Frankenstein. Ele conseguia, ao mesmo tempo, ser intolerante, preconceituoso, agressivo, elitista, decadente. E logo foi associado a um tipo de leitor ou eleitor.

Esse exercício, que durou mais ou menos um ano, me lançou em uma posição confortável. Seguro de estar do lado certo - o alto - podia lamentar o atraso mental de uma categoria digna apenas de pena e desprezo. Tanto que centrava a pena na ficção. Jamais me dava ao trabalho de rebater o sujeito em vida. É ali, sozinho e confortável com o nosso desprezo distante, que ele cresceu.

Esse conforto, ao menos no meu caso, se revelou perigoso. Ao ridiculariza-lo, pregava a convertidos. Quem já não tolerava o intolerante seguia não o tolerando; e quem desfilava intolerância se irritava e devolvia com intolerância.

Na pretensa intenção de fazer alguém refletir sobre o que se repete em meio à manada, levantava uma crítica que não levava a nada, nem à reflexão - inclusive a minha, que não entendi quando o Almeidinha da vida real começou a surgir em espaços supostamente protegidos do ranço conservador.

Sozinho, o Almeidinha carregava os argumentos mais viciados de saudosos da ditadura, viúvos da Guerra Fria, pais de família apavorados com a ampliação de direitos das minorias, simpatizantes da meritocracia e críticos do inchaço da máquina pública. Como se o sujeito que critica a política de financiamento estudantil, que no fim das contas beneficiou mais os magnatas da educação do que os estudantes pobres, fosse necessariamente homofóbico. Ou como se o opositor das ações afirmativas fosse necessariamente misógino. O Almeidinha personificava tudo isso e mais um pouco. Era pouco.

A condenação, no STF, de parte da cúpula do governo Lula no mensalão, seguida das investigações na maior empresa pública nacional, e a proximidade dos escândalos com um método de financiamento de campanha embaralharam a gritaria. Organizados e conectados, muitos dos descontentes passaram a se mobilizar.

Não eram só "tiozões" saudosos do malufismo. De repente o garoto de 19 anos, crente de que podia largar o curso de Economia porque entendia mais de economia do que os professores, era quem tomava o microfone. Mas não só. De repente quem tirava da gaveta as pautas mais moralistas, homofóbicas e sexistas da praça não era o liberal insensível, mas o neoaliado evangélico que montava um califado enquanto coxinhas e petralhas se digladiavam pelo monopólio do bom combate. (Só quem não entendeu nada da reação conservadora atual é capaz de associá-la a um movimento puramente de elite. A elite está onde sempre esteve: encastelada. De vez em quando desce à rua, é verdade, mas parte dela, inclusive, está presa em uma carceragem de Curitiba. Ela opera, influencia, contamina, joga sujo. Mas isso somente não explica, por exemplo, a ascensão de grupos religiosos ao comando do Congresso. Embora queridos do empresariado, esses novos atores que entendem tanto do regimento interno como de mandamentos bíblicos tem base eleitoral em outro segmento. Daí a ascensão de Cunhas e Felicianos, que ganharam campo onde os partidos populares se imaginavam hegemônicos).

Nos tempos recentes, já não eram os tiozões malufistas que pegavam em armas para dirigir insultos relacionados a gênero contra a presidenta eleita, e não apenas ao seu governo. Eram também as mulheres da casa. Não era o patriarca quem tentava abafar as panelas associando-as a "histeria". Eram os progressistas. Nem era o proprietário racista quem criticava o relator da ação penal chamando-o de "capitão do mato". Eram, de novo, os progressistas - muitos deles parte do atual governo, tão conscientes da importância simbólica de ter uma mulher como chefe que, quando contrariados, se referem a ela como "tia".

A bonança de tempos recentes levou a esquerda, e este colunista, a um bolsão de conforto. Toda crítica era reação, implicância com as mudanças, ranços contra governos populares - e bem-sucedidos. Era também, mas não só. O fim da bonança mostrou o quanto faltou de autocrítica nesses anos todos. Era preciso ouvir os que berravam - ainda que fosse para mostrar que o berro não fazia sentido. Preferimos não dialogar. Preferimos o deboche. E os alvos se tornaram ainda mais agressivos.

Hoje o fantasma da Guerra Fria, responsável por um desfile de delírios associados a comunistas e bolivarianos, serve também ao outro lado. Longe da zona de conforto, há quem conclame a reação tendo como espantalho o desfecho trágico dos anos pré-queda de Salvador Allende no Chile. Só que, num caso, havia um presidente que tentava emplacar reformas populares. No outro, as reformas são tudo, menos populares. Têm como objetivo acalmar o mercado.

Quando demoramos a admitir o óbvio – a campanha foi fajuta, os populares não são (nem devem ser) clientes fidelizados, o inimigo mora ao lado, o modelo se esgotou, as reformas foram adiadas e o eleitor não perdoa vacilo ou contradição – a história, contada por quem está acuado, ressurge, mas não como tragédia nem como farsa. Ressurge como fábula. Podemos até rir dela. Mas o deboche já não corrige os maus costumes. Estes perderam a graça.