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Crônica / Matheus Pichonelli

Almeidinha: "Fujam para Miami. Os bárbaros chegaram"

por Matheus Pichonelli publicado 15/01/2014 12h10, última modificação 18/11/2014 21h52
Todo mundo sabe como devemos nos comportar no shopping: como bons almofadinhas. Lugar de baderna é baile funk
Reprodução/Family Guy
Almeidinha

A baderna do “rolezinho” mostra que os tempos mudam, as classes ascendem, mas algumas sentenças são intocáveis: pobre quando vê doce se lambuza

Vou confessar uma coisa: não estou acostumado com a fama. Mas ser astro das redes sociais e ter dado entrevista em programa de apresentador misógino de tevê fizeram de mim um rosto conhecido nos lugares onde a civilização já chegou. Por exemplo. Durante as férias, andava pelas ruas de Miami, onde posso comprar por um preço civilizado um perfume que no Brasil é vendido com taxas e impostos de odores bárbaros, quando fui reconhecido por um fã:

-Oi, você não é aquele almofadinha da internet?

A expressão soou como um sopro quentinho de um leite com pera no inverno: estava em casa.

Um almofadinha reconhece o outro pelo olhar: e o meu, em evidência, atravessou a fronteira. Sim: é bom sentir essa sensação. E é bom saber que somos muitos.

O almofadinha, para quem não sabe, é o sujeito ignorado na escola pelo simples fato de ser superior. Nós sentávamos na frente da sala, levávamos maçãs para os professores, guardávamos nossos brinquedos intactos nas prateleiras, entupíamos nossos cabelos de gel e voltávamos para casa com o uniforme impecável. Éramos diferenciados da barbárie protagonizada pelos outros meninos, que saíam em debandada quando mal tocava o sinal do intervalo, e se espalhavam no pátio para improvisar uma atividade bárbara chamada futebol, que coloca marmanjos bárbaros a correr e suar como bárbaros e levantava suspiros das meninas bárbaras da nossa classe (algumas até jogavam com eles). Alguns andavam de skate. Outros cantavam funk. Ou rap. Ou dançavam. Muitos chegavam até a fumar drogas.

Aqueles bárbaros se reuniam todo fim de semana nas casas bárbaras uns dos outros. Faziam, claro, barbaridades: pescavam, corriam, rebolavam para conquistar as presas, pintavam os cabelos, os rostos, acendiam as fogueiras das churrasqueiras ou saíam em bando por aí. Eu me perguntava qual a diferença entre eles e os índios e sabia, no fundo, que Deus estava vendo aquela zuera toda.

Como não era adepto da barbárie, geralmente minha existência passava desapercebida: os bárbaros não enxergam civilidade nem os civilizados; muito menos os nossos esforços civilizatórios para levar luz e discrição onde imperava o caos e a baderna. Mas, de vez em quando, esses mundos entravam em choque. Como quando pegaram minha lancheira e usaram como bola. Em vez de chorar, liguei para casa; em dez minutos, o problema estava equacionado: vi meu algoz ser levado pelas orelhas até a sala da inspetora, onde só não confessou ter sido o autor do disparo contra o arquiduque Francisco Ferdinando. Desde então nunca mais fui convidado para as festas da classe. Mas na minha lancheira nunca mais ninguém mexeu.

Se me ressinto? Jamais. Enquanto eles dançavam e cantavam músicas de artistas bárbaros, eu me preparava para subir na vida. Foi quando virei um almofadinha, na linguagem dos bárbaros para designar os superiores. Naquela época, encontrei um terreno fértil: o shopping da cidade, onde a maioria dos bárbaros da cidade só podia frequentar uma vez por ano. Foi no shopping que me deparei com o ápice do processo civilizatório: não havia buzina nem calor nem vendedor de placas-sanduíche falando alto, vendendo e comprando ouro, expondo preços de frutas, alianças, promoções em voz alta e alto-falantes (nada mais bárbaro do que carro de som para vender pamonha). Pelo contrário: tudo era claro, higienizado, apetecível, moderno, importado.

Bons tempos aqueles. Hoje há shoppings em tudo quanto é canto e qualquer um pode entrar. Construíram shoppings na periferia, mas não deu certo: foi como dar uma metralhadora a um bicho-do-mato. Malditas escolas públicas, maldita inclusão digital. A baderna do “rolezinho” mostra que os tempos mudam, as classes ascendem, mas algumas sentenças são intocáveis: pobre quando vê doce se lambuza. Todo mundo sabe que shopping não é lugar de baderna. Lugar de baderna é baile funk. É na zona. Na casa da mãe. Até no pátio da escola. Todo mundo sabe como devemos nos comportar no shopping: como bons almofadinhas. Almofadinha não anda em grupo. Almofadinha não vai ao shopping para ver menina. Almofadinha vai ao shopping com os pais e ganha presente quando se comporta. Almofadinha anda na linha. Almofadinha não volta para casa com a roupa suja ou o rosto suado. Almofadinha não corre. Almofadinha sabe usar o talher. Não faz guerra de batatinha. Não brinca de pega-pega. Não fala em voz alta. Não tem o DNA da barbárie que transforma um simples ato de desobediência (ao guarda, ao professor, ao pai) um objetivo em si. Almofadinha gosta da ordem. Gosta do progresso. Gosta da evolução. Gosta de armas contra quem não sabe andar na linha como ele.

Mas almofadinha não têm mais lugar: o fundão da classe chegou ao pátio; chegou aos condomínios; chegou aos aeroportos e agora quer invadir os shoppings. Não nos resta outra alternativa se não viajar até um país civilizado, espécie de América Latina que deu certo, para nos sentir civilizados. É necessário ficar longe da baderna toda para ser reconhecido, para dar autógrafo a outros almofadinhas em um lugar limpo e livre dos incapazes de reconhecer a própria inferioridade - sem inveja da civilização porque está no coração da civilização. Um lugar onde, enfim, podemos exercer nosso direito à almofadagem em paz.

 

Nota da Redação: Almeidinha é um personagem fictício. A crônica é só um apanhado de chavões e lugares-comuns espalhados todos os dias nas redes sociais que, conscientemente ou não, reforçam preconceitos antigos na sociedade brasileira. Este texto é  uma forma de ironizar as manifestações de superioridade civilizatória relatadas ao longo da semana por conta dos polêmicos "rolezinhos" ao shopping.