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Ainda o rapaz latino-americano

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 04/09/2006 15h32, última modificação 21/09/2010 15h35
Se foi golpe de marketing parece que deu certo. Todos perguntaram por onde andaria Belchior. Ninguém pensou, seriamente, que ele tinha sido abduzido por ETs ou pela pior das gentes, como se diz da morte. Até porque, aqui e ali, pipocavam evidência e fotos dele em lugares insólitos, como ao lado de Sarney em evento da OAB. Eu, hein

Se foi golpe de marketing parece que deu certo. Todos perguntaram por onde andaria Belchior. Ninguém pensou, seriamente, que ele tinha sido abduzido por ETs ou pela pior das gentes, como se diz da morte. Até porque, aqui e ali, pipocavam evidência e fotos dele em lugares insólitos, como ao lado de Sarney em evento da OAB. Eu, hein.

Aparentemente, o autor e cantor de poucas, mas definitivas canções, deu uma pirada e mandou tudo pro inferno: contas, pensão, amigos, carreira e uma história de vida de aparente coerência admirada pelo público.

Na entrevista que deu para o Fantástico, Belchior não falou da vida pessoal. Uma fonte nos disse que ele vive uma relação amorosa, digamos, de possessividade. Mas de especulação, o inferno está cheio. O cantor deve saber que, depois de aparecer na telinha com paradeiro nos longínquos pampas utuguaios, a “dona dura” vai dar em cima para que salde seus muitos compromissos. Aí será outro capítulo, no qual não cabe piração de artista, a não ser que provem que aquele Belchior coradinho e bem disposto era uma esmaecida imagem holográfica.

Nesse extravio, muito gente demonstrou apreço verdadeiro pela pessoa e pela obra do artista. Muitas também revelaram o desapreço pela sua produção, desqualifiquando-a como uma meia dúzida de canções, com destaque para o clássico, na voz dele ou de Elis, que diz: “...ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Como se quantidade fosse qualidade.

Gostem ou não, Belchior é o tipo de autor de obra concisa, mas que imprimiu sua grife. Não são poucas as estrelas de quase uma nota só que, como ele, não emplacam novas canções, e que se não cantarem antigos sucessos, o show não tem graça. E dá-lhe de remix, com batida de funk e o escambau, para ficar moderno. É mais do mesmo. Nem por isso, a coisa deixa de ser boa.

(A propósito, o poeta carioca Geraldinho Carneiro acha que, qualquer dia desses, até Catulo da Paixão Cearense, o inventor do primeiro pagode, vai virar funk também. O que seria muito bom, galera.)

Um bom termômetro da condição de ídolo de Belchior é que, além das correntes, sérias ou gozadoras, que surgiram na Internet a partir da notícia de seu sumiço, ele era um dos nomes mais aguardados, no extinto Seis e Meia, implantado na década de 1970 pelo falecido Albino Pinheiro. A fila dava voltas em torno da casa, de 1.200 lugares, e a lotação esgotava.

O projeto, antes de perder o rumo com a morte de seu criador, levou ótimos shows, como Nara, João Bosco, Clementina, Nana, Paulinho da Viola, ao Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes, no Centro do Rio, a preços popularíssimos, na hora do rush.

Agora é ver o que haverá quando Belchior voltar à real. Querido pelos verdadeiros fãs e requerido pela Justiça, ele vai ter de cantar muito, e lotar vários João Caetano, para saldar o prejuízo dessa viagem à maionese, com jeito de rebelde sem causa. Mas vá saber o que se passa na cabeça deste rapaz latino-americano, ao que tudo indica, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes.

Você sabia? Que no Teatro João Caetano, fundado em 1813 por Dom João VI, foi promulgada em 1824 a primeira constituição brasileira por D.Pedro I? Que o teatro foi presente de 15 anos de D. João ao filho D.Pedro? Que a atriz Bibi Ferreira considera o João Caetano o melhor teatro do País? E que João Caetano foi um factótum, um faz-tudo, do teatro nativo, atuando como ensaiador, ator e empresário? Bem, já valeu o descaminho de Belchior.