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Agora é cada um por si

por Rodrigo Martins publicado 10/03/2011 09h53, última modificação 10/03/2011 17h14
As tevês negociam diretamente com os times e implodem o Clube dos 13
Agora é cada um por si

As tevês negociam diretamente com os times e implodem o Clube dos 13. Por Rodrigo Martins. Foto: Apu Gomes/Folhapress

As tevês negociam diretamente com os times e implodem o Clube dos 13

O clube dos 13 tinha acabado de obter um importante trunfo na batalha da negociação dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, com o aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Mas a disposição das emissoras em negociar diretamente com os times dissidentes pode ter agravado ainda mais o racha na associação que há mais de duas décadas representa os interesses comerciais das 20 maiores agremiações do futebol brasileiro. Agora, além da Globo, que já havia descartado a possibilidade- de apresentar uma oferta na licitação preparada pelo C13, também a Record admitiu a pretensão de negociar com os clubes sem a intermediação da entidade.

“A proposta do Clube dos 13 rompe com as obscuras negociações que favoreciam o monopólio e descaracterizavam a concorrência, impondo aos clubes valores e limitações exigidas pelos eternos favorecidos”, diz a nota assinada pela Central Record de Comunicação e divulgada na quarta-feira 2. “Mas se os clubes desejarem uma negociação em separado, optando por outro modelo, a Record pretende apresentar proposta, desde que as negociações sejam feitas seguindo padrões de transparência e regras claras.”

O anúncio surpreendeu os dirigentes do C13. Além de aprovar a negociação conduzida pela entidade, o Cade exigiu, na terça-feira 1º, a extinção do ágio de 10% concedido à Globo na licitação. O maior lance levaria a disputa, e a Record havia sinalizado a intenção de oferecer bem mais que os 500 milhões de reais mínimos estipulados pelo edital. Além disso, Fernando Furlan, presidente da autarquia federal que combate a formação de monopólios e cartéis, antecipou rígida fiscalização nas negociações entre emissoras e clubes. “Se houver notícias de condutas que poderão ter efeitos anticoncorrenciais, a Secretaria de Direito Econômico vai investigar.”

Para dirigentes do C13, essa seria a brecha para intimidar os clubes rebeldes e iniciar uma batalha jurídica. Após o anúncio da Record, o espírito beligerante foi deixado de lado. “Não queremos mais briga, vamos negociar com os descontentes e tentar salvar a licitação”, afirmou a CartaCapital Ataíde Gil Guerreiro, diretor-executivo da entidade. “Essa é a primeira vez que poderemos negociar um contrato sem garantir preferência a nenhuma emissora. Com uma concorrência de fato, poderemos dobrar os valores pagos pelas tevês. Tentarei mostrar aos clubes que é muito mais vantajoso negociar em conjunto, e não em separado.”

O argumento, no entanto, parece não sensibilizar Andrés Sanchez, presidente do Corinthians e principal articulador do movimento dissidente. “Já disse publicamente que a posição tomada pelo meu clube de negociar diretamente com as tevês é porque não concordo com a maneira como as negociações vinham sendo encaminhadas. Tenho certeza que o Corinthians e os próprios clubes negociando diretamente terão receitas maiores. As emissoras interessadas em negociar com o Corinthians podem procurar o nosso diretor de mar-keting, Luís Paulo Rosenberg”, afirmou a CartaCapital. “Um dos motivos disso tudo é que não aceito deixar o valor de 4% do total da negociação para o Clube dos 13.”

Os quatro maiores clubes do Rio de Janeiro também reafirmaram a disposição de negociar em bloco, mas separado do C13. “Estamos consultando nossos departamentos jurídicos e vamos ouvir as propostas de todas as tevês”, anunciou o presidente do Vasco, Roberto Dinamite, falando em nome do grupo, que inclui Flamengo, Botafogo e Fluminense. Além dos times cariocas, Grêmio, Cruzeiro, Santos e Palmeiras declararam o interesse em negociar suas cotas individualmente. Mesmo diante da debandada geral, Fábio Koff, presidente do C13, tenta negar a iminente implosão da associação: “Não há saí-da formal, só declarações nos jornais”.

O dirigente lembra que apenas o Corinthians rompeu formalmente com a entidade, e pediu sua desfiliação. “Enquanto o time estiver associado, o C13 tem a autorização para continuar negociando em nome dele. E, para sair, um processo que dura de 60 a 90 dias, o clube tem de quitar todos os seus débitos”, completa Guerreiro. Mas o discurso parece não amedrontar os rebeldes. “Posso ser expulso, não estou preocupado”, ironizou Zezé Perrella, presidente do Cruzeiro, no sábado 26.

A negociação direta entre clubes e emissoras reserva algumas armadilhas. Em resposta ao C13, a Globo publicou um comunicado no qual expõe as suas razões para não participar do edital feito pela entidade. Além de se queixar das “condições que não atendem aos nossos formatos de exposição de conteúdo em tevê aberta e da comercialização do seu patrocínio”, a emissora deixou clara sua insatisfação com a ambição da entidade esportiva de dobrar o valor cobrado pelas cotas. “Nesses últimos anos, os clubes brasileiros tiveram um crescimento de receitas muito acima do crescimento do PIB do País, não só através das receitas obtidas com a venda dos direitos de transmissão, mas também com a comercialização de outros ativos, incluindo propaganda nos uniformes e publicidade nos estádios, em virtude da exposição permanente na tevê aberta.”

Mas, se a emissora quer pagar menos, qual seria a justificativa de tantos clubes abandonarem a negociação conjunta numa licitação em que a Record estaria disposta a bancar o aumento das receitas? Essa é a pergunta que o presidente do Atlético Mineiro, Alexandre Kalil, tem destacado em todas as entrevistas que concede. No entanto, com a Record disposta a entrar no jogo das negociações diretas com o clube, a aposta da Globo no racha do Clube dos 13 pode sair pela culatra. “Se for respeitada a livre concorrência, leva quem paga mais. E o Cade está em cima”, alerta Guerreiro.

Outro impasse do modelo individual de negociação é o risco de um grupo de clubes assinarem contrato com a Globo e o outro, com a Record. Como os direitos de transmissão valem para os dois times que disputam cada partida, muitos duelos não poderiam ser televisionados se as emissoras rivais não chegassem a um acordo de exibição conjunta dos jogos. Neste caso, a despeito das cifras milionárias envolvidas, o maior prejudicado seria o torcedor.

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