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Acusado de tortura deu depoimento inverossímil, diz CNV

por Marsílea Gombata publicado 07/04/2014 20h09, última modificação 22/05/2014 12h13
Segundo a advogada Rosa Cardoso, Dirceu Gravina relatou que gritos de dor não vinham da tortura e eram parte de um coro dos agentes para intimidar os militantes
Thiago Vilela / ASCOM - CNV
gravina

No Doi-Codi, Gravina tinha o apelido de JC, uma alusão à Jesus Cristo, por usar cabelos compridos e um crucifixo

Convocado para depor na audiência sobre centros clandestinos de violações de direitos humanos na ditadura, o delegado Dirceu Gravina se recusou a falar em público e concordou em prestar depoimento apenas para os integrantes da Comissão Nacional da Verdade.

Hoje com 65 anos de idade, Gravina trabalha como delegado no Departamento de Polícia Judiciária de Interior 8, em Presidente Prudente, interior do estado de São Paulo. Conhecido na época da ditadura como JC, em alusão a Jesus Cristo, pois tinha cabelos compridos e usava cavanhaque e crucifixo, ele serviu no DOI-Codi do II Exército, em São Paulo, sob o comando de Carlos Alberto Brilhante Ustra, provavelmente entre 1970 e 1972, aos 22 anos.

Segundo observações da advogada e integrante da CNV Rosa Cardoso, seu depoimento nesta segunda-feira 7 apresentou diversas incoerências, como a afirmação de que nunca viu tortura e assassinatos dentro da Oban (Operação Bandeirante), assim como o relato de que a tortura ocorria nos locais de encontro de militantes, mas jamais no DOI-Codi de São Paulo, ondem segundo ele, os militantes falavam sobre as ações de forma espontânea.

O ex-agente afirmou que o major Carlos Alberto Brilhante Ustra era uma pessoa religiosa e branda, e que os gritos que se ouvia no DOI-Codi de São Paulo era um áudio fictício, uma espécie de coro criado pelos agentes para induzir quem estava sendo interrogado a falar.

Gravina disse ainda que não sabe por que é associado às mortes e torturas das quais é acusado. Além disso, afirmou aos membros da CNV que não gostaria que seus filhos e netos tivessem uma imagem falsa sobre ele, de “torturador sádico”, à qual os ex-presos políticos tentam associá-lo.

De acordo com Rosa, Gravina “acha inconfessável o que fez no passado” e teme que seus parentes sintam-se envergonhados com o que fez.

“Ele usou muito a palavra “deus”, crença no “espírito santo”. Negou ter torturado e procurou se esquivar o tempo todo. Resolvemos encerrar o depoimento porque ele estava absolutamente perdido”, concluiu o advogado José Carlos Dias.

O suposto envolvimento em casos de tortura, sequestro, morte e desaparecimento levou o Ministério Público Federal a ajuizar contra Gravina uma ação civil pública na Justiça em agosto de 2010.

 

Leia AQUI a matéria de CartaCapital sobre agentes torturadores impunes.

Confira as duas partes do depoimento disponibilizados pela CNV mais tarde: