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África ou Brasil?

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 07/06/2010 17h22, última modificação 20/09/2010 17h24
Só beber água mineral, não colocar gelo nas bebidas, vacinar-se antes da viagem, só comer carne em lugares confiáveis, ter cuidado com saídas noturnas não ir a lugares sem referência. Uma série de advertências que a todo momento são divulgadas para quem vai viajar à Africa do Sul para a Copa soam as que os turistas estrangeiros costumam ouvir quando anunciam que vêm ao Brasil.

Só beber água mineral, não colocar gelo nas bebidas, vacinar-se antes da viagem, só comer carne em lugares confiáveis, ter cuidado com saídas noturnas não ir a lugares sem referência. Uma série de advertências que a todo momento são divulgadas para quem vai viajar à Africa do Sul para a Copa soam as que os turistas estrangeiros costumam ouvir quando anunciam que vêm ao Brasil. Ou como as que damos aos amigos visitantes de primeira viagem.

Os problemas decorrentes de obras acabadas às pressas, engarrafamentos infernais, falta de infra-estrutura, favelas de um lado e bairros sofisticados de outro, visível desigualdade social. Muita coisa, a despeito de nossa descendência, faz o país de Mandela lembrar o de Cabral, o Pedro Álvares. Nosso torcida é de que em 2014 a paisagem, tanto aqui como lá, seja um pouco mais diferente.

- Esse negócio de bola Jabulani (que em zulu, quer dizer “Celebração”) é frescura das boas, aliada a uma merceologia babaca. Queriamos ver, isso sim, se esse gênios de hoje chutariam uma folha seca com uma bola de couro, muitíssimo mais pesada, a Superball G18 de antigamente. Como fazia Didi, o qual, aliás, inventou-a, num treino do Fluminense, quando estava com o pé direito contundido. E, depois, classificou o Brasil para a Copa de 58, com sua folha seca, contra o Peru, que perdeu de 1 a 0.
- A Bruxa não entende mesmo de futebol. Tanto volante dando sopa em Joanesburgo e ela vai machucar o Drogba, o Rio (Copa pra ele só em 2014), o Pirlo, o Robben (cotadíssimo para ser o Melhor do Mundo da Fifa em 2010)... Sem esquecer o Beckham. Será que teremos uma Copa sem craques?

- A nossa corneta de plástico, vendida pelos camelôs e no comércio popular, é menos barulhenta que a corneta aporrinhômetro dos sul-africanos?
Pleno emprego Na rua tudo acontece. Uma jovem “arrumadinha” se aproxima e aproveita o sinal vermelho para pedestres.

- A senhora gosta de massagem estética?

Sem tempo para responder, com a cabeça longe e os ouvidos brigando com o rugir dos ônibus cariocas, ouvi a moça dizer que estava divulgando um “novo” trabalho. Por entender a dificuldade que é ganhar a vida distribuindo filipetas, embora estas sejam a maioria do lixo jogado nas calçadas, por culpa de quem as recebe, dei-lhe atenção.

Normalmente, o civilizado é aceitar a papelada pelos caminhos, depositando-a nas lixeiras, quando não se volta para casa com a bolsa cheia de propagandas quase sempre inúteis; algumas são bizarras, outras tolas e outras verdadeiras peças de humor barato.

Enquanto o trânsito urgia, a moça entregou um folheto promocional.
- O serviço é diferenciado. É o meu primo quem faz a terapia. Se a senhora quiser conhecer mais sobre o trabalho...

A divulgadora equilibrava uma bolsa cheia, guarda-chuva e casacomas conseguiu mostrar uma carteirinha com fotos 5x7 repetidas, dessas tiradas em máquinas automáticas.
- Este é o meu primo, o que faz a massagem.

Sinal verde. Sem entender o que o rosto daquele rapaz numa foto pronta para ser colada em qualquer documento tinha a ver com o negócio, argumentei pressa. A jovem ficou a contrargumentar que tinha mais detalhes sobre o trabalho. Eu balbuciei que ia ler o folheto com calma e atravessei a Nossa Senhora de Copacabana.

Pensando nas maluquices das ruas, já dentro do elevador, abri o folheto e, culpando meu raciocínio lerdo, descobri que o rapaz da foto era quem oferecia os serviços, digamos, massoterápicos. A tabela de preços: massagem relaxante de três minutos, cinco reais; 15 minutos, dez reais; 30 minutos, ou mais, 40 reais ou a combinar.

O moço, o da foto, também poderia ser “namorado” por uma hora ou mais, a 50 reais ou a combinar. Num primor de criatividade o reclame terminava assim: “Satisfação, cem por cento, arrependimento, nenhum”. Alguns erros primários de ortografia e de revisão não chegavam a comprometer o conteúdo.

Ficamos sem saber se há dias em que exalamos carência afetiva, se temos cara permanente de pedintes de xodó ou, quem sabe, um certo ar de quem se encanta por esses manjados serviços e curte uma fantasia que pode nascer ali no meio-fio. Ou se somos, simplesmente, vítimas de um sinal fechado para uma venda direta mal ajambrada e frustrante para quem a faz.

Seria a moça realmente prima do moço? Ou mulher, namorada, sócia seja lá de que natureza? A curiosidade para além do panfleto foi parar na cesta de lixo. (AMB)