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Afogados no descaso

por Gerson Freitas Jr — publicado 20/01/2011 10h00, última modificação 21/01/2011 15h43
A história se repete. O governo culpa os céus, mas o povo padece é da negligência das autoridades
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Dilma Rousseff e Sérgio Cabral anunciam medidas de emergência. Nada mais. Em São Paulo, convocam-se remadores

A história se repete. O governo culpa os céus, mas o povo padece é da negligência das autoridades

O Brasil não é Bangladesh e não tem nenhuma desculpa para permitir, no século XXI, que pessoas morram em deslizamentos de terra causados por chuvas.” A crítica da consultora externa da ONU e diretora do Centro para a Pesquisa da Epidemiologia de Desastres, Debarati Guha-Sapir, resume com precisão o absurdo da tragédia. Até a tarde da quinta-feira 20, a Defesa Civil contabilizava mais de 750 mortos, 200 desaparecidos, 7.780 desalojados e 6.360 desabrigados nos municípios de Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo e Areal. Os prejuízos materiais ainda não foram completamente calculados, mas o Banco Mundial já anunciou a liberação de 485 milhões de dólares (cerca de 820 milhões de reais) para a reconstrução das cidades devastadas pelas chuvas que atingiram a região desde a madrugada da terça-feira 11.

As autoridades, como de praxe, atribuem a responsabilidade ao clima hostil. Para especialistas, não poderia existir justificativa mais esfarrapada. Um país acostumado a enfrentar temporadas de chuvas intensas no verão e que está entre as dez maiores economias do mundo deveria, há muito tempo, estar  preparado para enfrentar situações como essa. Sem rodeios, o diário francês Le Monde condenou a “negligência criminosa” das autoridades brasileiras. “A prevenção não faz parte dos discursos dos políticos, totalmente focados em ações imediatas, porque isso daria pouco retorno a eles nas eleições”, afirma o contundente artigo, publicado na quinta 20.

Além do clima, não faltou quem culpasse as próprias vítimas por morar em situação precária – outro argumento de um cinismo atroz. “Ninguém mora em área de risco porque quer ou porque é burro, e sim porque não tem nenhuma opção de moradia para a renda que possuem”, irrita-se a urbanista Raquel Rolnik.

*Confira este conteúdo na íntegra da edição 630, já nas bancas.

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