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Acomodação, não

por Socrates — publicado 30/11/2010 16h00, última modificação 30/11/2010 17h22
Não entendo como alguém pode se enfastiar de jogar na seleção de seu país. Ter ao lado a flor do futebol mundial e vestir as cores da nação dão um prazer incomparável. Por Sócrates

Não entendo como alguém pode se enfastiar de jogar na seleção de seu país. Ter ao lado a flor do futebol mundial e vestir as cores da nação dão um prazer incomparável

Os espanhóis devem estar se perguntando: o que ocorreu com a sua seleção, que levou uma lavada de Portugal? Oh gajos, vocês foram atropelados. Desde Eusébio – o maior jogador de toda a história dos nossos descobridores e também ele oriundo de uma colônia – os espanhóis não sofriam uma derrota tão contundente para eles. Era garoto em 1966. Ouvi, através da voz incomparável dos narradores esportivos, todos os jogos daquela Copa e, em particular, nossa eliminação pelos portugueses. Não tínhamos ainda a televisão tão popularizada como hoje. Nem me lembro se houve transmissão. Se aconteceu, foi só para alguns poucos privilegiados.

Meus amigos e eu não fazíamos parte dessa casta. Nos reuníamos numa praça para acompanhar as partidas em torno de um imenso rádio de ondas curtas. Passamos cada sufoco! Já na preparação tivemos problemas. Foram convocados 44 atletas. Imaginem a competição entre eles nos três meses em que passaram juntos treinando, uma vez que só a metade viajaria para a Inglaterra. Não podia dar mesmo certo. Além disso, como é próprio de nossa cultura, estávamos um pouco, digamos, saciados demais com os dois títulos conquistados nos mundiais anteriores. Pairava certo ar de superioridade. Não nos preocupamos com os detalhes mais simples e fomos à bancarrota. Infelizmente, em situações como essa, deixamos o inconsciente atrapalhar.

Será que o mesmo ocorre com os atuais campeões mundiais? Nesse jogo de semanas atrás tinha nego que estava com uma preguiça de assustar. Uma vontade...! Aliás, não consigo entender como alguém pode se enfastiar de jogar na seleção de seu país. Ter ao lado a fina flor do futebol mundial, gente da mesma cultura e qualidade, e vestir as cores da nação falando a mesma língua são coisas de um prazer incomparável. Ao menos era assim que sentíamos na nossa época.

Hoje, para alguns como no caso do Brasil, parece obrigação vestir a camisa amarela. Eita povo gozado. Os jogadores parecem robôs. Não escrevo isso só por causa de um jogo. Há muito sinto essa distância. Como, por exemplo, na partida em Abu Dabi, contra a Argentina. Ali ao menos poderíamos supor que uma viagem como aquela e um jogo contra um adversário com o mesmo nível de adrenalina, ainda que rival histórico, fosse um atenuante para o comportamento de alguns.

Já para os espanhóis não há desculpa plausível ou minimamente aceitável. Jogo no vizinho de casa, contra uma seleção respeitada e com atletas que atuam nos principais clubes da Europa. Alguns, inclusive, são colegas de equipe e dividem o mesmo garfo para se alimentar. Por que então os do lado português estavam esfomeados e os do outro lado com sono, prontos para fazer uma sesta? Só pode ser fruto do desinteresse. Ou cansaço mental, como poderia alegar algum dos envolvidos. De qualquer forma, nos chamou muito a atenção esse tipo de comportamento. É um fato e isso talvez deva precipitar uma mudança nos planos de ação do seu treinador.

Ele que até aqui teve, imagino, de suportar alguns dos que foram campeões na última Copa deve começar a pintar o time com uma cara um pouco diferente. E é natural que, mais cedo ou mais tarde, isso aconteça. Jovens e mais animados jogadores devem dar sangue novo à sua seleção.

Mais ou menos como a esperada volta de Paulo Henrique “Ganso” à equipe brasileira. Uma criatura com espírito de liderança como há muito não víamos, com uma técnica só dele e com a rara capacidade de formar times de qualidade, seja em um clube ou na Seleção. Ganso, que se machucou com gravidade e está em recuperação, faz muita falta ao nosso futebol. É um talento exemplar que deve produzir uma revolução nas futuras gerações. Se, antes, tínhamos referências limitadas de técnica individual, hoje temos um gênio como Ganso. Xavi, Iniesta e Villa são atletas de imensa qualidade e até por isso levaram a equipe espanhola ao título mundial na África do Sul. Porém, não podem se acomodar quando jogarem defendendo sua seleção após a conquista – como alguns jogadores brasileiros depois de 2002, que por essa razão deixaram de brigar pelo Mundial da Alemanha. Ganso me parece, a distância, um jogador que jamais se acomodará. Por culpa do prazer que sente ao realizar seu ofício, sua arte. A volta dele representará o retorno da alegria, da criatividade e da liberdade aos campos brasileiros. Beleza que nenhum amante de futebol, espanhol, português ou brasileiro, pode prescindir.

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