Você está aqui: Página Inicial / Sociedade / Abusos e consequências

Sociedade

Convulsão

Abusos e consequências

por Socrates — publicado 25/02/2008 16h27, última modificação 20/09/2010 16h45
Escalado mesmo após uma crise convulsiva, Ronaldo, o Fenômeno, ao jogar colocou em risco seu organismo

Escalado mesmo após uma crise convulsiva, Ronaldo, o Fenômeno,  ao jogar colocou em risco seu organismo
Quem está exposto para ser escalado em uma final de Copa poucas horas depois de uma crise convulsiva como Ronaldo, o Fenômeno, também se encontra disponível para uma série de condutas terapêuticas discutíveis do ponto de vista da saúde de um indivíduo, ainda que gere resultados esportivos espetaculares. Já maduro, depois de ter passado por inúmeras situações-limite, ainda assim ele não teve condições de se negar a entrar em campo na final da Copa da França. Ao contrário, fez questão de jogar, colocando em risco seu organismo. Imagino que, nos primórdios de sua carreira, muito mais impotente ele era para interferir nas decisões de seus treinadores ou médicos quanto ao tipo de medicação prescrita ou carga de treinamento.

O notável aumento de massa muscular em seus primeiros tempos no PSV, da Holanda, leva muitos cientistas (ou até leigos) a imaginar que se tenham utilizado anabolizantes no processo de fortalecimento muscular a que certamente foi submetido. Como a estrutura muscular reage de forma muito mais rápida que tendões e ligamentos, é natural que pensemos que o surgimento de seguidos processos inflamatórios nos seus tendões patelares tenha sido em conseqüência desse desequilíbrio de resposta ao esforço físico acentuado pelo uso desses medicamentos.

O tratamento dessas lesões nos tendões, geralmente à base de antiinflamatórios orais ou injetáveis, muitos no próprio local atingido – as chamadas infiltrações –, no caso de uma figura de ponta no esporte mundial como é o caso, nem sempre tem respeitado o tempo necessário para uma plena recuperação dessas estruturas, o que produz recidivas freqüentes que as fragilizam ainda mais, podendo levar a novas e mais graves lesões. Lembro-me que, antes desse acidente, muitas vezes o vimos fazendo tratamento intensivo para permitir que entrasse em campo nos jogos seguintes, mesmo sem estar plenamente recuperado. Como na mesma Copa da França, quando invariavelmente portava duas bolsas de gelo em seus joelhos a cada final de treinamento ou de jogos. Ainda que mancasse claramente em muitas ocasiões.

Talvez tenham minimizado essas conseqüências, em virtude da “grandiosidade” e da importância econômica de um atleta como ele, como se a saúde de alguém fosse menos valiosa que o seu sucesso profissional. Infelizmente, aconteceu o pior e o atleta apresentou há alguns anos ruptura de um dos tendões patelares, sofrendo mais de dois anos para recuperar a função e poder voltar a exercer a sua profissão com regularidade. Desconfiou-se de sua capacidade de voltar a jogar futebol, mas, com muita força de vontade e boa retaguarda médica, pôde retornar aos gramados. Em 2002, Felipão apostou alto ao convocá-lo para um novo Mundial e ele não decepcionou. Foi um dos artífices da quinta conquista brasileira, com direito à artilharia da competição.

No entanto, todos que acompanharam a sua saga – e tinham um conhecimento mínimo que fosse do que ainda ocorria com seus tendões – temiam por uma ocorrência semelhante no futuro. Principalmente, porque nada se modificou quanto ao tratamento dispensado, à exposição do jogador e à pressa em vê-lo sempre em campo. E, ainda por cima, ele passou a ter sérios problemas para manter o seu peso ideal, o que só colaborou para uma maior sobrecarga em seus joelhos. E, há poucos dias, uma vez mais ele se viu em situação dramática com uma nova ruptura patelar. Agora, do outro joelho, do qual, imagino, tenha sempre sofrido em relativo silêncio, enquanto o seu correlato passava por cirurgias e tratamentos.

O que muito me estranha é que não tenham, mais uma vez, detectado a possibilidade de mais este acidente. Para que ocorra uma ruptura do tendão após poucos minutos de jogo, fatalmente o grau da lesão e o estado do tendão eram, no mínimo, precários e deveriam ser facilmente detectados com um simples ultra-som. Como já havia história pregressa de lesão na região, seria razoável supor que um controle mais apurado fizesse parte da rotina de exames regulares do atleta. Bem, já não adianta chorar pelo leite derramado e Ronaldo acabou na mesa de cirurgia novamente.

Resta alertar para os perigos da busca desenfreada por resultados, relaxando os cuidados com a saúde dos atletas, pois estes um dia sofrerão as conseqüências desse abuso. Não é por outro motivo que centenas de atletas antigos possuem outras patologias, como a hepatite C, causada pelo uso de estimulantes através de seringas contaminadas, quando ainda não se usavam as descartáveis.