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Brasiliana

A volta por cima de Thomaz Bellucci

por Gianni Carta publicado 18/12/2011 11h13, última modificação 06/06/2015 18h20
Com novo técnico, o melhor tenista brasileiro do momento diz que ficará entre os 20 melhores do mundo
Bellucci_bending knees

Bellucci se aplica nos treinos com o técnico argentino Daniel Orsanic. Foto: Gianni Carta

Hotel do haras Larissa, cercanias de Campinas, 11 de dezembro. O ritmo do bate-bola entre Thomaz Bellucci, o tenista número 1 do Brasil, e Daniel Orsanic, seu novo técnico argentino, é extenuante. “Seis minutos”, diz Hamilton Luiz de Souza, o também recém-contratado treinador físico, quando um dos tenistas eventualmente – ou deveríamos dizer finalmente – comete um erro. Outra intensa troca de tiros. “Cinco minutos”, diz, olho no cronômetro, Souza. Joelhos de simples mortais não aguentariam as angulações carregadas de efeito que levam os tenistas de um lado para o outro, para frente e para trás. Tudo em altíssima velocidade.

O sol é impiedoso. Donde as pausas debaixo de para-sóis, com direito a quantidades industriais de água. Orsanic, ex-técnico do uruguaio Pablo Cuevas, já ocupou a 24ª posição em duplas da Associação dos Tenistas Profissionais (ATP), o que explica seus voleios consistentes e certeiros. Ele comenta: “Essa parte do treino tem comoobjetivo dar fôlego, consistência, e, por tabela, o Bellucci fica mais confiante em partidas longas”.

Esse é o terceiro dia  dos treinamentos pré-temporada. A equipe está em concentração no Hotel do Haras Larissa. É também o terceiro diaem que Bellucci, Orsanic e Souza trabalham juntos. Atualmente 37º da ATP, Bellucci, ex-21º no ranking mundial, em julho do ano passado, pode chegar à 15ª posição neste ano. Palavras de Roberto Marcher, supervisor-geral da parte técnica da Koch Tavares. Ele acaba de chegar, está sentado numa cadeira dentro da quadra. A que se deve tanto otimismo? “Tecnicamente ele está excelente, está forte, confiante, que mais você quer?”, responde o maior guru do tênis brasileiro.

E, claro, Marcher acredita que Orsanic poderá colocar Bellucci entre os 20 do mundo. O motivo? “O Orsanic conhece o jogo a fundo, é inteligente, educado, olhacomoele explica bem o que o Bellucci tem de fazer no treino.” E, embora os voleios de Bellucci sejam eficazes, Orsanic pode melhorá-los. “Tecnicamente, os voleios de Bellucci são perfeitos. Mas ele tem de chegar mais perto da rede e precisa ter maior convicção na hora de direcionar a bola”, pondera o técnico. Outro detalhe que só pode favorecer Bellucci: a escolaargentina, de Orsanic, prioriza o preparo físico. E a sintonia entre o técnico e Souza, o preparador físico, é fina. “Fundamental é que o Bellucci chegue num quinto set disputado e tenha confiança no seu físico e, assim, possa manter seu alto nível técnico”, observa Marcher, ex-campeão brasileiro de duplas com Thomaz Koch. Ainda Marcher: “Mas falo o mínimo possível sobre a parte técnica. Essa área é do Orsanic”.

Os treinos de  pré-temporada estão longe de ser um passeio no parque. Nos três primeiros dias de treino, Bellucci faz uma sessão diária de aeróbica e/ou de musculação, e uma de quadra. No meio-tempo, ele e Orsanic ministraram uma clínica de tênis para os hóspedes do Hotel do Haras Larissa. (“Fiquei emocionado”, disse André após a aula. Ana Paula lembrou: “Dei uma passada nele, você tirou uma foto?”)

Logo Bellucci estará fazendo duas- sessões diárias de preparação física e duas de quadra. Ou seja, seis, sete horas diárias. “Fala para o teu filho jogar futebol, não tênis”, me aconselha Bellucci, sorriso nos lábios.

As brincadeiras continuam. Agora Bellucci, ao tirar uma bola do solo com a raquete, finge que vai atirá-la contra Marcher. “Paracom isso, já não estou muito bem”, rebate o guru iconoclasta, visivelmente satisfeito com a impertinência do tenista.

Após uma semana no Hotel do Haras Larissa, onde Bellucci pôde treinar em quadras de saibro e rápidas (duas rápidas cobertas, duas rápidas descobertas, duas de saibro e uma de grama) num dos mais avançados centros de tênis do Brasil, inaugurado em junho sob a consultoria- da Koch- Tavares, o tenista zarpará para Buenos Aires. Lá completará sua fase de pré-temporada. Em seguida, jogará um torneio em Auckland, na Nova Zelândia, e o Aberto da Austrália, o primeiro dos quatro Grand Slams (os outros três são Roland Garros, Wimbledon e Aberto dos EUA).

“Esse hotel é o paraíso e estamos muito gratos em poder treinar aqui”, diz Orsanic. Claro, os tenistas não usam o centro hípico e também não jogam golfe. Falta tempo e o cansaço é grande. Melhor cair na enorme piscina, com vista para um lago. Mas no domingo, dia de folga para todos, rolaria uma pelada.

Indagado qual seu planopara Bellucci-, o técnico, semifinalista de duplas de Roland Garros com o brasileiro Jaime Oncins em 2000, rebate: “Não vou mudar nada no jogo dele porque ele é tecnicamente completo”. Orsanic diz que vai treinar os pontos fortes de Bellucci. O tenista concorda: “Queremos trabalhar meu ganha-pão, ou seja, o saque, mas também a direita”. E a esquerda não é boa? “É boa. Erro menos com a esquerda porque ataco mais com a direita”, avalia Bellucci.

Neste ano, o brasileiro havia ganhado o primeiro set de Novak Djokovic em Madri e estava sacando com vantagem de3 a2 no segundo set. Perdeu a partida. À época, numerosos observadores falaram que em momentos difíceis Bellucci perde a confiança. Hamilton Luiz de Souza discorda: “O problema dele não é psicológico. Seu jogo é agressivo, e a meu ver quem solta o braço nas horas difíceis não tem medo. O meu objetivo é aproveitar sua excelente pré-disposição genética para o tênis e colocar seu físico no ápice”. “É assim, continua Souza, que parece repetir as palavras de Marcher, “que ele vai ganhar confiança para jogar no mesmo nível uma partida de cinco sets.”

Sentado no saguão do hotel, um descontraído Bellucci concorda que pode melhorar fisicamente. E emenda: “Estou contente com o Orsanic. Ele prioriza a qualidade dos treinos, não a quantidade. O Larri Passos me fazia passar horas e horas nas quadras. Os treinos viravam rotina e eu ficava desgastado”.

Com Passos, Bellucci caiu 16 posições na ATP. Mas agora está “otimista”. Ele também acredita que em 2012 ficará entre os 20 melhores do mundo.

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