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A Revolta da Lâmpada

por Matheus Pichonelli publicado 07/11/2014 17h42
Quatro anos após ataque contra jovens na Avenida Paulista, militantes LGBT criam movimento para visibilizar o desrespeito sobre os corpos considerados "inadequados"
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Nova Parada

Jovem se manifesta durante a Nova Parada Gay do Rio: inspiração para o movimento "Revolta da Lâmpada"

Na manhã de 14 de novembro de 2010, três jovens foram surpreendidos na avenida Paulista quando voltavam de uma festa. No sentido oposto, um grupo de cinco rapazes se aproximou com lâmpadas fluorescentes na mão. “Na hora em que eu olho, ele já acerta com a lâmpada no meu rosto. Coloquei a mão no rosto, já estava saindo sangue. Ele vem com a segunda, e eu me defendo. Os outros começaram a rir. Eles estavam me batendo com uma brutalidade e falando coisas que nem um psicopata fala, com tanta gana de bater em alguém que eu falei: ‘eu vou morrer aqui’”, disse à época o estudante de jornalismo Luís Alberto Betonio, de 23 anos, uma das vítimas da agressão.

Desde então, a lâmpada virou um símbolo da opressão. “Não só aos grupos LGBTs, mas a todos os corpos percebidos como inadequados pelo modelo hegemônico”, diz o manifesto da Revolta da Lâmpada, movimento recém-criado para visibilizar as agressões diárias ainda comuns no País. (Leia mais AQUI) “A Revolta da Lâmpada nasce derivada da nova parada LGBT organizada no Rio de Janeiro em 12 de outubro, com o mesmo modelo: descentralizada, desinstitucionalizada, coletiva, criativa, independente e com equilíbrio de protagonismo entre corpos.”

Na pauta está a necessidade de igualar os crimes de discriminação por identidade de gênero e orientação sexual aos mesmos termos da Lei do Racismo, a sensibilização continuada das polícias para tratar dignamente as vítimas de discriminação, a aprovação imediata da Lei de Identidade de Gênero Nacional (PL5002/13), o resgate do programa Escola Sem Homofobia, entre outros.

“Vivemos um pânico moral, que sacrifica os corpos dissidentes e os não dissidentes, pois a lógica aplicada é coercitiva aos corpos, não reconhece nossa autonomia aos mesmos e pune esses corpos com violência, e muitas vezes de forma letal. Mulheres são espancadas ou são vitimas de abortos clandestinos; LGBT são violentados dia-a-dia por manifestarem afeto em público e são mortos por crimes de ódio. No Brasil, em 2013, um LGBT foi morto a cada 28 horas.”

O primeiro ato do movimento será uma marcha programada para acontecer na avenida Paulista no dia 16 de novembro – menos de um mês, portanto, após o fim da eleição, quando a pauta do movimento LGBT ficou em segundo plano nos debates. O momento, segundo os ativistas, é estratégico. “É necessária a participação popular nas ruas e que essas vozes sejam escutadas nesse momento de constituição de alianças, governabilidade, etc. O assunto dos direitos das minorias e especialmente dos direitos LGBT foi palco central no primeiro turno e arrefeceu durante o segundo turno. É a hora de trazer esse debate de volta à mídia e às redes sociais, porque não aceitaremos mais uma vez ser moeda de troca de armadilhas eleitoreira”, dizem os ativistas.

“Entendemos que o contexto político é crítico, dado o crescimento de bancadas conservadoras no Legislativo e do conservadorismo que isso representa. Ao mesmo tempo, o residual das eleições deixou uma ânsia crescente na população em participar mais ativamente da política”, afirmam. “Estamos experimentando uma nova estratégia de manifestação, baseada na coexistência entre pessoas de organizações de militância reconhecidas, novos coletivos de militância e indivíduos que nunca haviam se envolvido com grupos organizados, mas que militam dia a dia com seus corpos e suas expressões de gênero; cujas vivências são atos políticos por si só. Dado o contexto de efervescência política, foi necessária só uma faísca para unir todos esses universos em prol de um movimento unificado, organizado e plural.”

O grupo lembra que a presidenta Dilma Rousseff foi eleita com apoio maciço do movimento LGBT e suas lideranças, caso do deputado reeleito Jean Wyllys (PSOL-RJ). “Um sinal positivo foi que em uma de suas primeiras entrevistas, ao SBT, ela afirmou seu compromisso com a criminalização da homofobia, discurso que até então não havia saído da sua boca publicamente. Seria muito ruim para ela e para a democracia do país não cumprir os 13 pontos de campanha para com a população LGBT.”

O palco das reivindicações, por ora, será a rua. “Queremos manifestar nossa agenda na rua, visibilizar o que nos incomoda a partir de uma pauta de reivindicações amplamente discutida com vários coletivos e conectada a várias outras manifestações que acontecem aqui no Brasil e fora também. Os grupos já constituídos que defendem ou se alinham à nossa pauta são convidados para participarem conosco. O diálogo com parlamentares e com o poder executivo nas esferas municipal, estadual e federal é um segundo momento.”

Para os organizadores, é urgente a organização e unificação estratégica do movimento LGBT, feminista, negro e de outras minoriais. “Acreditamos que existe uma semente ultra-conservadora em uma parcela da sociedade brasileira, que pode se fortalecer muito em 2018 adubada pelo fundamentalismo religioso. O interesse maior do brasileiro por política é indiscutivelmente bom, porém desafiador: bom porque aviva o debate político e aumenta o controle social para com seus parlamentares e governantes. Desafiador porque ainda faltam ferramentas insumos e informações para o debate, e isso leva a armadilhas e confusões perigosas, como, por exemplo, uma parcela da população pedindo por intervenção militar e a volta da ditadura”, dizem.

“A pressão popular e o diálogo, nesse contexto, se tornam fundamentais para que qualquer pauta mais progressista avance. Temos que ir cada vez mais às ruas de forma organizada e responsável reivindicar nossos direitos, tentando sempre dialogar com mais gente.”

Nesse sentido, preveem, a internet servirá como uma espécie de trincheira para o debate. “A campanha contrária ao projeto Escola sem Homofobia foi rebatida pela Internet, mas também sofreu muito com a ação de boa parte dos grandes veículos de mídia impressa e televisiva, que passaram informações equivocadas e mentirosas sobre o programa. Seguiram utilizando a expressão pejorativa ‘Kit gay’, forma alusiva de como os fundamentalistas o batizaram. A Internet é uma ferramenta fundamental para quebra do modelo hegemônico de como as noticias são trazidas pela grande mídia. O acesso à informação como ela é - sem as distorções muitas vezes impostas pelos conglomerados midiáticos que defendem interesses - , é algo possível, pois as pessoas fotografam, filmam, escrevem a partir daquilo que viram ou viveram. Isso o corre principalmente entre os mais jovens com fontes de informação mais complexas, mas, não sejamos ingênuos: (1) ela também é usada como ferramenta para disseminar material tendencioso na mesma proporção e (2) ainda não consegue competir com a influência que alguns veículos exercem na opinião pública.”

Os ativistas relembram os casos de reportagens que afirmavam ter material pornográfico no programa Escola sem Homofobia, “o que é uma grande mentira”. “É sempre bom lembrar que o programa foi desenvolvido pela ABGLT (Associação Brasileira de Lesbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) em parceria com universidades e recebeu aprovação da o selo da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura).”

O coletivo diz reconhecer a importância da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo para dar visibilidade à população LGBT e para trazer autoestima a vários tipos de LGBT, principalmente àqueles de outros pontos do país que vêm a São Paulo poder finalmente expressar livremente sua orientação sexual e sua identidade de gênero à luz do dia. “Ela cumpre essa função muito bem até hoje, e nesse ponto temos total concordância - o objetivo da Revolta da Lâmpada também é ser um espaço de livre expressão de gênero, de performatividade e de cultura”. Outro ponto em comum com a Revolta da Lâmpada é que ambas as manifestações acreditam que fervo e política podem e devem caminhar juntos. No entanto, a Revolta se diferencia ao pautar de forma mais clara e pragmática as reivindicações da população LGBT durante a manifestação. “Temos uma necessidade de ‘equalizar’ melhor o fervo e a luta. Nesse evento, o fervo está totalmente em função da política: as músicas e manifestações culturais do evento não estão desvinculadas em nenhum momento das reivindicações que estamos fazendo.”

Outro ponto importante, ressaltam, é discussão mais ampliada para nossos corpos e para a autonomia em relação a eles. “O discurso político não sai apenas de nossas bocas, mas também da performatividade e das mais variadas expressões de gênero.”