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Crônica

A redescoberta do Nordeste…

por Tão Gomes — publicado 05/09/2011 10h07, última modificação 05/09/2011 11h39
Nas minhas lembranças, Aracaju era a cidade onde se comia deliciosos caranguejos, ao som de martelinhos manipulados pelo próprio consumidor. Isso foi a Aracaju de ontem, ou de anteontem

Estou em Aracajú. Pasmo… Deslumbrado. Há décadas não pousava meu corpo, já meio baleado, num estado nordestino. Quem vem ao Nordeste a passeio em geral desce em Natal ou Fortaleza. Belas praias, areias brancas, tudo o que um turista eventual deseja. Só que não estou em Aracaju a passeio. Vim a serviço, conversar com um dos “experts” em petróleo e em política. O governador de Sergipe, Marcelo Deda.

Junto com Eduardo Campos, que governa Pernambuco, Deda recebeu a missão de achar um caminho para uma nova lei de distribuição dos royalties do pré-sal. Missão dada por Dilma Rousseff. O que significa: cumpram, senão…

Se não, uma votação no Senado e outra na Câmara, em sessão conjunta, poderão derrubar um veto oportuníssimo do ex-presidente Lula, colocado no projeto, já chamado "lei Pedro Simon", estabelecendo que o dinheiro do petróleo brasileiro seja distribuído, proporcionalmente, a todos os Estados e municípios do país.

Em tese, nada mais justo. Na prática, uma tragédia que pode liquidar com as pretensões brasileiras em relação a essa dádiva que o Criador deixou em nossas mãos, a riqueza ainda nem sequer calculada (e talvez incalculável) do petróleo nacional.

Mas voltemos a Aracaju, enquanto aguardo a conversa com o governador Marcelo Deda, agendada para esta segunda-feira.

Nas minhas lembranças mais remotas, Aracaju era a cidade onde se comia deliciosos caranguejos, ao som de martelinhos (toc…toc) manipulados pelo próprio consumidor, abancado em tábuas de madeira rústica, debaixo de palhoças.

Isso foi a Aracaju de ontem, ou de anteontem. Hoje a capital de Sergipe tem uma orla (essas instalações a beira da praia) que eu ouso definir como a mais bem planejada do planeta. E olhem que não estou sozinho nessa avaliação.

Ontem, conversando com o ex-prefeito e ex-governador João Alves, soube que o projeto de Aracaju tem uma coleção de prêmios internacionais. E são quilômetros e quilômetros de quiosques, todos padronizados, intercalados por restaurantes com comidas de todos os tipos, entre um e outro, uma vegetação planejada, mas não um jardim padrão Burle Marx, que ignora as flores e privilegia os tons verde-escuro. Mas uma coisa viva. Colorida.

Indago o ex-governador sobre quem fez o projeto. "Um pessoal daqui", responde ele e passa a contar com detalhes, como conseguiu uma pista de skate padrão primeiro mundo, para uma área reservada ao lazer. Descobriu, isso há dez anos, um grupo de rapazes e eles, graças ao que liam nas revistas especializadas, o assessoraram na construção. Dentro da mais moderna tecnologia da construção de pistas de skate.

Mas deixemos também o ex-governador e avancemos pela orla, agora já fora da cidade propriamente dita…Ali, condomínios de casas de bom padrão se sucedem, interrompendo a sequência de coqueiros, que, se não forem nativos, devem ter sido instalados ali antes de seu Cabral descobrir o Brasil.

Naquele trecho rústico da orla, a elite de Aracaju mantém suas casas de praia…A dez, doze minutos do centro da cidade por onde circula hoje a maior frota de automóveis do Nordeste: 214 mil automóveis. O que equivale a um carro para 2,7 aracajuanos.

Ah…sim. De tempos em tempos, uma "barraca".

Barraca é modo de dizer. São instalações rústicas onde se come do melhor peixe à melhor ostra. Muitas delas, com cobertura de palha protegendo mesinhas, cadeiras, e piscinas com hidromassagem.

Isso mesmo, piscinas com hidro, digamos, individualizadas. De modo que o mar, ao fundo, com seu debruar incansável de ondas, é quase um complemento na paisagem.

As praias de Aracaju, por não possuírem areia soltinha como as de Natal, por exemplo, são as menos procuradas pelos turistas gringos e nacionais. Apenas 700 mil, em média, por ano. Preconceito bobo, eu diria.

Mas como já disse no inicio, não estava lá a passeio. Meu objetivo eu observava a distancia, na linha do horizonte: as plataformas de petróleo. E a riqueza subjacente nesse novo Nordeste, que me emocionou pela sua contemporaneidade.

Uma riqueza que, se for bem distribuída agora, mudará o destino dos brasileirinhos que estão nascendo hoje...