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Sociedade

Ecos da ditadura

A perseguição a jornalistas

por Milton Coelho da Graça — publicado 02/04/2014 02h43, última modificação 02/04/2014 02h47
Como a ditadura tomou veículos e reprimiu profissionais que a contestavam. Por Milton Coelho da Graça

No dia 25 de março, viajei do Recife a Goiânia, com a missão de levar ao governador Mauro Borges sugestão de um grupo de técnicos da Sudene (eu era um deles, diretor da divisão de revistas): reivindicar junto ao presidente João Goulart a criação de uma organização semelhante à nossa, dedicada à região Centro-Oeste (Goiás e Mato Grosso, em uma época que não existia ainda Tocantins).

A boataria sobre um possível golpe militar já corria solta. Fui ao governador Miguel Arraes apenas para lhe informar sobre a razão da viagem e saber se ele gostaria de me usar em qualquer outra missão – no Rio, Brasília ou Goiânia.

Ele me pediu que entregasse uma carta ao ex-governador Leonel Brizola, que estava no Rio e pressionava o presidente Goulart para ser ministro da Fazenda. Abriu uma gaveta da escrivaninha e entregou-me um envelope fechado com a recomendação: “Não entregue a ele, ninguém mais.”

No dia seguinte à noite, eu estava no apartamento de Brizola, edifício Chopin na avenida Atlântica. Antes, tivera uma longa conversa com Plínio de Abreu Ramos, cientista político de quem me tornara amigo na União Nacional dos Estudantes (UNE). E, durante uma longa caminhada na calçada da praia de Copacabana, ele foi explicando sua teoria de que o golpe já era certo, mas o “dispositivo militar” montado pelo presidente Jango estava pronto para sufocar qualquer rebelião.

No apartamento de Brizola, enquanto eu o esperava, vários fuzileiros navais (alguns

fardados, outros não) passavam por mim na sala de estar. Mas havia um ar geral de que ninguém sabia exatamente o que fazer e comecei a desconfiar que o Plínio estava equivocado sobre os rumos da crise. Brizola apareceu, eu me apresentei e lhe entreguei o envelope. Ele me agradeceu e me retirei sem qualquer outro papo.

O Plínio ficara esperando na calçada e perguntou se eu poderia visitar José Aparecido, famosa figura do então Banco Nacional (da família Magalhães Pinto), que estava internado no Hospital Servidores do Estado e queria me pedir um favor. Concordei e, na manhã seguinte, José Aparecido, deitado no quarto do Servidores, me pediu para passar em Brasília e entregar um envelope a Valdir Pires, chefe da Casa Civil da Presidência.

Lá fui eu, confiando que Aparecido iria telefonar para Pires, pedindo um carro para me levar na viagem rodoviária de quatro horas até a capital goiana. Nada é tão fácil assim quando envolve o poder público. Passei duas horas no Planalto só explicando que a mensagem para Valdir Pires só poderia ser entregue a ele diretamente, a ninguém mais. E quando Pires apareceu, agradeceu rapidamente e desapareceu, sem resolver o problema de me despachar para Goiânia.

Antes de novas aventuras, achei melhor marcar uma audiência com Mauro Borges. Fui informado de que ele tinha viajado e só estaria de volta três dias depois. Decidi voltar diretamente de Brasília para Recife.  E, do aeroporto de Guararapes, fui direto a palácio dizer tudo o que ocorrera, incluindo minha opinião pessoal de que o “dispositivo militar” de Jango e Brizola me parecia uma ilusão e o golpe militar era uma questão de dias.

Na noite de 31 de março, passei pela redação do Jornal do Commercio, onde o diretor, Esmaragado Marroquim, me dera meses atrás a tarefa de escrever uma coluna política diária, mas sem assiná-la. Ordem do patrão, que, obviamente, ele e eu cumprimos. No dia 29, Esmaragdo me informou que recebera ordem de me demitir. Era um pré-aviso do golpe.

Decidi ir todos os dias ao Palácio das Princesas, após o expediente na Sudene.

No dia 31, a marcha do general Olímpio Mourão Filho, a partir de Juiz de Fora, foi o início efetivo da rebelião. Saí da Sudene diretamente para a Assessoria de Comunicação Ninguém. Liguei para a sala de Arraes e informei que estaria ocupando a assessoria até que o assessor aparecesse (o que nunca ocorreu).

Passei a acompanhar os noticiários radiofônicos de Brasília e Rio. Especialmente a carioca Mayrink Veiga, emissora sob influência de Brizola. Mas, por volta das 10 da manhã do dia 1º de abril, alguém atendeu o telefone e informou secamente: sou o capitão Fulano e esta emissora está sob controle da Marinha."

Informei ao governador e ficou evidente que o governo Jango acabara ou estava à beira disso. Celso Furtado veio da Sudene (que fica a uns 150 metros do palácio) como e vários auxiliares do governo estadual também foram chegando.  Por volta das 4h, apareceram os comandantes do IV Exército e do Distrito Naval. Comunicaram a deposição de Arraes e mandaram que somente a família Arraes ficasse em palácio. Todos os demais deveriam se retirar.

Saí com Celso Furtado, mas me despedi logo após passar a ponte sobre o Capiberibe. Telefonei a companheiros da Sudene, o chefe e um oficial de gabinete de Arraes. Em pouco tempo, estávamos reunidos. Com uma máquina de escrever e um mimeógrafo, começamos a redigir o primeiro jornal clandestino na ditadura – Resistência - com uma manchete mentirosa: “Arraes Resiste”. O governador já estava em ou a caminho da ilha Fernando de Noronha.

Eu, os rapazes do gabinete e o repórter Eurico Andrade fomos presos por volta de 1 hora da manhã, colocando Resistência nas portas das casas. O xadrez da DOPS estava lotado e, por isso, fomos levados à Delegacia de Ordem Econômica. Ali não havia xadrez, tivemos de dormir sobre as mesas do cartório.

No início da tarde seguinte, dia 2, o delegado chegou. Nas mãos, uma enorme lista de computador. Deputado estadual, pai de um dos meus companheiros, usara suas amizades com militares para conseguir a libertação do filho e alguém da nova ordem mandara soltar. Logo percebemos que o feixe de papéis na mão do delegado era a lista dos “procurados”. Assim que Eurico disse seu nome, o delegado correu longamente os olhos pela lista e declarou: “Pode ir embora. E não volte, tá?”

Tratei de ir chegando o mais perto possível do delegado, tentando também ler a lista. Depois de Eurico, foram dois Fernandos. Chegara a minha vez. Aí eu já tinha conseguido ler meu nome na lista. Com a voz mais feminina e o ar mais sedutor, apresentei a versão homossexual que já aprendera e interpretara na Escola de Teatro Martins Pena, no Rio, como um perfeito antecessor de Marcelo Serrano: “Eu me chamo Albertinho Brandão”.

“Sai daqui, seu frango safado”, me escorraçou o delegado.

Durou pouco a liberdade. O jornalista Fernando Menezes me escondeu alguns dias, mas o justo medo de sua família me obrigou a procurar outro abrigo. Acabei preso novamente, em meu próprio apartamento, no dia 20 de abril, às 2 horas da manhã. Saí da cadeia para o hospital em julho e, graças a um habeas corpus do Supremo Tribunal (antes que fossem expulsos, no AI-5, os mestres Hermes Lima, Evandro Lins e Silva e Vitor Nunes Leal), a liberdade em 28 de novembro. Naquele dia, só estavam ainda presos ilegalmente em Pernambuco Miguel Arraes, Gregório Bezerra, Francisco Julião e eu.

Ex-companheiros fizeram rapidamente uma vaquinha quando fui pedir um dinheirinho. Me pagaram uma refeição e uma passagem para o Rio, naquela mesma tarde, com receio de que me pegassem outra vez. Às 20 horas, eu estava pedindo emprego na redação do Diário Carioca. O guru conservador Prudente de Morais Neto e o guru de Ipanema Zuenir Ventura, diretor e editor do jornal, em lágrimas pelo meu estado físico, me mandaram começar quando quisesse e pudesse. No dia seguinte, comecei a completar meus 54 anos de jornalismo.

*Jornalista carioca, Milton Coelho da Graça formou-se em Economia em 1957 e em Direito em 1958. Durante a ditadura militar, foi preso duas vezes

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