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Brasiliana

A pelota, o Brasil e o bigode

por Rodrigo Casarin — publicado 22/02/2015 06h38, última modificação 22/02/2015 06h40
Biógrafo de Charles Miller, o inglês John Mills relembra o futebol do passado
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São Paulo x Rio de Janeiro, 1901

O jogador de bigode imponente que ilustrava o mês de janeiro do calendário de 1969 dedicado ao futebol brasileiro impressionou John Mills, um inglês nascido acidentalmente na Espanha que passou a juventude no Peru e havia desembarcado dois anos antes no Brasil, transferido para um posto em São Paulo na multinacional em que trabalhava. Abaixo da foto, uma breve biografia: Charles Miller, ex-craque do São Paulo Athletic Club, clube fundado por ingleses na capital paulista, dito pai-fundador do futebol no País.

Ali, diante do bigodão uniformizado e das poucas linhas, começaria uma trajetória que transformaria Mills em um dos maiores especialistas em futebol brasileiro do mundo. Sua relação com a bola começou cedo. Seu avô paterno, inglês, participou da fundação do Athletic Bilbao, time espanhol da região basca. Apesar da cidadania, ascendência e coração ingleses, Mills nasceu na Espanha, em Vigo, em 1938. Seu pai trabalhava na empresa de telégrafos da Inglaterra, para onde regressaram dois anos depois. O retorno paterno ao Reino Unido seria breve, outros dois anos. Em 1942, a família desembarcaria na América do Sul, mais precisamente em Lima.

No Peru, Mills apaixonou-se de vez pelo futebol. As excursões de times como Santos, Botafogo e River Plate nunca saíram de sua memória. Aos 24 anos, viajou ao Chile para assistir ao Mundial em que o Brasil conquistaria o bicampeonato. Aos 29, mudou-se para São Paulo. Em princípio, ficaria quatro anos. Nunca mais deixou a cidade. Associou-se ao São Paulo Athletic Club, vulgo clube inglês, que tem como sócia número 1 a rainha da Inglaterra. “O SPAC tornou-se a minha segunda casa.”

A paixão pelo futebol influenciava seus rumos. Começou uma pesquisa mais profunda sobre a vida de Charles Miller nos arquivos da Federação Paulista de Futebol. Um tempo depois, conquistou a confiança da família do ex-craque, falecido em 1953. Mills reuniu documentos e reportagens de jornais do período em que Miller frequentara os gramados (1892-1910) ao longo do tempo. Não tinha pressa para publicá-las. Sua ideia inicial era lançar a biografia do craque em 1994, quando se completariam cem anos do retorno de Miller ao Brasil, com uma bola na bagagem. Contudo, naquele ano, conheceu o jornalista inglês Dave Juson e teve acesso a uma parte essencial de sua pesquisa: os registros dos dez anos em que o jogador vivera na Inglaterra. Mais dois anos foram necessários para a conclusão da biografia, publicada, enfim, em 1996 sob o título Charles Miller: O pai do futebol brasileiro.

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São Paulo x Rio de Janeiro, 1901

Charles Miller

Súdito do esporte bretão, Mills jogava de forma amadora na lateral-direita. Em Lima, recorda, disputou uma partida com Didi, ex-craque botafoguense. Seu coração divide-se por três clubes: o Corinthians (esteve na invasão da Fiel ao Maracanã em 1976), o inglês Arsenal e, naturalmente, o Athletic Bilbao, por causa da história familiar. Antes das facilidades de acesso propiciadas pela internet, passava a cada 15 dias na redação da revista Placar, para pegar as edições velhas do jornal espanhol O Mundo Deportivo. Era a única maneira de se informar sobre o Bilbao.

Em 2010, deu palestras sobre o futebol brasileiro na África do Sul, a convite do Ministério da Cultura. O convite permitiu-lhe assistir a algumas partidas da Copa vencida pela Espanha. Em 2014, acompanhou no Itaquerão os jogos entre Inglaterra e Uruguai, na primeira fase, e Argentina e Holanda, uma das semifinais. Apesar da paixão pelo esporte, Mills deixou de frequentar com assiduidade os estádios. Reclama da violência das torcidas e dos tumultos na porta dos estádios.

Se ele considera o futebol do passado melhor? “Antes não era tão mecanizado, com tanto toque de bola e poucos dribles, e os atletas eram menos mercenários. Era comum que os jogadores passassem a vida no mesmo time, hoje não, não há mais um cordão umbilical entre torcida e jogador, apenas da torcida com os times.”

Não se trata, porém, de um romântico inveterado. Pelé, afirma, é inalcançável, como Maradona e Di Stéfano. Mas considera o português Cristiano Ronaldo e o argentino Lionel Messi tão bons quanto as lendas do passado. E assim seu amor eterno se renova a cada temporada.

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