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A pele que todos nós habitamos

por Fórum Brasileiro de Segurança Pública — publicado 14/12/2011 10h40, última modificação 14/12/2011 10h40
Autora mostra experiência de policiais que demonstraram incômodo após por terem recebido aula com uma travesti sobre direitos humanos
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O médico-monstro e sua criação no filme de Almodóvar, 'A Pele que Habito'

Por Aline Kerber*

 

Fiquei emocionada ao assistir o filme “A Pele que Hábito”, do brilhante Almodóvar – achei fantástica a forma como o cineasta elaborou a narrativa sobre a questão da construção social da identidade e da sexualidade.

E logo lembrei da pesquisa da professora Rosimeri Aquino, que virou a tese dela e pode também ser conhecida no artigo: “Na formação integrada de policiais, o intempestivo, o conflito, a ambivalência”, através do livro Violência e Cidadania – Práticas Sociológicas e Compromissos Sociais publicado neste ano.

Ela fala de um curso de formação que ocorreu entre 1999 e 2001 no Governo Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul, em parceira com a UFRGS para os servidores da segurança pública do Estado. Na ocasião, foram dadas formações em Direitos Humanos, com abordagens sobre gênero, raça-etnia, entre outras.

Além de o curso ter esse diferecial, falar de Direitos Humanos para policiais, o maior deles é que os professores não foram somente os acadêmicos, mas também os dos Movimentos Sociais, inclusive uma travesti.

A autora faz uma discussão sobre a homossexualidade e o quanto isso está implicado nas raízes das nossas desigualdades sociais e percebe, claramente, situações conflitivas no curso em razão do que ela chama de “jogo de identidades” e da “falta de reciprocidade” entre alunos e professores das Humanidades.

E, a partir disso, a autora discute os papéis sociais, falando, por essa razão, na formação e na identidade policial, forjadas pelas representações sociais e constituições policiais que estão ligadas também ao campo da masculinidade.

A autora finaliza dizendo que percebeu, apesar das insatisfações e desconfortos momentâneos, que tanto os alunos quantos os professores se sentiram transformados com o curso.

Contudo, ao discutirmos este trabalho, uma década depois, no Curso de Especialização em Segurança Públicae Cidadania da UFRGS, muitos dos meus colegas de aula (policiais) que participaram, naquela ocasião, continuavam manifestando um certo incômodo com a ideia de terem recebido aula de Direitos Humanos, sobretudo com uma travesti. Imagino mesmo que eles tenham sentido que existiu uma “invasão dos seus territórios de trabalho”, como trouxe a Rosimeri.

Percebo, portanto, que as formações policiais são e foram constituídas para que as identidades desviantes, aquelas que exigem mais necessidade de controle, por estarem mais “sujeitas aos insultos reiteradores da norma”, sejam discriminadas, negadas e repudiadas.

Digo, ao mesmo tempo, que a minha identidade, a de mulher e a de socióloga, muitas vezes, deixou-me intranquila nestas minhas aulas, por um lado, porque eu que não sou agente da segurança pública, como a maioria, o que me deixa em um lugar desfavorecido para falar da temática, visto que a prática tem um “valor” ainda bem maior do que a teoria.

De outro, porque as “visões” sobre a segurança pública acabam sendo, por vezes, bem destoantes, o que acaba constituindo um campo de disputa entre “nós” (Brigada Militar x Polícia Civil e Sociólogos x Policiais) – algo extremamente positivo, para ambos os lados: os profissionais da segurança pública e os gestores e/ou pesquisadores da área, mas nada fácil de ser assimilado por nós todos que temos os corpos disciplinados pelas nossas Instituições e carregamos muitos dogmas e preconceitos.

Mas, com tudo isso eu também sinto a minha “pele” transformada por descobrir um pouco mais do árduo e desafiador trabalho policial.

 

*Aline Kerber é socióloga pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

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