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Aborto

A menina e o arcebispo

por Celso Marcondes — publicado 10/03/2009 15h22, última modificação 23/08/2010 15h29
“Qual a atitude mais certa: matar duas vidas em prol da integridade da menina ou deixar a gravidez acontecer na esperança de tanto a menina quantos os gêmeos sobreviverem? Pelo que estou acompanhando, o risco de morte, segundo os médicos, seria apenas da menina, ou seja, se não abortasse, duas vidas seriam salvas e não o contrário. Ainda defendo o descontentamento da Igreja Católica”.

“Qual a atitude mais certa: matar duas vidas em prol da integridade da menina ou deixar a gravidez acontecer na esperança de tanto a menina quantos os gêmeos sobreviverem? Pelo que estou acompanhando, o risco de morte, segundo os médicos, seria apenas da menina, ou seja, se não abortasse, duas vidas seriam salvas e não o contrário. Ainda defendo o descontentamento da Igreja Católica”.

O texto acima pode ser encontrado entre um dos mais de 90 comentários que esta coluna recebeu a respeito do artigo sobre o aborto da menina de nove anos, de Alagoinhas, Pernambuco. O assunto foi o mais controverso da semana. A excomunhão da mãe da garota e dos profissionais de saúde envolvidos no procedimento médico escandalizou o País, muitos brasileiros fizeram questão de expressar sua revolta através de cartas aos jornais e sites de notícias.

Mas não faltou, mesmo entre os leitores de CartaCapital, quem justificasse a posição de D. José Cardoso Sobrinho. O texto acima sintetizou bem esta linha de pensamento. Segundo ela, era preferível arriscar (“apenas”) a vida da menina na esperança de serem colocadas mais duas vidas neste belíssimo e justo mundo. 2X1, duas vidas contra uma. Se não fossem gêmeos seria 1X1, mas mesmo assim o raciocínio prevaleceria, pois trabalharia com a hipótese de mãe e filho sobreviverem. Esses leitores não se comoveram com o fato de a menina ter sido estuprada desde os seis anos, pesar 33 quilos, ter 1,36 m de altura, estar anêmica e desnutrida e, nessas condições, correndo o risco de ter o parto prematuro e também ser vítima de eclâmpsia (é a maior causa de morte materna do Brasil, uma convulsão decorrente de hipertensão). Conhecendo estas condições, eu pensei que não fosse possível que um exemplar dehomo sapiens, além do arcebispo, continuasse se opondo ao aborto. Enganei-me

O Direito Canônico e o leitor que me escreveu são claros: só Deus pode tirar a vida de alguém e os dois fetos de 15 semanas já eram filhos de Deus. Discussão encerrada, segundo o leitor e vários outros comentários recebidos. A Igreja Católica diz isso, sempre disse, sempre vai dizer. Quem estiver de acordo siga, quem não estiver, saia. Ou não entre. D. Cardoso apenas teria cumprido sua obrigação, excomungando “automaticamente” a mãe e os médicos. De agora em diante, eles isentados pelo Código Penal brasileiro, não podem casar na Igreja, serem crismados, nem batizados. Só se “se arrependerem” do crime que perpetraram.

Os dados de um estudo de Recife mostram que um de cada três casos de menores de 14 anos grávidas é oriundo de violência doméstica, dados revelados pela revista Época. O triste é que este caso ficou célebre no País, não por conta da tragédia que é expressa por estes números reveladores de nossa miséria. O caso tomou vulto exatamente por conta da reação, para muita gente inacreditável, do arcebispo de Olinda e Recife.

Dias depois, a CNBB, Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, sustentou a posição do arcebispo e nenhum superior seu se posicionou pela revogação das excomunhões. O chefe do Departamento do Conselho Pontifício para a Família do Vaticano, Gianfranco Grieco, confirmou a posição de d.Cardoso.

No mundo da política, louve-se o presidente Lula, que se colocou clara e prontamente em defesa dos médicos e da mãe e, como católico que é, questionou a posição da Igreja. Não fiquei sabendo de pronunciamentos de governadores e prefeitos. No final de semana o caso já tinha saído das páginas dos jornais e da tela da Globo, Fantástico incluído. Hoje, 9 de março, um dia depois do Dia Internacional da Mulher, o assunto maior é o gol do Ronaldo contra o Palmeiras. O secundário é a crise econômica internacional. A vida segue.

Em dois meses tivemos 4.700 denúncias oficiais sobre abusos a crianças no Brasil. 31% delas referiam-se a violência sexual. Portanto, 1457 casos em 60 dias. Ou 24 por dia. Mantida esta proporção no mês de março, teríamos em nove dias, 216 casos contabilizados oficialmente (reitero o “oficialmente”). Quantos semelhantes ao da menina subnutrida e anônima de Alagoinha? Quantos foram do conhecimento da Igreja Católica? Em quais ela se posicionou?

Vinte e quatro casos de violência sexual contra crianças por dia no Brasil. Um por hora.

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