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A máquina de lavar e eu

por Rosane Pavam publicado 10/03/2009 15h12, última modificação 16/09/2010 15h13
Vaticano assevera que a máquina de lavar libertou a mulher mais do que a pílula e o acesso ao mercado de trabalho. A constatação me interessa. Não vivo sem o útero de água e sabão onde se revolvem meus tecidos e, aliviada, vejo que a Igreja me autoriza a usar tal tecnologia.

Vaticano assevera que a máquina de lavar libertou a mulher mais do que a pílula e o acesso ao mercado de trabalho. A constatação me interessa. Não vivo sem o útero de água e sabão onde se revolvem meus tecidos e, aliviada, vejo que a Igreja me autoriza a usar tal tecnologia. Com a máquina de lavar posso trocar os lençóis duas vezes por semana, à moda do que fez Betty Friedan, a feminista sem sutiã, depois que a engenhoca adentrou os lares americanos, no século passado. Lavar roupa automaticamente é melhor do que trabalhar ou evitar filhos? Deve ser.

Não só os religiosos jocosos, nem somente eu, olhamos devotados para uma máquina de lavar. O personagem vivido pela atriz americana Julia Louis-Dreyfus no seriado de tevê The New Adventures of Old Christine senta-se sobre a lavadora em funcionamento quando seu namoro está no fim. Uma máquina de lavar é tudo, o que se espera e o que surpreende.

Lembro-me que em uma ocasião, nos anos 70, minha mãe implorou a um padre que lhe desse a comunhão. Ele se negou a isso. O problema não era da igreja, soube eu depois, mas de minha mãe, que não usava o véu de renda apropriado para receber a eucaristia. Hoje, caídos todos os véus, minha mãe vai à missa
como quem consente, esquecida da interdição do passado.

Mas eu não sou como minha mãe. Não esqueço o que passou. O episódio do véu me ensinou que, se somos católicos, temos de saber o que a Igreja nos orienta a fazer. Se não o somos, perdemos aquele clube onde nos aceitam. O fundamentalismo católico tem um sentido de orientação. Quem precisa da Igreja, viva com ela e a aceite.

Você talvez me pergunte se tenho uma posição sobre a excomunhão que pesa sobre a mãe da menina de nove anos estuprada pelo padrasto, cuja gravidez de gêmeos foi interrompida em Pernambuco. Claro que tenho. Uma opinião que não é minha, mas de John Lennon, o músico dos Beatles. A mulher é o negro do mundo, disse ele, e eu assino embaixo. Somente quando equivalemos a mulher a um escravo negro, e quando vemos a escravidão como uma necessidade, nós aceitamos o sofrimento do cativo. E esta criança pernambucana apenas começa a sofrer.

A excomunhão em Pernambuco pune, em essência, a mulher ruidosa, a mãe que lutou por seus direitos e os da filha. A Igreja não quer saber de que forma a menina de nove anos existirá, se enlouquecerá depois do que o padrasto fez e do que a Igreja, em terra, ditou a sua família. Os fundamentalistas apenas exigirão que a garota suporte sozinha a vida e que, assim fazendo, dê um exemplo de feminilidade para nós, traduzida em aceitação e submissão social.

O problema da mulher, diz uma lei não escrita, é a agudez, e o poder feminino deve ser exercido de modo contrário, na sombra, para não atrapalhar o tranqüilo curso das coisas. É isto o que diz um maravilhoso livro lançado na última semana, Profissão Artista: Pintoras e Escultoras Acadêmicas Brasileiras, de Ana Paula Simioni. A pesquisadora da Universidade de São Paulo vê a carreira de cinco artistas no Brasil do século XIX.

A trajetória dessas mulheres foi tão mais sofrida quanto mais elas se animaram a protestar contra a exclusão. Somente as mulheres que falaram baixinho, que venceram cada etapa como quem murmura, ganharam um pequeno espaço no mundo masculino das artes.

A sociedade que criminaliza o aborto, baseada em grande parte no que estabelece o direito canônico, acredita que toda gravidez, não importa se originada de um crime, deva seguir resignadamente. Mas, se acredita nisso, não seria também o caso de se responsabilizar pela gestação saudável da mulher fragilizada e, ainda mais, pela criação de seus filhos, já que a mãe estaria impossibilitada de lhes dar carinho, educação e comida?

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