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Análise

A filantropia e a carência de estadistas

por Paulo Yokota — publicado 22/05/2014 04h43
Casos como o da bilionária indiana Roshi Nadar Malhotra, originária do setor de informática que investe na área de saúde, são exemplos interessantes

Tentando escrever notas simples regularmente, que provoquem o mínimo de reflexões, para diversos meios de comunicação social, procuro fazer uma garimpagem dos assuntos que considero merecerem atenção, pelos principais veículos nacionais e internacionais aos quais tenho acesso razoável. Fico com a desagradável impressão que recentemente os meios eletrônicos estão contribuindo para tornarem superficiais as análises, dada à prioridade concedida à velocidade com textos sintéticos.

Ainda que não tenha a qualificação de um escritor como o britânico-indiano Salman Rushdie que participou em São Paulo do evento Fronteiras do Pensamento, partilho de sua impressão que a mídia internacional não está fazendo análises mais profundas, o que ele informa que só pode conseguir na literatura. Evidentemente existem exceções, mas mesmo nos veículos onde se encontravam artigos mais substantivos, parece que há uma tendência no sentido de considerações mais ligeiras. E nem todos podem ler os livros que estão sendo publicados pelos jovens autores quanto desejariam.

Atualmente sentimos a carência de estadistas o que nos fazem crer estarem as autoridades sendo arrastadas pelo marasmo em que se encontra o mundo globalizado. Faz-se o pouco indispensável sem uma visão mais ampla, humanística, de um prazo mais longo. Se poderosas ideias não são colocadas por eles, parece que a tendência é da mídia refletir esta situação amorfa em que se encontra o mundo. Em alguns países são os cidadãos que estão tomando as iniciativas para suprir as insuficiências dos governos.

Sempre existem exceções como as colocadas pela Economist que se refere à Segunda Revolução Verde que está sendo germinada na Ásia, que comentamos nessa coluna, mas elas parecem as que confirmam a regra geral. A descoberta de novos materiais, como do grafeno, está estimulando muitas iniciativas nos mais variados campos do conhecimento humano, como vem sendo noticiado nas publicações científicas especializadas, devendo trazer grandes benefícios para a humanidade. Mas só acabam interessando aos meios de comunicação social na medida em que são transformados em produtos de consumo.

Os problemas existentes acabam atraindo mais as atenções da mídia, sem que se apresentem sequer sugestões para superá-los. Os desafios existem, mas todos parecem que esperam por milagres, quando os avanços só são obtidos pelo acúmulo de muitos e persistentes trabalhos, o que parece ser o meio natural de realização dos seres humanos.

Fica-se com a impressão que muitos estão míopes sem conseguir enxergar um pouco mais longe, principalmente no tempo e de forma sistêmica. A supervalorização das atividades financeiras está destacando aqueles que obtêm maiores resultados “on time”, sem que considerações morais ou étnicas também sejam feitas.

Mas, existem surpresas na medida em que grupos ligados à disseminação rápida de informações financeiras organizam outros com comunicadores sociais capazes de noticiarem, com maior profundidade, assuntos que possam ser relevantes para todos. Não se prendem somente ao seu setor, mas encontram formas de viabilizar a divulgação de outras atividades que também interessam aos seres humanos que ainda sobrevivem nos setores bancários.

Ainda há operadores financeiros que se interessam pela cultura, pela solidariedade humana, pela sociedade em que estão inseridos, pelas atividades políticas para a convivência dos que pensam de formas diferentes. Interessante o caso da bilionária indiana Roshi Nadar Malhotra, do HCL Avitas. Originária do setor de informática, empenha-se na área de saúde, investindo centenas de milhões de dólares, para atender muitos dos seus patrícios nas questões mais banais, a custos irrisórios, suportáveis pelos pobres, quase de forma filantrópica.

Bill Gates da Microsoft está fazendo escola, induzindo outros empresários e muitos bilionários, que conseguiram fortunas com suas inovações tecnológicas, a se dedicarem às atividades filantrópicas, estimulando trabalhos importantes na educação, na saúde, nas pesquisas básicas, tendo a consciência que todos estão inseridos numa sociedade maior, que lhes proporcionou as condições para os seus sucessos. Estão empenhando parte substancial de suas fortunas a favor da humanidade.

Sempre haverá como escrever sobre atividades que engrandecem os seres humanos, ainda que muitos estejam perdidos nas formas de se realizarem.

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