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A Fifa que se dane

por Socrates — publicado 27/07/2010 12h42, última modificação 27/07/2010 12h42
O leitor Guilherme Flynn pergunta: de quem é a Seleção Brasileira hoje?

O leitor Guilherme Flynn encaminha um texto do qual sou absolutamente avalista, tanto do ponto de vista estético como no conteúdo. Dividirei com vocês alguns trechos de sua obra.

“E este é o princípio de tudo isso: a Seleção é nossa, de todos e de cada um dos brasileiros que nela se reconhecem, ou, ao menos, deveria ser. De quem é a Seleção Brasileira hoje?

Que nós, que somos brasileiros e gostamos de futebol, nos sentimos representados por ela não há dúvidas. Temos um orgulho tremendo de saber jogar e de muitas vezes ganhar nesta brincadeira tão bela chamada futebol.

Se Maquiavel afirmava ser melhor ser temido do que amado, esta é uma escolha que nossa Seleção não precisa fazer. Ela é temida e amada. Temida pelos oponentes em campo e amada por qualquer um que goste de futebol. Na Europa, África, Ásia e Oriente Médio, usar uma camiseta da Seleção Canarinho não indica mais sequer que você é brasileiro, apenas que gosta de futebol, tantas são as pessoas encontradas envergando uma.

É fato também que sofremos por ela, que esperamos quatro anos a cada Copa e que desejamos que, quando esta chegar, os melhores sejam levados e que o time apresente um futebol bonito e ofensivo, perdendo ou ganhando, de preferência ganhando. Sofremos com o gol do Ghiggia, com os pênaltis perdidos pelo Sócrates e pelo Zico, com o gol do Henry, com os do Zidane. A Seleção enfim nos representa mundo afora, e nos causa alegrias, êxtases, sustos, tristezas e misérias. Agora, quem representa a Seleção?

Pessoas fazendo milhões de dólares ao explorar uma concessão não clara e aparentemente irrevogável de usar os talentos superiores no jogo de pé na bola, que as pessoas nascidas em nosso país aparentam ter.

A Confederação Brasileira de Futebol é eleita pelas federações estaduais de futebol, que por sua vez também não possuem os atributos de ser consideradas entidades transparentes e democráticas. O atual presidente da CBF está no cargo há mais de 15 anos. No sítio na internet da entidade (aliás, um sítio “ponto com”, comercial, e não “ponto org”, das instituições sem fins lucrativos) não se encontram as contas da entidade, não há dados claros sobre suas eleições e, mais indicativo de seu atual caráter, conta com a faixa superior indicando diversos sítios do grupo de comunicação Globo.

Essa mistura que cerceia a CBF e diversas outras organizações, entre ser, para fins de análise, pública na representação do País perante sua população e as populações dos demais países, e de ser eminentemente privada na sua falta de transparência e nos seus meios de obtenção de fundos e de fazer negócios, faz com que a Seleção Brasileira possua um caráter duplo.

Nós sofremos e nos sentimos representados por ela, e é exatamente por nós sofrermos e nos sentirmos representados por ela que ela adquire todo o seu entrelaçamento com a imagem do País. E é exatamente por ela se entrelaçar com a imagem do País e de seu futebol que é tão vendável e lucrativa. Porém, e, como dizia Plínio Marcos, sempre tem um porém, essa é uma rua de mão única: nada ocorre no sentido inverso, pois nós, singelos torcedores, que somos os que no fundo atribuem a legitimidade que a Seleção Brasileira possui, não temos absolutamente nenhuma ingerência efetiva em seus rumos e suas escolhas. O seu caráter duplo é de ser pública na representação e privada na gestão e obtenção de lucros.

Se como propõe Saramago, temos o direito e o dever de pensar numa democracia que vá além desta, temos de criar novas formas de trazer efetivamente para o público o que dele extrai sua legitimidade, de pensar em mecanismos de trazer para o público as decisões sobre nosso futebol, que nos representa. Em primeiro lugar, eleições diretas para a presidência e o conselho da CBF, que se tornará uma autarquia pública, por que não?

Já que estamos falando de mudar de forma drástica as estruturas de ação e representação do futebol brasileiro, por que não sonhar ainda além – uma vez que começamos é difícil parar: por que não fazer eleições diretas para o técnico da Seleção? Imaginem só… você vai até o órgão público mais perto de sua casa com RG ou CPF e pode escolher não entre Dunga, Parreira ou Zagallo, mas entre Dorival Jr. ou Felipão. Pela primeira vez, em nossa ludopédica história, se a vitória ou tragédia vier na Copa, seremos nós mesmos os responsáveis diretos por ela.

O problema atual do futebol do Brasil não é nem nunca foi o Dunga. É de quem possibilitou que ele esteja lá.

E eu acrescentaria: muitos dirão que a Fifa se negará a reconhecer estes meios de escolha. Ora, que se dane a Fifa!

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