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A curva da estrada

por Emiliano José — publicado 18/08/2008 18h24, última modificação 01/09/2010 18h26
"Eu vim a Madrid sobretudo para te fazer uma pergunta. Eu vim para te perguntar se te parece legítimo que um homem que mudou de idéias políticas ou sociais passe a combater as idéias que até aí defendia e a fazer disso um novo apostolado da sua vida. "

- Eu vim a Madrid sobretudo para te fazer uma pergunta. Eu vim para te perguntar se te parece legítimo que um homem que mudou de idéias políticas ou sociais passe a combater as idéias que até aí defendia e a fazer disso um novo apostolado da sua vida.
- Se o faz com sinceridade, claro que é legítimo. Isso nem se discute! - respondeu Soriano sem hesitação.

Soriano sofre. É a curva da estrada. O outono. Não o fim. A melancolia, a certeza de que o fim se aproxima. Mas não o fim.

É possível olhar o jardim. E querer cultivá-lo. Revolver a terra, plantar flores num sítio próximo a Madrid.

Um filho corrupto, do mal. Outro, íntegro, do bem. Paco, o primeiro. Enrique, o que veio a Madrid para fazer a pergunta.

Qual a herança que deixa? Como reconciliar-se com seu passado de esquerda nesse outono?

Por que quase abraça as teses da direita?

Por que quase renega tudo que uma vida inteira construiu? Por que alimenta tanta mágoa com seus companheiros do Partido Socialista?

Como não magoar-se com o não-reconhecimento? Como aceitar que lideranças novas, cheias de viço, o ultrapassem e não olhem para ele com a admiração de antes, admiração que multidões antes cultivavam?

A curva da estrada. Resolver-se diante dela. É o dilema de Soriano. O dilema da política. O dilema da vida de um militante de esquerda.

Zornoza Lara declarara imediatamente que os socialistas não deviam atuar contra os operários seus irmãos. Assim, ordenara-se aos ministros socialistas que abandonassem o governo. Soriano, então, recusara-se a obedecer.

Ferreira de Castro, que descobri agora, constrói o drama de Álvaro Soriano, destacado militante e dirigente do Partido Socialista de Espanha, uma vida inteira cheia de abnegação, devotada à causa socialista, e que, no outono da vida, vê-se envolvido num dilema político-existencial profundo, seduzido pela direita, a acreditar que para a continuidade de sua vida política a adesão às teses direitistas poderia significar sua ressurreição.

Um filho torce para isso, Paco, que mais tarde será surpreendido em ato de corrupção, aproveitando-se da passagem do pai pelo Ministério do Comércio e Indústria, indicado pelo Partido Socialista.

O outro filho, Enrique, o chama à razão. À razão de esquerda.

Como largar todas as convicções que ele, Enrique, aprendera a admirar?

Como?

E, ao lado do filho, um velho jornalista e militante, Pepe Martinez, talvez uma metáfora freudiana, uma espécie de alter-ego, a adverti-lo que a humanidade não se tornou justa, que os seus ideais de antes continuam absolutamente atuais, palavras também ditas por Enrique. Os ideais nobres não morrem se as causas das injustiças não foram extirpadas.

- Então expulsaram-me do partido ao qual dei toda a minha vida e tu não queres que eu me defenda? Enchem-me de insultos e de calúnias e eu não devo defender-me?

Soriano resiste aos argumentos, às vozes cheias de ecos do passado de Enrique e Pepe. E pensa em aderir ao Partido Nacional, de direita, em vingar-se assim de seus companheiros, que naquele momento tanto o desprezam, segundo o seu olhar de militante que se aposenta. Porque, em verdade, não o desprezam.
Foi a luta que avançou, e ele ficou para trás. Naturalmente.

A irmã, Mercedes, que se envolve de amores com Paco, torce por sua adesão à direita.

E ele, no silêncio e na turbulência de sua alma, na sua viuvez, real, porque havia perdido a mulher, e metafórica, por conta das desilusões que a política lhe trazia, vai desenvolvendo um diálogo interior cheio de conflitos.

Vê a multidão de operários quase alucinada diante de sua voz poderosa. Emociona-se ao lembrar de sua militância, dos comícios, das mortes de seus companheiros, do camarada que perdeu o braço numa manifestação, de suas prisões, de sua coerência, do enfrentamento corajoso que sempre fez diante dos verdugos. Viu o sangue derramar-se à sua frente. Sentiu o peso da repressão. E sempre enfrentou tudo com a coragem dos bravos, alma revolucionária.

- Ora, quando um homem como tu renega o seu passado, esse homem mutila-se, demite-se duma parte essencial dele próprio e confessa, com o seu gesto, que enganou aqueles que nele acreditaram ou vai enganar aqueles que nele venham a acreditar.

E agora, depois de tudo isso, de tanta dedicação, o desprezo.

Uma nova liderança surgia, e ele de lado.

Às vezes, o consolavam. Visitavam-no. Diziam do respeito que lhe tinham Pura oratória, reagia. Teatro apenas. Estava sendo tirado do jogo político.

Zornoza era o novo grande líder do Partido Socialista. E essa nova liderança o irritava profundamente. O Partido Nacional o cortejava. E por que não aceitar? A sedução encontrava terreno fértil.

Alma incendiada. Coração aos solavancos. Ideais em xeque.

Ferreira de Castro consegue construir um personagem denso, de intensa carga dramática. As opções diante da vida. A metamorfose do homem de mais de cinqüenta anos, que vacila, que não tem mais os mesmos desejos e pulsões da juventude e que não tem, também, a mesma convicção quanto aos ideais políticos tão ardorosamente defendidos ao longo da vida.

- Eu não mudei de idéia porque quis. A experiência da vida acaba por transformar num sensível pessimismo o otimismo absoluto que durante a juventude temos sobre os homens.

Há um acento à Sartre, uma pergunta existencial profunda sobre o que fazer do resto da vida, que proveito tirar dela – se ficar à sombra, cuidando de seu jardim e de suas memórias, se aderir à direita e preservar sua vida pública, mesmo que por caminhos bastante diversos daqueles que o nortearam até ali. Há uma esquina à sua frente, uma curva. E ele tem que se decidir. E acaba se decidindo pelo recolhimento, pelo seu jardim de San Rafael, por escrever sobre si mesmo, realizar o que ele chama de viver a vida duas vezes.

Uma beleza de livro. A curva da estrada. Fui achá-lo num sebo. Veio pelo correio. Já bastante desgastado pelo tempo, edição de 1960, Difusão Européia do Livro. É uma leitura recomendável para os mais velhos e os mais novos. A estes, para prevenir-se dos males das desilusões, que podem advir. Àqueles, para que recolham o ensinamento de que chega um momento em que a retirada da linha de frente é uma saída digna e acertada.

- A minha longa vida permitiu-me confirmar, com uma demorada observação, que eu não estava em erro quando, na juventude, pensava que a sociedade humana se encontra mal organizada e que o homem pode ser menos infeliz do que é.

Os novos chegam, ocupam os lugares, e os mais velhos chegam a um momento que devem cuidar do jardim sem descuidar-se de viver a vida duas vezes, assegurando a passagem de sua experiência aos que os sucederão. Duro é escolher o momento certo, e é esse o drama de Soriano, Nem se apressar na retirada, nem demorar mais do que deve.

Soriano não abraçou as teses reacionárias. Vacilou, vacilou, mas não o fez. Quantas vezes o desenlace é outro. Militantes políticos de esquerda tornam-se respeitados políticos da direita. A idade ajuda a conversão à direita.

Embora não apenas a idade. Há aqueles que, ainda jovens, vão fazendo a curva, dobrando a esquina no interior dos próprios partidos progressistas.

Estes não vivem sequer o drama de Soriano. Não estão em tempo ainda de cuidar do jardim e experimentam uma conversão sem dor. Arquivam os ideais de juventude sem qualquer angústia existencial, mesmo tendo lido Sartre.

Vão arquivando Marx e substituindo-o por autores mais pragmáticos, reduzindo a política ao aqui e agora, sem qualquer objetivo mais nobre. Toma lá, dá cá. Pensam na carreira. São os que fazem carreira. Não os que vivem a política no seu sentido mais profundo, ideal de transformação do mundo para melhor.

Mas, há, seguramente os que permanecem vivos, cultivando nobres ideais, acreditando que é necessário continuar a luta por uma humanidade justa para todos. Estes também são muitos. E são os melhores. Ferreira de Castro pensou nesses homens e mulheres quando construiu um personagem capaz de viver a vida duas vezes – uma, na paixão militante; outra, na recordação apaixonada, herança que os mais novos recolherão mais tarde, prontos a viver os mesmos e renovados sonhos que os camaradas mais antigos semearam.

Agora, que a minha crise se foi, eu posso examinar tudo mais serenamente. E estou-vos muito grato, a ti e ao Enrique, por vocês jamais terem pronunciado, no ardor das nossas discussões, uma palavra que eu julguei, várias vezes, ir romper da vossa boca e que me deixaria um inevitável ressentimento. (Refiro-me à palavra “traição”.) Estou-vos muito grato por nunca a terem dito, tanto mais que eu andei próximo de vos dar razão para ma dizerem.