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A crítica cordial

por Rosane Pavam publicado 11/06/2008 16h11, última modificação 16/09/2010 16h12
Na última semana, estive em um prédio da Receita Federal em São Paulo para obter uma informação simples e me surpreendi. Guardas vigiavam os quatro cantos do saguão de entrada e impediam o acesso do público a uma sala mais restrita, na qual o usuário entrava munido de senha. Nos guichês presentes em duas etapas de atendimento, avisos em letra maiúscula lembravam que desacato a funcionário público seria passível de prisão e que o uso de celulares durante o atendimento o interromperia imediatamente.

Na última semana, estive em um prédio da Receita Federal em São Paulo para obter uma informação simples e me surpreendi. Guardas vigiavam os quatro cantos do saguão de entrada e impediam o acesso do público a uma sala mais restrita, na qual o usuário entrava munido de senha. Nos guichês presentes em duas etapas de atendimento, avisos em letra maiúscula lembravam que desacato a funcionário público seria passível de prisão e que o uso de celulares durante o atendimento o interromperia imediatamente. Quando, depois de passar por uma fila curta, cheguei ao primeiro recepcionista, ele me pareceu tenso, as unhas roídas, incrédulo de que eu lhe sorrisse e dissesse bom dia antes de fazer perguntas. Mas ele as respondeu. Mandou-me então, gentilmente, a uma segunda etapa de atendimento, onde me recebeu uma funcionária que, sem me olhar, disse: "Fala". Eu falei e, por um impulso que não sei de onde veio, também lhe sorri. Ela me deu a informação e, ao final dela, também sorriu.

Senti-me uma vencedora em meio ao dia que principiava a ensolarar. Passara pelas muralhas imaginárias de uma gaza doméstica apenas munida de um jeito de voz e obtivera minha informação sem qualquer problema maior. Eu era a brasileira em essência, habilidosa e simples diante de um percalço inesperado.

E, é claro, este uso e costume me remeteu a uma compreensão da maneira como vemos nossas instituições e como lidamos com elas no Brasil. Uma unidade da Receita relaciona-se ao dinheiro que ajudei o governo a acumular em prol do bem comum. É um espaço meu tanto quanto dos funcionários públicos e dos terceirizados fardados ali presentes. Devem, de alguma maneira, me respeitar. Eles me respeitam, eu os respeito. Mas, claro, devo respeitá-los antes.

Herdeiros destes trópicos tristes percebidos por Claude Lévi-Strauss, deste país cujo futuro foi anunciado por um grande escritor que optou por suicidar-se, e analisados em sua cordialidade pelo historiador essencial Sergio Buarque de Holanda, nós vagamos pela autoridade frequentemente sem lhe dar este peso. É preciso retomar uma interessante leitura de "Raízes do Brasil" que faz um professor contemporâneo. Autor de outro livro que remete ao clássico de Buarque de Holanda, "Raízes do Riso", o historiador Elias Thomé Saliba afirma que a leitura comumente feita do brasileiro cordial a partir daquele ensaio dos anos 30 está errada. Buarque de Holanda não disse que o brasileiro é cordial porque cordato. É cordial porque suas reações sociais remetem ao coração. Um coração pode gerar emoções de afeto e de violência em idêntica medida.

Ser cordial, segundo esta leitura, é agir sem intermediários. Agir livremente, por um impulso emotivo, para restabelecer a ordem perdida. E se esta emoção se exerce com tanta liberdade no Brasil, ela tem uma raiz. A raiz está na ausência do funcionamento das instituições.

Somos, diz o professor, um país sem mediações. Sem a mediação da justiça, da política, de outras ordens. Se não acreditamos nas instituições, é porque, com o transcorrer de nossa história, elas não funcionaram como deveriam. A triste conclusão a partir disto é que comumente o brasileiro age para dar um jeito nas coisas sozinho, ou a solução, acredita ele, não virá.

O esforço civilizador é caótico e, também ele, comumente violento. Os avisos na unidade da Receita podem parecer chocantes, mas é possível acreditar que eles desejem civilizar. Os funcionários estão pressionados pela ausência de uma credibilidade da instituição governamental que, esperemos, deseja-se agora reconstruir. Quando o brasileiro pede justiça para a menina Isabela, morta de forma covarde, ele não a pede somente, ele a exige, porque parece concluir, de antemão, que pelos meios conhecidos os culpados permanecerão impunes. Embora a polícia se esforce em resolver o caso, um observador poderá duvidar de sua ação. Somos todos analistas, pela falta de alguém de crédito que faça a ordem se estabelecer com justiça. Perigoso é que, de analistas, passemos a linchadores sistemáticos, protegidos pelo anonimato de cidadãos comuns.

Se assim é com a nação, assim é com o futebol, sua representação simbólica. Na semana passada, escrevi uma  sobre o que me pareceu a intromissão indevida da polícia em um estádio de futebol, e a reação dos internautas variou entre o desagrado e o manifesto de apoio. Fui lida emocionalmente. Mas não reclamo disto, porque assim somos nós, brasileiros, emotivos. Muito me agrada que leiam palavra a palavra ou parágrafo a parágrafo o que escrevi. Vivo de escrever.

A questão é que, pelo que percebi, entenderam minha coluna, em alguns casos, por uma especificidade regional, como se eu visse mais glórias na polícia sulista do que na nordestina. Jamais afirmei tal coisa, porque esta divisão não me ocorre. Separações regionais são imaginárias, e os homens não se tornam melhores por terem nascido acima ou abaixo de linhas convencionadas.

Somos todos homens.

O que contestei foi a intromissão da polícia de choque no campo nesta situação, tivesse ela ocorrido em Pernambuco ou na Alemanha (e por um detalhe, desta vez, a intromissão se deu em Pernambuco). Para um jogador violento e destemperado em campo, há a autoridade, em primeiro lugar, do árbitro do jogo. Talvez, naquele caso, essa autoridade tenha sido exercida tardiamente. E, se digo talvez, é porque reconheço que existe uma instância para decidir o timing correto desta atitude, que é o tribunal de justiça desportiva. Este tribunal terá de ser capaz de fazer isto mais apropriadamente que a justiça comum.

Assim, pelo menos, foi o que se fez na Alemanha, um país que parece crer nas próprias instituições, durante a Copa do Mundo. Zidane, provocado por Materazzi, agrediu-o fisicamente na final. Mas a polícia não entrou em campo para prendê-lo, não o algemou. Qual teria sido a reação de Zidane diante de um policial que desejasse fazer isto com ele? Não se pode saber, mas talvez ele se visse incrédulo como o pobre (no sentido de surpreendido) zagueiro do Botafogo. E se na Alemanha a coisa não se complicou, isto ocorreu porque o juiz agiu em tempo: expulsou Zidane depois de ter sido informado de seu ato violento por um bandeirinha.

Posteriormente, Zidane teve a oportunidade de defender a própria atitude (o que fez com grande integridade) em um processo da justiça desportiva. Se isto ficou entendido como correto no caso de um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos, pode também ser aplicado a um profissional de menos destaque.

Creio que alguns de meus leitores perceberam que eu falava, no texto,do poder simbólico do futebol, não daquele real. Porque quando disse que um jogador é mais que um jogador, disse, naturalmente, que ele é assim em correspondência com esta simbologia da guerra traçada em quatro linhas. O jogador, apenas neste sentido, é como um soldado em uma guerra, representa nossos sonhos indistintos e tem de lutar com os meios de que dispõe para vencer o ataque a seu gol. O que foi aquela partida, e as reações de alguns leitores à minha coluna, senão uma batalha em continuidade? Neste sentido, uma partida de futebol é muito mais que uma partida de futebol, e um jogador, muito mais que um jogador. No sentido simbólico, por favor.

Não disse em qualquer momento que um jogador está acima da lei. Evidentemente, tivesse o zagueiro em questão cometido um crime comum em campo (e me lembro do goleiro que golpeou o pescoço de um brasileiro durante um jogo na Índia, e com isso o matou), mereceria que a polícia praticasse uma intervenção imediata sobre ele, agarrasse seus braços e lhe tirasse dali pela porta aberta do vestiário, sem o desfile diante de torcedores exaltados. Os fatos ainda não foram de todo apurados. Não me pareceu, pelo que vi na televisão, que aquele zagueiro tivesse cometido um crime comum em campo. Mas o jogador, a depender do que concluir uma apuração isenta, estará sujeito ao que a lei lhe aplicar.

Sócrates, o brilhante colunista a quem não paro de admirar, por seu passado como cidadão e jogador (ou mais que um jogador), e por seu presente de hombridade e firmeza, intui que o zagueiro extrapolou suas funções em campo, embora não esteja certo se a polícia devesse ter sido a figura certa a coibir tais atitudes naquele instante. Sócrates fala em jogadores mimados, mas talvez esta não seja uma constatação nova: todos aqueles que defendem grandes clubes apresentam-se invariavelmente assim ao público. Se Sócrates intui que o jogador cometeu um crime de fato em campo, é preciso parar para ouvi-lo. E apurar suas intuições.

Escrevo esta coluna há quatro meses e frequentemente vario as temáticas abordadas. Nestes tantos textos, comentei assuntos que me pareceram graves ou notáveis dentro da sociedade brasileira, como o racismo, a moda, o jornalismo, as construções urbanas, os livros importantes. Nenhuma coluna teve o alcance desta sobre a poderosa simbologia do futebol. Neste caso, tive leitores muito atentos, que deram importância ao que escrevi no texto semanal, analisando-o de maneira cuidadosa, pelo menos em um caso, em seus próprios blogs.

Bem-vindos os que pensam. O exercício crítico é algo sempre admirável de ver.