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A Copa das ruas

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 26/07/2010 18h34, última modificação 26/07/2010 18h46
Jogos criam corrente verde e amarela que encantam patriotas e gringos

Jogos criam corrente verde e amarela que encantam patriotas e gringos

Andar pela rua com olhos de ver horas antes de a peleja começar é também uma festa. Outro tipo de festa. A festa da ansiedade, da esperança, da alegria, da fé e de todos esses sentimentos simples que movem as pessoas para frente e para o alto. É o sentimento de empurrar a Seleção, com ou sem o Ganso ou o Neimar, para a vitória. E, depois, correr para o abraço.

E esse é um valor essencialmente brasileiro. Por mais que em outras pátrias o futebol importe, nunca será como é numa pátria como a nossa. Mobilização espontânea e tamanha deve impressionar quem é de fora. Não é incomum ver gringos de chapelão verde e amarelo ou enrolados em cangas de praia com o pendão nacional à procura de uma turma para se aninhar.

Os que não sinalizam estar de antenas a postos com o que acontecerá dali a horas assemelham-se como de outro planeta. Criaturas em roupas e adereços sem um toque pátrio conotam semear no caminho um ranço ácido ou algo parecido com emoções represadas, seja pela auto-crítica , seja pela crítica em si à entrega da alma aos 90 minutos de uma esquadra em campo. No país do futebol não basta ser torcedor, tem de parecer torcedor.

Antes dos jogos na principal avenida de Copacabana (e também pelo resto da Cidade), os camelôs espalham suas lonas sob todo o tipo de breguetes verdes e amarelos que, indicam, não ficarão encalhados. Param moças, velhinhas, senhores, rapazes, a examinar mercadorias baratas e tão caras às horas seguintes. Usá-las vale ouro.

Os atendentes das lojas de eletrodomésticos não têm mais tempo de vender televisão de plasma – quem comprou, comprou. E, em alta definição, contabilizam suas comissões engrossadas pelo casório feliz de futebol e tecnologia e espiam o movimento das calçadas. Sonhando vender, pelo menos, uma geladeira naquele expediente extraordinário.
A acompanhante de verde-amarelo empurra a cadeira de rodas de uma vovozinha, que parece um daqueles seres estranhos “a paisana”. Mas a senhora, esperta, sabe que o traje de sua dama de companhia lhe dá o devido status. Na pracinha, outra cadeirante toma o sol da manhã. Toda de verde, conversa com uma amiga toda de amarelo.

Cachorros são conduzidos em coleiras com bandeirinhas brasileiras ou vestindo roupetas comme il faut, um must dos ambulantes, por donos orgulhosos e famílias inteiras, carregando crianças e bolsas em auri-verde sobem apressadas nos ônibus. Todos querem ir para casa, para o barzinho, para o grande point armado na praia, enfim, para um abrigo onde fiquem tesos diante de uma tela da TV.

Mas o inacreditável acontece numa hora dessas na Nossa Senhora de Copacabana. Um grito, há muito não ouvido desde a popularização de rádios e celulares, ressoa no ar e começa a ser replicado pelos os quarteirões: - “Olha o rapa!” A poucas horas do início de mais um jogo do Brasil, o olheiro eletrônico dos ambulantes falhou e a correria para recolher a muamba do chão é imensa.

O que não dá para entender é porque o rapa, ou a Guarda Municipal que ignora a camelotagem carioca quase sempre, tem de trabalhar naquele momento recolhendo perucas verdes, vuvuzelas fake, camisetas número 10 baratas, chapeuzinhos e o que mais couber no saco. Coisas do Brasil-il-il-il.

“Aqui é o país do futebol” – Linda e providencial a regravação da canção de Milton Nascimento e Lô Borges por Simoninha: “Nesses 90 minutos de emoção e alegria esqueço a casa e o trabalho e tudo fica lá fora, a vida fica lá fora...” Esperemos que o Verde e o Amarelo não seja substituído pelo Laranja.

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