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A Copa das Confederações foi a exceção, não a regra

por Otavio Maia* — publicado 03/07/2014 09h31, última modificação 03/07/2014 09h42
Sem o cenário perfeito de um ano atrás, Seleção apresenta dificuldades consistentes com seu ciclo de preparação. Por Otavio Maia
Rafael Ribeiro / CBF
Treino da seleção brasileira

Fernandinho, Ramires, Marcelo e Daniel Alves (deitado) treinam para o jogo de quartas de final da Copa do Mundo contra a Colômbia

Quando o tempo nublou e o Chile começou a fazer o Brasil ver a eliminação de perto nas oitavas de final, o mundo do futebol ficou absorto. A vitória dos visitantes seria uma das maiores surpresas da história do futebol, pela diferença técnica, pelo peso da camisa, por ser uma Copa do Mundo e porque ninguém acreditava que o país acostumado a atravessar o mundo para conquistá-lo permitiria a alguém o derrubar tão precocemente dentro de casa. A surpresa, no entanto, não deveria ser tão surpresa assim. Uma análise fria mostra que existem razões fortes para crer que as dificuldades encontradas pela Seleção em três de suas quatro partidas na Copa do Mundo eram uma chance real, senão a mais provável entre as possibilidade.

Para entender, basta analisar o histórico da equipe. No ciclo de quatro anos de preparação, marcado pela renovação do elenco e do espírito do time, as dificuldades se sobressaíram mais do que as vitórias. Das primeiras partidas com Mano Menezes até o meio do ano passado, o cenário foi pouco encorajador. A falta de evolução despertava críticas e desesperança. Só a camisa e o mando de campo faziam da Seleção candidata ao título, e não mais a força do seu futebol.

Em junho, recordemos, o Brasil era apenas o número 22 no ranking da Fifa. Na sua trajetória, havia perdido para equipes como Inglaterra, México, França e Argentina e empatado com outras como Chile, Itália, Rússia e Colômbia. Não emplacou nenhuma grande vitória. O time ficou quatro anos sem vencer uma seleção campeã do mundo, com cinco derrotas e dois empates. Apesar de toda a mística, pouco mudou com a entrada de Felipão. O esquema tático era parecido, o elenco quase o mesmo e os resultados, também anímicos. Nos cinco primeiros jogos, só um êxito, contra a Bolívia.

Eis que veio a Copa das Confederações. Já nos amistosos que antecederam a competição ficou claro que algo estava diferente. O Brasil passava por um momento histórico. A energia que transbordava nas ruas alcançava também as arquibancadas. Pela primeira vez os jogadores sentiam o gostinho da Copa do Mundo, da força da torcida e passavam pela comoção do hino cantado à capela, que surgiu espontaneamente.

Dentro de campo, a resposta foi imediata. Contra a França, no amistoso final antes da Copa das Confederações, o triunfo por 3 x 0 derrubou tabus e marcou um novo momento entre seleção e torcida. Começava uma tempestade perfeita: de um lado, o time não sentia tanta pressão porque não era favorito e porque se tratava de uma competição em que a derrota era admissível; de outro, ganhava uma injeção de ânimo com o clima festivo e com o impulso da arquibancada. O time entrou elétrico em campo e muitas vezes fez o resultado antes que o adversário sentisse a partida, inclusive na final contra a Espanha, em exibição que assombrou os demais demandantes do título em 2014.

Depois da Copa das Confederações, novamente favorito a vencer o Mundial, o Brasil fez poucos amistosos relevantes. Vitórias contra Chile e Portugal e uma surpreendente queda contra a Suíça. Às vésperas da Copa, novas apresentações inseguras contra Panamá e Sérvia, ocasião em que o volume de jogo lembrou mais o time pré-Copa das Confederações do que aquele que conquistou o País e o resto do mundo na decisão contra a Espanha. Embora o ciclo de quatro anos de preparação tenha sido na maior parte do tempo bastante árido, o que ficou na mente de todos foi o ímpeto do time que derrubou o Tiki Taka da Espanha.

A verdade é que no futebol, como em qualquer disciplina, a emoção, a torcida e a força dos fatos mais marcantes ou mais recentes enviesam nosso juízo. No caso da Seleção Brasileira não foi diferente. O futebol inseguro mostrado pelo time até agora, na verdade, é absolutamente consistente com o seu ciclo de preparação. A exceção, e não a regra, é a Copa das Confederações, em especial a partida decisiva.

Existem duas grandes diferenças entre o que aconteceu em 2013 e o que está acontecendo agora: primeiro, o mau momento de vários atletas que estavam em alta há um ano; segundo, a tempestade perfeita se foi. A Seleção continua tendo a seu favor o clima festivo e a vantagem de jogar em casa, mas já não pode mais admitir a derrota, e portanto não joga com o ímpeto de antes, mas com os músculos rígidos. Contra o Chile, em especial, o medo de perder de forma precoce, e que seria considerada vexatória pela crítica, foi muito mais evidente do que a gana de vencer. A bola queimou nos pés. O capitão, Thiago Silva, sentiu o peso e pediu para não cobrar pênaltis.

Se há um lado bom nessa dificuldade toda é que o Brasil viu a morte chegar, especialmente quando o atacante de vermelho carimbou o travessão de Júlio César. Muitas vezes essa experiência de quase morte fortalece a equipe e torna o elenco mais preparado para lidar com a possibilidade do fracasso, o que é essencial para alcançar o êxito. A reação psicológica do elenco, portanto, será peça-chave quando este Brasil entrar em campo contra a Colômbia para decidir sua história. Se a equipe não é a melhor do mundo técnica e taticamente, precisa estar no seu auge físico e mental.

*Otavio Maia é integrante do Esporte Fino, blog parceiro de CartaCapital