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Edgard Catoira

A construção do óbvio

por Edgard Catoira — publicado 05/01/2012 16h27, última modificação 05/01/2012 16h27
Há muitas teorias ideológicas, mas quase nunca os políticos focam nas condições mínimas de sobrevivência para o povo

Meu último artigo, “Bela Adormecida no Rio”, suscitou uma animada polêmica. A partir da reprodução da conversa com um amigo, sobre uma apresentação do Ballet Bolshoi, ilustres leitores da CartaCapital discorreram sobre comunismo, capitalismo, desigualdades sociais, entre outras opiniões que estão longe de estarem adormecidas. Uma bela surpresa...

Daí, atrevo-me a convidar todos para uma nova reflexão, sobre a construção do óbvio.

No campo da política e da economia há muita sofisticação, muitas teorias, muitas fórmulas de como lidar com o destino das pessoas. Mas quase nunca defensores de determinadas ideologias ou partidos políticos focam numa raiz comum ao sonho ou ao desejo de todos os homens: condições mínimas de sobrevivência para seus semelhantes.

Não se discutem mais as agendas comuns, convergentes ou os pactos sociais. A rigor, agendas só são propostas quando tudo já se está no fundo do poço, pois, normalmente, o poder dominante só perde a empáfia e amplia o debate quando suas fórmulas fracassam, a fonte seca e as crises se instalam. Só nessas circunstâncias propõe-se a união nacional, mas, em geral, a alternativa é apenas a da socialização de sacrifícios. E aquelas pessoas cujas crises são crônicas, que estão perdendo desde sempre pela falta da prévia construção do óbvio: saneamento básico, educação e saúde públicas de qualidade.

A construção do óbvio está longe de ser um projeto da maioria dos governantes. Mineiros morrem às pencas nas estradas esburacadas das Alterosas, mas ainda se discute o Trem Bala entre Rio e São Paulo. Moradores da Região Serrana do Rio, após as tragédias do ano passado ganharam como única providência oficial, sistemas de alarmes em algumas áreas de risco e continuam apavorados com as chuvas de verão – mas o Estado gasta centenas de milhões de reais para adaptar o “maior estádio do mundo” às exigências da FIFA. A Cracolândia da cidade de São Paulo continua a condenar parte significativa da juventude paulistana enquanto ONGs conveniadas ao governo entesouram dinheiro público transferido para resolver problemas que jamais chegam ao fim.

Portanto, ao inferno a disputa entre partidos políticos que ainda tentam iludir a população de que fazem a diferença. Se não são todos iguais, são muito equivalentes. A sociedade precisa, cada vez mais, demonstrar sua indignação contra o tratamento indigno que recebe nos hospitais, a extorsão dos planos de saúde, a escola pública que não educa, a vala de esgoto que corre a céu aberto em pleno século XXI e contra o eterno blá-blá-blá.  Políticos que não estão à altura do cargo que exercem não merecem ser reconduzidos nas próximas eleições.

Antes de pleitear, novamente, a confiança dos eleitores, é preciso que tenham provado que, ao menos, tentaram viabilizar o mínimo para a existência dos brasileiros menos favorecidos. E não venham dizer que ainda não tiveram tempo ou que a conjuntura internacional não é favorável – os ventos nunca sopraram tanto a nosso favor. Depois que tiverem garantido isso, que peçam nosso voto de confiança, que voltem a defender suas teses mirabolantes, que se digladiem. Mas que, até lá, por favor, simplifiquem o discurso e construam o óbvio.

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