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A compulsão pela controvérsia

por Rodrigo Martins publicado 30/11/2010 16h18, última modificação 30/11/2010 16h23
O perito George Sanguinetti e a missão de libertar o goleiro Bruno

Recluso em casa, de calças compridas e sandálias franciscanas, um dos mais conhecidos médicos legistas do País, assediado pelos principais advogados criminalistas brasileiros, vive com simplicidade. Devoto de Nossa Senhora de Fátima, carrega no peito um escapulário da santa e, fora do bunker em que transformou sua espaçosa residência em Maceió, capital alagoana, uma pistola na cintura. Também um volumoso molho de chaves, que controla todos os acessos da casa, inclusive as portas de armários da despensa. Para pegar até o pó de café, a empregada precisa pedir ao patrão. “Preciso estar sempre alerta para me defender. Não há nada de errado nisso. O meu Deus não é fraco, é forte. É o Deus das carruagens de fogo que destruíram as pecaminosas cidades de Sodoma e Gomorra”, recita o perito George Sanguinetti, como se lesse um trecho da Bíblia.

O receio que o leva a trancafiar-se nas horas vagas é proporcional à compulsão pela polêmica, a ponto de sua contratação ser confundida com táticas diversionistas de advogados de defesa. Desde o controverso laudo sobre a morte de PC Farias, em 1996, é figurinha fácil em casos rumorosos. Esteve lá para contestar as perícias que apontaram o casal Nardoni como assassinos de Isabella. Volta agora para mais uma missão aparentemente impossível: provar que o goleiro Bruno, ex-Flamengo, não matou a amante Eliza Samudio. “Não há provas técnicas contra o atleta, e sim o depoimento fantasioso de um menor sobre um macabro banquete canino de restos mortais”, diz.

Depois de aceitar o caso, o legista fez uma série de perícias nos locais apontados pelo menor que confessou participação no crime. Diante da 2ª Vara Criminal de Maceió, na quarta-feira 17, tratou de desmentir a versão do adolescente, que embasou o indiciamento de nove acusados pela polícia mineira. Para Sanguinetti, há muitas contradições na história do réu confesso e não existem provas técnicas contra Bruno, acusado de ser o mandante do crime. “Mais uma vez transformaram um inquérito numa peça passional. Os erros da perícia oficial são gritantes.”

É assim que o perito costuma falar sobre os casos nos quais atuou: expressão compenetrada, olhar distante do interlocutor, palavras medidas. Artimanhas de quem se acostumou a entrar, convidado ou não, em alguns dos casos criminais mais controversos do País. Em geral, para apontar os “erros e contradições” dos colegas de ofício, que chegaram a denunciá-lo no Conselho Regional de Medicina por “ilícito ético”. Sanguinetti não se abala. “Ninguém gosta de ser criticado e é exatamente isso o que eu exponho, os tropeços dos maus profissionais.”

O legista tornou-se um dos peritos mais requisitados por advogados criminalistas após a morte de PC Farias, ex-tesoureiro de Fernando Collor de Mello. As investigações da polícia e os laudos do legista paulista Badan Palhares indicavam um crime passional. Suzana Marcolino, namorada de PC, teria assassinado o amante por ciúme e, em seguida, cometido suicídio. Mesmo sem ser convidado, Sanguinetti pediu acesso às fotos da perícia oficial e contestou- a tese. Segundo ele, as mortes de PC Farias e Suzana foram duplo homicídio. A trajetória dos projéteis, afirma, só poderiam ter sido feitas por um terceiro.

“No fim das contas, o inquérito mudou o rumo, da investigação de um crime passional para o duplo homicídio. Passados 14 anos, no entanto, o processo continua parado. Um dos principais suspeitos, Augusto Farias, irmão do ex-tesoureiro de Collor, era deputado na época e gozava de imunidade parlamentar. Quando o caso foi avaliado pelo Supremo Tribunal Federal, colocaram uma pá de cal”, lamenta.

Do embate com Palhares, a quem acusou de cometer fraude pericial, resultaram oito processos na esfera criminal e seis na civil. Acabou condenado a dois anos de prisão por não comprovar as acusações contra o colega. Réu primário, Sanguinetti pôde cumprir a pena em liberdade. Ao menos em termos. “Desde o início, fui alvo de ameaças e tive de me enclausurar, na companhia de oito policiais militares que garantiam a minha escolta.” A casa do legista passou a ser protegida por grossas paredes de pedra, guarita reforçada e um pequeno arsenal doméstico: duas metralhadoras Thompson, quatro carabinas, quatro pistolas 357 e oito coletes à prova de bala. Parte da história está registrada no livro A Morte de PC Farias: O dossiê de Sanguinetti (Editora Scipione), vencedor do Prêmio Jabuti de 1997.

“À época, eu ainda era coronel da PM na ativa e todos esses homens estavam sob o meu comando. Depois que entrei para a reserva, a Polícia Federal passou a fazer a minha escolta. A proteção deles se encerrou em 2009, mas eu continuo tomando todas as medidas de segurança necessárias para proteger minha família. E nunca saio de casa desarmado. Nunca, em hipótese alguma”, reitera, desta vez com o olhar fixo ao interlocutor. “A diferença é que, naquela época, a opinião pública estava a meu favor. Quando aceitei defender o casal Nardoni, tudo mudou.”

Sanguinetti ofereceu uma versão diferente da perícia policial para a morte da menina Isabella, de 5 anos, encontrada morta em março de 2008 no jardim do Edifício London, zona norte de São Paulo, onde moravam o pai, Alexandre, e a madrasta, Anna Carolina. O legista sustenta não haver provas contra o casal, condenados pelo homicídio da garota. Entre suas alegações, descarta a hipótese de a madrasta ter estrangulado a garota antes de o pai arremessá-la pela janela. “Se tivesse ocorrido esganadura, haveria escoriações, equimoses, marcas de unhas. Nada disso foi apontado pelo laudo do Instituto Médico Legal. Além disso, fotografaram o corpo com uma placa sobre o pescoço, o que é inadmissível.”

De acordo com o legista, as fraturas sofridas pela garota foram resultado da queda, não de um espancamento anterior. Teria, então, a garota sido vítima de um acidente doméstico e caído sozinha da janela do prédio? “Nunca acreditei nessa tese, que até seria interessante para a defesa do casal. Concordo que o tempo em que o pai se ausentou do apartamento, cerca de sete minutos, é exíguo, mas não exclui a possibilidade de um invasor ter entrado lá e cometido o crime. Fora que existem lesões na genitália da garota e não acredito que elas ocorreram na queda do 6º andar do prédio. Querem achar o culpado? Procurem o pedófilo.”

Após a condenação do casal, o legista chegou a anunciar a publicação de um livro, destinado a apontar os erros da perícia no caso Isabella. A obra acabou embargada por decisão judicial, após a mãe de Isabella, a bancária Ana Carolina Oliveira, processar o legista. “Eu entendo as razões da mãe, que quer proteger a imagem da filha. A verdade é que a mídia julgou o casal Nardoni por antecedência, sem chance de defesa. Mas, veja bem... Sou um homem de princípios, jamais defenderia o casal se não estivesse convencido de que as provas contra eles são frágeis. Não estou aqui para livrar a cara de criminosos, e sim para garantir uma acusação justa”, diz, antes de esclarecer que costuma cobrar de 10 mil a 30 mil reais por caso “e não esse absurdo que dizem por aí” (na imprensa, especulou-se o custo entre 300 mil e 500 mil reais).

Nascido no Recife, Sanguinetti mudou-se com a família para Barreiros, no interior de Pernambuco, aos 4 anos, após a morte do pai, um inglês de sobrenome Fellows, enviado ao Brasil para supervisionar ferrovias de uma companhia britânica. Na infância, se divertia com filmes de faroeste no cinema que a mãe, filha de imigrantes sicilianos, montou na cidade, e se formou numa escola de padres jesuítas antes de ingressar na Faculdade de Ciências Médicas de Pernambuco. Com o diploma nas mãos, foi para a Escola Naval do Rio de Janeiro, mas decidiu voltar ao Nordeste. Optou por Maceió e fez carreira na Polícia Militar e como professor de Medicina Legal da Universidade Federal de Alagoas.

Do colégio jesuíta e da experiência na Marinha, diz ter moldado seu caráter. “Na minha casa, a disciplina é militar e a fé é católica. Você sempre encontrará, por exemplo, uma vela de sete dias acessa naquele canto”, diz, ao apontar para uma prateleira repleta de imagens sacras. O portão da casa é guardado por uma estátua de Padre Cícero, mas a presença do santo pagão parece causar constrangimento. “Ele não é reconhecido pela Igreja.”

Apesar da vida reclusa, o legista é bem conhecido pelas ruas de Maceió. Não falta quem comente suas peripécias. “Ele é um homem porreta, mas doido demais, sabe?”, diz um taxista do aeroporto local. “Vive se metendo nesses casos de morte que aqui todo mundo tem medo de se intrometer.” Para Sanguinetti, o comentário é quase um elogio. “Nunca fui diplomático. Sou um soldado, um homem de ação, que não tem medo de colocar o dedo na ferida”, define-se, pouco antes de narrar, aos risos, um episódio da época em que foi vereador de Maceió. “Fizeram uma greve e bloquearam a entrada da Câmara. Tentei conversar, mas depois de ouvir alguns desaforos saquei minha pistola e disse que entraria de qualquer jeito. Não sobrou um na minha frente. Eu sou assim, não baixo a cabeça a ninguém.”

É com esse ímpeto que o legista espera um resultado mais satisfatório no caso Bruno. “São poucos os profissionais que, como eu, têm coragem de expor os erros da polícia e da perícia oficial. No caso Bruno, por exemplo, deram ouvidos àquela história estapafúrdia de banquete canino com os restos mortais dela. Como seria possível, se não foi encontrado um único vestígio da vítima no sítio do atleta ou na casa em que teria ocorrido o ritual macabro? Como os vizinhos não escutaram nada e não havia uma gota de sangue de Eliza?”

O legista possui uma extensa lista de contradições no inquérito policial que, avalia, seria o suficiente para garantir a liberdade de Bruno e outros acusados pelo crime. “Resta saber se a Justiça dará ouvidos à defesa.”

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